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dezembro 03, 2014

Novos Horizontes

“(...) chuva de containers, entertaines no ar
eu presto atenção no circo que nos cerca
chuva de containers, entertainers no ar
começo a achar normal algum boçal detonar

se tudo passa, talvez você passe por aqui
e me faça esquecer tudo que eu vi
se tudo passa, talvez você passe por aqui
e me faça esquecer que...

… falta pão, o pão nosso de cada dia
sobra pão, o pão que o diabo amassou (…)'

Toda Forma de Poder
e música incidental: Chuva de Containers
Engenheiros do Hawaii - Novos Horizontes (2007)

Toda vez que escuto esta música, nesta versão acústica, do segundo (terceiro) álbum acústico dos Engenheiros do Hawaii eu consigo ver finalmente a reinvenção de Toda Forma de Poder. Sempre esperei por uma versão melhor que a gravada ao vivo em 1989, no álbum Alívio Imediato. E em Novos Horizontes foi possível. O estranho é esperar sete anos para escrever isso...

Lembro de ter escrito algo a respeito em 2007... Mas não tinha escrito o quanto me agradou esta versão. Eu já citei mais de uma vez alguma parte de Toda Forma de Poder, mas sempre algo na versão original me deixava com uma sensação de querer algo mais, uma versão diferente, não sei dizer se esta foi a materialização plena desse desejo, mas com certeza a mistura com Chuva de Containers, do álbum GLM (1992), foi tão interessante, tão densa. Lógico, só para quem é fã. Não sendo fã de Engenheiros nem sequer dará conta que houve a música incidental... Eu mesmo tenho consciência disso e nem me importo. Continuo gostando muito da versão.

De certa forma, acho que falar de Engenheiros e lembrar de pelo menos dois momentos marcantes na minha vida que os escutava muito e que parecia encontrar nas letras algo que me tocava profundamente. Não sei dizer porque eles estavam lá, mas estavam e esta é a história. Poderiam ser outras bandas, outras composições, outras histórias. Mas não, lá estava o Humberto e os músicos, fazendo um som...

Falar dos nossos momentos é sempre interessante. E essa postagem de hoje fala mais de mim mesmo. Um pouco autobiográfica, mesmo sem ser. Um pouco daquilo que é e que não sei dizer porquê. Um pouco de nada que diz tudo...

O disco é mais uma experiência interessante. Músicas novas gravadas ao vivo ao lado de versões acústicas de músicas consagradas. Novamente, deve ser interessante para um pouco além dos fãs, mas não muito. Minha opinião.

Foi praticamente o último disco antes de Humberto começar a se dedicar a literatura. Depois se dedicou ao projeto Pouca Vogal e ao atual Insular, seu primeiro disco solo. E foi por enquanto o último disco dos Engenheiros do Hawaii. Já era hora de abandonar este nome...

novembro 19, 2013

Start from the Dark...

Toda vez que um caminho se abre eu penso em quantos caminhos trilhamos ao mesmo tempo e onde é que vamos chegar. Nos últimos dias vejo as pessoas falando sobre biografias, justamente falando sobre as biografias derretidas com o caso do “mensalão”. Se há alguma coisa da qual eu não quero nem ouvir falar é do PT – o partido dos trabalhadores. Tanta coisa boa e gostosa a ter de falar nesses “malas”...

Começando de novo, o importante é que a vida é muito mais ampla e no tempo em que estive muito ocupado demais para escrever aqui tive uma produção incrível. O problema é que muita coisa acaba passando e não fica registrado por aqui. E isso sempre foi umas das muitas intenções de se escrever neste blog. A marcação das coisas sem importância, dos momentos de diversão, como o lançamento de alguns filmes, de livros, eventos. Algo sempre se perde...

Minha última postagem falava justamente sobre política, sobre o ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, ir embora. Nisso se passou um enorme processo eleitoral, bastante interessante de ser avaliado. Uma das coisas de que mais gosto é do processo político – muitas vezes as pessoas confundem isso como falar de política e de políticos, quando o que realmente me motiva é o processo. Na política internacional, Barak Obama se reelegeu – eu torci contra, mas os Republicanos não tinham candidato... Mas vai embora logo mais, em 2016. O que é muito bom. Bom para quem gostou e melhor ainda para quem não gostou. Uma das grandes vantagens das democracias é justamente a possibilidade de restauração do foi ruim e possibilidade de se manter o que foi bom. Já temos um pouco disso na prefeitura de São Paulo.

