Às vezes sim, às vezes não... (Parte II)

Já resumida a primeira parte, vamos à segunda: amor e consumo.

Para abrir esta parte segue trecho de outro texto de Reinaldo Azevedo, agora do dia 05 de julho:

“(...) Volta e meia, a imprensa é invadida, por exemplo, por notícias contra o Opus Dei, uma prelazia papal (...). O dado que mais escandaliza o noviciado esquerdista é o uso do cilício, opção feita por alguns de seus membros. Seu eventual usuário é tratado com as tintas dispensadas a um lunático, a um psicopata. Já um sujeito que ingere um comprido de ecstasy ou que rasga a própria veia para nela inocular droga, ah, esse não! Há de ser digno de respeito, compreensão e, com freqüência, admiração. Eu nunca soube que um usuário do cilício — que só pode fazer bem ou mal a si mesmo — tenha ido parar no hospital, onerando o serviço público de saúde. Não por isso. Também não consta que ronde escolas para fazer tráfico de penitência. Não obstante, veja você: há um preconceito a favor das drogas, que é uma chaga social, e um preconceito contra o cilício — que só é visto por quem usa.(...)”

Esse pedaço do texto traz para a segunda parte o elo com a primeira. É fato que tudo isso ocorre ao mesmo tempo. O Amor acontece ao mesmo tempo em que pensamos em estar bem, tanto fisicamente como psicologicamente. Digamos que existam três fatores para nós classificarmos “se estamos bem ou não”. Seriam a mente, o corpo e o “espírito” (para ser mais exato neta parte teria que entrar na contribuição dos filósofos gregos e refutar a questão de mente e corpo somente, pois não tenho como afirmar que o Amor se encontra somente na mente, no mesmo lugar que a inteligência. Prefiro ficar com os gregos, que diferenciam as duas partes, sendo o espírito, onde estaria o Amor, o instinto e outra onde estaria o conhecimento, a inteligência). Falar do amor é falar também de algo prazeroso. Algo que buscamos, ou melhor, que nos acontece sem saber bem por quê. Acho que os versos de Camões podem nos dizer mais:

Amor é um fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?


Em se tendo o Amor como fim, o caminho trilhado para ele é um caminho natural. Não existem padrões. Pode-se amar de muitas maneiras e ser o mesmo amor. A intensidade desse amor é algo que não se pode mesurar. Portanto, não existe uma hipótese de se ter barreiras para ele. Existe como tudo uma maturidade, mas não tira o mérito da etapa anterior. O que incomoda é o aspecto colocado como “tempo”. Não existe um tempo, por mais pesquisas que se fez sobre isso, não se chegou a nenhuma conclusão definitiva. Fala-se da diferença entre paixão e amor, sobre quanto tempo dura e se este tem motivos de atração, nos instintos mais selvagens do homem. Mas isso nada tem a ver com o consumo de amor como um produto. Talvez essa seja a parte mais polêmica. O fato de o Amor não ser algo fácil, nem de se explicar e nem de sentir, também nada ter a ver a convivência de pessoas com o fato de se amarem. Não é por amor que as uniões não têm êxito. Tem os outros fatores todos envolvidos. O fato de estar bem psicologicamente e fisicamente é importante. Ou seja, o consumo por uma forma preestabelecida de amor é uma das grandes manifestações sem explicação, ou melhor, mistificadas. Numa sociedade onde se consome desde a imagem, onde não existe mais aquele tempo para o repouso, para a reflexão, fica bastante comprometido o êxito das relações que representam o amor, como a formação do núcleo familiar. Não sou eu a dialogar sobre estas formas, principalmente que no fundo é só uma parte do todo, e muito menos pontuar os aspectos negativos e positivos da sociedade de consumo. Principalmente que os exemplos anteriores a essa sociedade estariam onde? Na Idade Média?

Bem, a relação que quero chegar nessa segunda parte esta exatamente no posicionamento igual ao dos esportes: faz bem fazer esporte, mas se esta fazendo da forma que é boa à saúde ou se esta enganando o estado psicológico? Assim como as drogas, existe no consumo material uma relação de preconceito em se aceitar as coisas como podem ser, ou na total falta do planejamento das coisas. Quando se entra numa faculdade, a única coisa que sabemos que ao término do curso estaremos aptos a exercer a profissão, assim como no amor sabemos que ao nos dedicar a uma pessoa nós estaremos junto com alguém, mais nada além. Mas nos esforçamos para conquistar as metas as quais temos simpatia e evitamos as que não temos. Da mesma forma mudamos de idéia, ou não, a respeito das questões, por inúmeros motivos.

Seria como se não existe um tempo para se casar, não existe um tempo (se não o físico) par se ter filhos, assim como não existe um prazo (além do dado pela saúde) para se conquistar as questões materiais as quais somos ligados. Ou seja, casar por querer ter filhos é o mesmo de viver infeliz para tentar encontrar a felicidade naquilo que você nem sequer sabe o que é (ou vai ser). Seria uma questão de se pesquisar como se sente a mãe de, por exemplo, Felipe Massa, da Fórmula 1, ou a mãe de Luciano Huck, Angélica, ou qualquer outra celebridade ainda jovem, que já tenha certo tempo de carreira e que de uma forma possa se dizer bem sucedida, e comparar com o depoimento da mãe do Champinha (sei lá se esta escrito certo, não me importa escrever errado nome de assassino) ou do Maníaco do Parque (Francisco de Assis Pereira). Nunca se sabe o que seu filho pode se transformar, mas o lógico é que nenhuma mãe quer ser a mãe do Maníaco do Parque. Luta para não ser.

Mas entrando diretamente na parte que tange o consumo, temos nele a nossa maior conquista em termos sociais (não entro aqui no mérito de serem positivas ou não, pois o termo “maior” esta colocado como número de estudos). Nesse aspecto existem muitas pesquisas. E a relação desse consumo e seu elo com as opções individuais e àquelas opções feitas baseadas no Amor, são intermináveis.

Resumindo, o consumo confundido com amor, além de ser um dos mitos a serem estudados (não por mim), é um daqueles locais onde existe a maior falta de padrões, ou melhor, onde existem padrões distorcidos preestabelecidos na sociedade atual. E neles se reflete toda uma cultura, ou subproduto dessa cultura (isso que me interessa). Este subproduto esta no cinema, na televisão, na música e até mesmo no esporte.

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