julho 09, 2009

O uniforme

Andava pelo saguão do aeroporto puxando aquela pequena mala. Rabo de cavalo, uniforme vermelho e branco, lenço no pescoço. Sapatos pontudos e sombra sobre os olhos. Perfeita. Passa a passo vinha na minha direção. Ainda não havia me encontrado com seus belos olhos. Mas lá estava eu, observando. Tinha esperado semana a semana, dia a dia, hora a hora, por aquele momento. Vê-la era tudo que queria naquela semana. Não que tivesse sido uma semana ruim ou outra coisa qualquer, afinal aos 21 anos de idade nenhum trabalho e nenhuma faculdade poderiam ser tão estressantes assim. Tudo parecia muito mais fácil depois daquele dia. Aquele talvez fosse o momento em que esperei por toda a vida.

Não era uma vida muito longa até ali. Havíamos nos conhecido a cerca de algumas semanas e nos falado depois por telefone outras poucas vezes. Era nosso segundo encontro. Minhas noites que eram regadas a diversões múltiplas pareciam o preparo para aquele momento. Parecia o ritual de passagem para uma nova fase da minha vida; minha primeira paixão.

Não tinha feito outra coisa além de observá-la no dia em que a vi sentada. Cada movimento seu era notado por mim. Estava naquele dia de jeans e uma blusinha branca, com os cabelos soltos, sorriso no rosto. Eu estava mesas atrás, com o copo de coca-cola na mão, olhos nela e um silêncio ensurdecedor para meus caros companheiros de balada. Seria somente mais um dia de observador, numa vida, até então, de observador, num futuro de observação, se ela também não tivesse dado o primeiro passo, aquela noite.

No saguão finalmente me viu. Sorriso no rosto apressou o passo. Aquele som dos passinhos era impressionante. Enfim o beijo. Meu rosto ruborizou. O silêncio só era quebrado por sua voz a contar sobre as cidades que havia conhecido. Tudo nela era interessante. Mas como alguém poderia mudar tanto de um dia para outro? E meu silêncio era metade inquietante e metade deslumbrado, pois nunca imaginei aquele uniforme a me abraçar. E ela continua a contar as novidades, quase lhe faltava o ar de tantas palavras.

Naquele primeiro dia o que mais gostei de observar eram seus jogos de cabelos da esquerda para a direita, da direita para esquerda, atrás da orelha, para trás dos ombros, entre outros. No saguão ele mal se mexia. Tinha a curiosidade de tocá-los para saber se estavam duros por algum produto. Uma curiosidade quase tão inquietante a de entender por que aquele pequeno uniforme possuía o poder de transformar algo que era já maravilhoso em simplesmente divino. A minha sorte é que ela sairia para o jantar daquela forma e ainda havia se preocupado se eu me importaria. Se ela soubesse o que sei agora nunca mais vestiria um jeans na vida...

No restaurante a observava a falar. E como falava. Não se importava com meu silêncio observador. As pausas eram pequenas, entre uma garfada e outra daquele risoto. A cor da páprica destoava de seu uniforme. O uniforme. O uniforme que eu não parava de olhar. Olhava para seus movimentos, para suas pernas que trocavam de posição. Estava lado a lado, pois detesto ficar longe da então minha amada comissária e, mais que tudo, ali também podia observá-la por inteiro. Uma única frase no momento em que a deixei em casa:

- Adorei nossa noite. Você é um amor de pessoa e me escuta como ninguém neste mundo. Até semana que vem.

E no caminho de casa pensava nas minhas próximas noites, com o copo de coca-cola na mão a observar o mundo, sonhando com aquele uniforme. E dentro do carro rádio continuava a romper o silêncio:

“Every breath you take
Every move you make
Every bond you break
Every step you take
Ill be watching you

Every single Day
Every word you say
Every game you play
Every night you stay
Ill be watching you (...)”

Every breath you take – The Police - 1983