Por mais que a politicagem eleitoreira impeça o debate real de idéias e mais ainda a “fantasia” sobre os fatos, a verdade é que se inaugurou uma forma de gerir a cidade com a administração da atual ministra da cultura Marta Suplicy e houve continuidade nos governos Serra e Kassab. É lógico que houve fatos que merecem um demorado estudo, mas que ali se iniciou uma transparência que sempre motivou debate. As escolas de lata de Marta se chocam com a transparência dos salários divulgada por Kassab, assim como a continuidade dos CEU’s nos governos Serra e Kassab e a maior bomba de todas: a inauguração do tal fura-fila do Celso Pitta e Paulo Maluf – este último aliado de primeira hora no processo eleitoral do atual prefeito petista, o super-coxinha Fernando Haddad.

Alias, super coxinha ou super-coxinha, sei lá eu, foi uma invenção do jornalista Reinaldo Azevedo, que continuou nestes anos todos batendo de frente com a política petista, algo da qual eu não quero nem saber! Ainda bem que ele está lá... Já falei com ele que o preferia escrevendo outro Contra o Consenso, um dos meus livros queridos! Quando escrevo assim já falei com ele, fica parecendo que tenho enorme intimidade, mas não é nada disso. Falei com ele no lançamento de O País dos Petralhas II, neste ano de 2013 ou será que foi em 2012? Acho mais provável ser em 2012...

Eu tenho uma brincadeira entre os amigos mais próximos de falar que o Dave Mustaine me telefonou para falar do show, etc... E em setembro tive o prazer de assistir ao show de Mustaine e banda na abertura para o show do Iron Maiden. Mais do que isso, em 2012 havia comprado sua biografia em Londres e enviado um e-mail para a Editora Benvirá para que lançassem em português esta biografia. Não é que um colega de trabalho me falou que haviam lançado a biografia dele, tempos depois? Fiquei feliz e triste ao mesmo tempo. Triste por ficar sabendo assim, por um colega que leu num jornalzinho de metrô, sem nenhum cuidado por parte do editor – que, se eu que sou fã da biografia nem fiquei sabendo, imagina quem sequer sabe do que se trata?

O que é legal voltar a falar de biografias – tema que iniciou esta postagem. O nome desta postagem também é sugestivo. O disco de retorno da banda Europe, uma das grandes bandas suecas da década de 1980, em 2004, foi exatamente Start from the Dark. Não é um dos álbuns que mais me marcaram, mas o nome é interessantíssimo!

Falta falar de arquitetura. Talvez o maior fato destes últimos anos que não escrevi com freqüência tenha sido o de Oscar Niemeyer ter falecido. É claro que eu imaginei que a notícia fosse ser mais forte e presente no debate arquitetônico, mas não. Inúmeras homenagens e a arquitetura passou novamente a não ser mais assunto. Uma vez ou outra aparece uma notinha aqui, outra lá. Mas Paulo Mendes da Rocha ainda é um nome desconhecido do público – digo mais: não só do público geral, mas até dos círculos mais esclarecidos. Uma pena...

outubro 07, 2011

Saxon - Unleash the Beast

Depois do show do Saxon, em 1998, um amigo – um dos mais próximos de todos os tempos -  me disse que parei de falar sobre Saxon. Faz sentido lembrando do show do Monsters of Rock...


Mas o álbum Unleash the Beast, ao lado de Innocence is no Excuse, é um dos meus álbuns prediletos desta banda que parece ser um pouco obscura para os padrões brasileiros. O Saxon não deve ter uma legião de fãs muito grandiosa, porém, estes álbuns caem tão bem aos ouvidos – ouvidos de ouvinte de Heavy Metal, diga-se; não tenho por objetivo ser “eclético” e nem mesmo “aberto à novos sons”. 


Faixa atrás de faixa, este álbum guarda muitas nuances que só o tempo vai mostrando. Claro, à primeira audição pareceu extremamente pesado, principalmente comparando ao que esperara encontrar. O ano era 1997 e o Saxon viria em turnê para o Brasil. Não vi outro show do Saxon, a não ser o já citado, em 1998. Mas todos me falaram que perdi um super show em 1997 (falam também do show do Scorpions em 1994 – pelo menos esta banda eu cheguei a ver em 1997). Nem sei sobre os lançamentos do Saxon no período posterior a este álbum, mas já é esperado um novo álbum este ano de 2011. Mas Unleash the Beast continua a ser um álbum que muito me agrada. Na época, a minha história com este álbum foi incrível. Nem lembro ao certo o que me motivou a comprá-lo, mas sem dúvida entrou para a minha lista dos álbuns mais interessantes.

Iron Maiden

Uma das bandas mais famosas do mundo e nunca havia escutado com mais calma em toda a minha vida... Pois é uma das daquelas idiossincrasias das quais somos cometidos de quando em quando...
Porém, acabei de comprar um cd – sim, um compact disc, como aqueles da década de 1990. Foi o Somewhere in Time, simplesmente a segunda melhor capa do Iron Maiden e um disco excelente do começo ao fim.  Eu sou um fã das capas de discos – aqueles em vinil – do Iron Maiden. Acho os desenhos incrivelmente fantásticos. Assim como a capa de Rest In Peace, do Megadeth, acho Killers algo inacreditável de tão bem desenhado! Essa é a minha capa número um. E, claro, o disco também é. Não sou um fã de Dianno, mas o disco tem faixas que em minha adolescência curti de forma alucinada! Iron era, ao lado de Metallica, uma das bandas ícones da minha adolescência. Incrível como eu sou um fã de Black Sabbath e Ozzy – este um fã até das besteiras – e não fui um fã alucinado de Iron... Nunca entendi o porquê disso, mas...

Os cd’s ainda têm em mim um fascínio, um pouco diferente do vinil que lembra a infância – sim, eu curti o disco do Balão Mágico -, mas muito próximo. Acho que a ideia de álbum é ainda, para mim, uma ideia que poderia permanecer; a ideia de uma obra que tem em várias músicas, a continuidade. Hoje, ao passar na Livraria Cultura – dizem ser a maior da América Latina, na Avenida Paulista – vi o lançamento de uma caixa de cd’s do Pink Floyd, com aqueles álbuns que formaram o imaginário da minha adolescência – aquele disco com a vaca na capa; ia à Galeria do Rock e olhava os discos usados (vinil usado) e sempre aparecia este – todos remasterizados. Esta realmente é uma banda que continuo passando ao largo; do Pink Floyd continuo a curtir somente o The Wall.

Mas voltando ao Iron Maiden, o fator atividade conta muito. Em 1990, aos meus incríveis 14 anos, lembro do lançamento do disco No Player for the Dying, que meu tio comprou em K7 (será que alguém ainda lembra de K7?). Em 1992 fora lançado o Fear of the Dark, e a banda tocava constantemente na MTV, que era assíduo telespectador (nem sei se era tão assíduo, pois vários programas nem lembro e muitos amigos falam ter sido os melhores anos da MTV...). E a banda segue, com a variação da saída de Bruce Dickinson e sua volta triunfal ao final dos anos 1990, junto com Adrian Smith - cujo show, Bruce Dickinson e Adrian Smith, tive o enorme prazer de assistir na pista de atletismo do ginásio do Ibirapuera em 1997 – produzindo sons com qualidade equivalente, mesmo que os fanáticos digam nem ser a mesma banda... Para quem é fã realmente há diferenças marcantes... Não poderei nuca discutir sobre isso... Mas ouvir um disco de 1986 e continuar a achar ele especial é porque realmente a força desta banda ultrapassou a barreira que todas as bandas almejam: a imortalidade clássica!

Poderia fazer um apêndice sobre o Metallica, cujo show recente no Rock in Rio não deixou dúvidas que é uma banda que tem um passado de peso e qualidade inquestionável. Porém, desde 1991 não consegui curtir nenhum álbum da mesma forma – sendo o Black álbum já algo a se questionar, mesmo eu tendo uma grande estima por este álbum (um dia poderia até escrever sobre ele em Diary of a Madman).

Bem, se alguém ainda tem dúvidas sugiro a audição de Somewhere in Time. Como já falei por aqui, Alexander the Great é uma das faixas que admiro muito!

junho 01, 2011

Eu sou Ozzy...

Nada melhor do que voltar ao meu blog com uma postagem da, como poderia chamar, lenda da minha adolescência.

Dia destes, estava eu na livraria e olhei para o livro Eu Sou Ozzy e me alegrei de tal maneira a poder saber a vida desta lenda contada por ele mesmo. Ao menos o que ele lembra, segundo ele mesmo no prefácio do livro. A vida de Ozzy Osbourne é sem dúvida algo de muito interessante. Ainda não escutei seu último álbum – Scream -, mas se seguir a linha de Black Rain tenho a ligeira impressão que não me impressionarei... Tanto o novo álbum quanto a autobiografia são lançamentos de 2010. Porém, como nada havia pronunciado até então, para mim ainda é novidade.

Poderia divagar a respeito falando da grande quantidade de informação e tudo mais, mas não; o que ocorreu mesmo foi total falta de tempo. Estou só agora em 2011 retomando projetos que estavam simplesmente parados. Um dos projetos é arquitetar um caminho para o blog. Sinto de muitos leitores discretos que não tem nada sobre arquitetura neste blog. Pois bem, a ideia era mesmo ter de tudo e um dia encontrar um caminho. Comecei a escrever em 2007 e em quatro anos ainda não encontrei o eixo e acho que eu gosto de ter este espaço para escrever sobre tudo, sobre o que é o amor, sobre o que nem sei quem sou... (não, não, chega!!!).

Voltando ao Ozzy, quero lembrar aqui que ao me dedicar a escrever minhas lembranças (pseudoauto biografia) dei o nome de um álbum de Ozzy Osbourne (aqui). Naqueles anos, o que mais me chamava atenção – e até os dias atuais – é o guitarrista Randy Rhoads. No livro Ozzy dedica praticamente um capítulo a este episódio. Por sinal o único que li naquele dia na livraria. Passei por partes da infância de Ozzy e do reality show The Osbournes, o que eu acho – minha opinião – acabou com o mito Ozzy Osbourne e o deixou com uma popularidade um tanto quanto distante das letras que houvera escrito. Como falar de Ozzy do The Osbournes e pensar em um Ozzy que conhece Aleister Crowley (isso mesmo: da música Mr. Crowley)? Bem, agora me resta à dúvida se há citações a respeito das leituras que Ozzy teve. Quando li a autobiografia de Eric Clapton, ele citou escritores, como Kurt Vonnegut. Bem, logo que eu comprar e ler o livro voltarei a falar mais dele.

outubro 10, 2010

17 anos depois...

Em 1993 assisti pela primeira vez o Bon Jovi ao vivo. Em 2006, quando morava nos Estados Unidos, era para ter visto pela segunda vez. Na minha adolescência o Bon Jovi não era a minha banda predileta. Para ser mais exato, até hoje não é uma das bandas que mais gosto. Mas talvez seja uma das únicas daqueles anos que ainda está em atividade com a mesma formação. O show de 1993 foi um show bastante interessante à época, não tenho enormes lembranças, mas foi o show da turnê Keep the Faith. Lembro bem mais das músicas do álbum Slippery When Wet e New Jersey. Diria que gosto mesmo destes dois álbuns. Era o show de reunião da banda e Jon Bon Jovi cantou uma música de seu álbum solo: Blaze of Glory. Este álbum solo foi o único álbum que comprei até hoje do Bon Jovi. Era ainda em vinil, no longínquo ano de 1991. Ainda hoje gosto muito das faixas Miracle e Santa Fe. É um álbum bem divertido e gosto de escutá-lo de vez em quando até hoje.

Agora, 17 anos depois, nesta semana, tive o prazer de ver novamente a banda tocando. Agora o palco não era o estádio do Pacaembu, como em 1993, e sim o estádio do Morumbi. Não fiquei até o final do show, em virtude do horário avançado para uma quarta-feira e do meu cansaço pessoal, já que tinha chego de uma viagem de trabalho no dia do show. Soube depois que o show se estendeu por pelo menos uma hora depois da minha saída, com mais de três horas de duração. Mas tudo bem... Já haviam tocado as música que queria ouvir de novo... Para mim estava mais do satisfeito. Foi realmente um show que atendeu aos anseios de todos ali presentes. Um show que contemplou muito da carreira da banda, tocando os sucessos do passado e as músicas que fizeram sucesso já na década dos anos 2000. A produção do show estava sensacional, com imagens impressionantes nos telões, inclusive até com a imagem projetada de Pelé e outras personalidades, durante uma canção. Os cinco elementos ainda sabem fazer 65 mil pessoas pularem...

Agora, que saudades de ver um show nos Estados Unidos... O brasileiro precisa entender que conforto não é nada de mais, e que o preço do ingresso deveria atender a isso. Eu tive que ver um show da escada e ter que empurrar as pessoas – diga-se suadas, sabe-se eu lá de que substâncias, pois tava uma temperatura de menos de 20ºC – para conseguir sair. Ou o brasileiro é realmente muito mal educado, ou a organização é muito ruim, ou as duas coisas... Sem contar que essa mania de ficar 100% do tempo de pé, na arquibancada, é algo um tanto quanto idiota... Num jogo de futebol, que são 90 minutos mais 15 de intervalo, todo mundo fica sentado durante a maior parte do jogo...

abril 02, 2010

Jovem demais para morrer...


Num dia nada especial, numa noite sombria, resolveu que não mais deveria pertencer a este mundo. Sua resolução era reflexiva; pensava nos amigos, na tia, cuja casa dividia, na ex-esposa e na musa inspiradora de suas plácidas obras de arte, que produzia de forma quase incessante. Os quadros revelavam a verdadeira veia do artista, principalmente ao trabalhar os tons de vermelho sob o fundo branco. Seus traços eram jovens; muito mais jovens que sua verdadeira idade. Assim como o senhor Gray, sua face parece não padecer das ações do tempo.

Havia escolhido a noite para realizar o feito; o mal feito. A noite para ele era um momento mágico e ao mesmo tempo algo terrível. Mágico, pois conseguia produzir sem parar, sem atender ao telefone, sem falar com as pessoas. E terrível justamente por não perguntar para as pessoas como está indo sua produção. Sua vontade em dividir o processo criativo o amargava demais durante a noite. Como não perguntar à tia e aos amigos se gostam das cores, dos traços e se estes estão próximos ao rosto e corpo da musa, cuja inspiração não parava. Mas já havia decidido: sua vida não fazia mais sentido. Pensou em tudo, atualizou sua agenda, resolveu pendências e deixou tudo em ordem para aqueles que herdariam seu patrimônio sem valor material. Tinha seu rico dinheiro, oriundo de um marchand amigo, que vendia seus quadros. Claro, somente os que não achava perfeitos. É talvez o único artista que só vendia o que não gostava em sua produção. Sua vida era uma propaganda enganosa ambulante.

Não achava que as artes plásticas eram importantes para além do próprio artista. Mas sua maior vontade era fazer com que seus desenhos vivessem para sempre. Sempre lembrava das memórias póstumas, escritos centenários de seu autor de cabeceira, principalmente de sua dedicatória primeira. Pensava em como a matéria é imperfeita e que a condição de não poder compartilhar do mesmo solo sagrado de outros tantos não o afligia. Pensava sempre em Nicolò, proibido pelo bispo de Nice de se deitar eternamente, por conta de sua exibição de virtuosismo, como se fosse possível virtuosismo sem sua exibição.

Uma luz se acendeu no terraço com piso de pedras recobertas de uma pequena camada de musgo. Pensava em que o escuro completo não iluminaria seu caminho por entre as barcas. O tempo foi passando e ele ali parado, roendo as unhas. Já ao final da noite, próximo ao nascer do sol, decidiu que deveria mudar tudo. Não poderia ir embora antes de sua musa. Virgilio talvez o acompanhasse nas primeiras barcas, mas a principal delas somente poderia ir com Beatriz. E, num discurso semelhante ao proferido por Scarlett O’Hara, manifestou seu desejo de se livrar de seus desenhos todos e buscar a felicidade numa nova fase. Uma fase em que se sentia novamente jovem, com seu fôlego igual ao de um atleta olímpico. E no pequeno rádio tocava uma velha música conhecida...

Let's dance in style, let's dance for a while
Heaven can wait we're only watching the skies
Hoping for the best but expecting the worst
Are you going to drop the bomb or not?

Let us die young or let us live forever
We don't have the power but we never say never
Sitting in a sandpit, life is a short trip
The music's for the sad men

Can you imagine when this race is won
Turn our golden faces into the Sun
Praising our leaders we're getting in tune
The music's played by the mad men

Forever young, I want to be forever Young
Do you really want to live forever?
Forever, or never 

Forever young, I want to be forever Young
Do you really want to live forever?
Forever Young (...)


Forever Young - Alphaville (1984)

fevereiro 17, 2010

Passeando por algumas bandas dos anos 1970...

Quem viveu os anos 1990 lembra que havia muita celebração em torno de bandas dos anos 1970. E muita música boa foi produzida naquela década... Para ser exato vou falar aqui de algumas bandas que não são destaques, ou melhor, não são as bandas mais comentadas daqueles tempos. São bandas conhecidas, óbvio, nunca fui um “caçador de raridades”. Mas, as músicas que falo abaixo, acabei por conhecer sem querer.

Vou começar com o Nazareth. Não tenho grandes coisas a falar deles, mas que muitas de suas músicas até hoje me fazem “ouvir música de uma forma diferente” (citando Zeca Camargo de memória).

“(...) Mama, mama, please no more jaguars
I don't want to be a pop star
Mama, mama, please no more deckhands
I don't wanna be a sailor man
Mama, mama, please no more facelifts
I just don't know which one you is
Mama, mama, please no more husbands
(I don't know who my daddy is)


It's a holiday, it's a holiday”

Holiday – Nazareth (1980)

Na verdade, começo com uma faixa de 1980, do álbum Malice in Wonderland, mas é incrível como soa igual ao Nazareth dos anos 1970. Esta música não fazia parte do “vinil” (isso, no começo dos anos 1990 ainda havia muitas lojas de vinil usado) Greatest Hits, o primeiro registro que ouvi do Nazareth. Era um disco comum nas lojas e acabei por emprestar de um amigo, gravando numa fita K7 o álbum todo.

Existia um precedente, que já comentei aqui, de uma fita K7 com a música Hair of the Dog. Mas o primeiro registro mesmo foi aquele vinil. Com as músicas (baladas) Love Hurts e Sunshine, ao lado de Hair of the Dog, o disco era muito bom. Nunca li e nem ouvi ninguém falando que Nazareth é a banda preferida, ou algo parecido, mas é uma banda competente e que tem muita música boa em muitos discos... Poderia dizer que é um tanto irregular sua produção musical. Talvez seja este o motivo da banda nunca ter sido colocada entre as grandes bandas dos anos 1970.

O Bachman-Turner Overdrive foi também daquelas bandas que quem viveu os anos 1970 conhecia bem, mas nos anos 1990 pouca gente falava a respeito. Hey You! era a música mais conhecida, por sinal também estava naquela fita K7, ao lado de Hair of the Dog. Mas a música que quero registrar aqui é Rock is my life, and this is my song, do álbum Not Fragile, de 1974.

“(...) When we come into a new town
Everybody's there
When we play our music
Hand are in the air
When the musics over
You wonder where we are
I'm standing in the silence
With my old guitar (...)”

Rock is my life, and this is my song – Bachman- Turner Overdrive (1974)

Com esta música que minha falta de percepção em entender o que é uma música lenta começou... Para mim, era esta uma música lenta...

Não é este um texto com profunda vocação ao passeio pelos anos 1970, mas é sim um texto sobre como desenvolvi um gosto musical praticamente isolado dos padrões daqueles anos 1990. Uma tentativa por palavras para descrever um tipo de música que nunca li ou soube que alguém mais gosta, além de mim. Não deixo de gostar de outras tantas bandas, como já falei neste espaço. Nem por isso deixo de expressar que há muita música de boa qualidade no mundo, que em momentos passa como “desconhecida”.

janeiro 30, 2010

Mais Ramones...

Estava outro dia fazendo uma visita a um escritório de arquitetura. O local mais parecia uma caverna. Uma escadinha e estava numa das antigas sobrelojas, onde é o tal escritório. Sem contato visual com o exterior e num ambiente definitivamente desligado do contexto tropical brasileiro, estava na tal sala de espera escura daquele escritório. Não sei dizer, mas a luz hoje me anima mais que as trevas de outrora. E havia um som ambiente. Nas caixas rolava a tal Mitsubishi FM. A minha sorte foi estar na sala de espera e estar a tocar nas caixas um bom e velho Ramones. Falei tempos atrás sobre Ramones aqui. E continuo a dizer que eles fazem parte da minha vida. Ao lado de outras bandas como o Kiss, Ramones também teve sua fase na minha vida. E vejam só, ainda hoje quando escuto lembro daqueles momentos.

O mais engraçado é que em nenhum momento tento dar “valor erudito” aos Ramones. O importante é curtir e falar que gosto mesmo e era bem punk rock mesmo. Nada de “valores intrínsecos”, “expressão artística” e outras delinqüências intelectuais. Não. Ramones é Ramones. E curtir na sala de espera foi uma alegria ímpar.

Imagino eu, se um dia fosse entrevistador de RH, questionando um candidato: “Ei, qual sua opinião sobre Ramones? Sabe, nos temos uma filosofia empresarial bastante arrojada... “

novembro 08, 2009

Rocket to Russia

Certa vez lembro de ter ouvido falar que o João Gordo – da banda Ratos do Porão (na minha época), hoje, VJ da MTV – expulsou uma banda que entrevistava em seu programa quando os integrantes falaram que não gostavam de Ramones. Nem sei que banda era, mas sou obrigado a dizer que concordo com ele plenamente em ter mandado os caras embora. Ramones é unanimidade. Pode-se não gostar de Elvis ou Beatles, talvez Rolling Stones, mas é praticamente impossível passar por Ramones e dizer que não gosta, ou, quem em momentos da vida não balançou com alguma de suas músicas? Eu sempre gostei. Mesmo entendendo que não há nada além de atitude pura ali. Muita atitude, por sinal. Mas minha adolescência foi regada por Ramones. Sou quase um suspeito para falar da banda. Mas dentre todos os discos que ouvi à época e que continuam – como diz o Zeca Camargo – a tocar no meu iPod, este disco de 1977, Rocket To Russia, continua a me animar. Um disco que até hoje escuto faixa por faixa. E pior: gosto de ouvir na seqüência original das músicas...

Mas sempre digo que há momentos específicos para escutar Ramones. Mas que normalmente são impressionantes. Diria que é a banda de punk rock que me faz “escutar música de forma diferente” – plagiando novamente o Zeca Camargo. Deveria eu estar aqui a fazer uma resenha, mas pra que? Quem conhece e gosta não vai se interessar em ver repetidas frases a respeito do álbum, afinal, nada de novo tenho a falar. Quem não gosta não vai resolver gostar de Ramones só porque eu disse alguma coisa. Alias, quem não ouvia Ramones na adolescência não me parece ser de confiança... Em muitos momentos me perguntei se deveria ter escutado mais The Police que Ramones na adolescência. Mas hoje vejo que cada um tem seu momento. Mas, na adolescência, a banda de Sting perdia feio...

novembro 02, 2009

Meus heróis morreram de overdose...*


“If the doors of perception were cleansed, every thing would appear to man as it is, infinite.“

William Blake - The Marriage of Heaven and Hell.

Começar um texto que batizei com um trecho de uma música do Cazuza, já demanda certa dose de esforço fora do normal para ir em frente e pontuar alguns tópicos. Não tenho muita afinidade com as letras de Cazuza e sua música não teve para mim o mesmo impacto de outras bandas da mesma época, como até já me referi aqui neste mesmo blog. Mas algo dos meus 15 anos ainda permanece na minha mente e cada vez mais confuso. Não vou falar nada de Cazuza, mas de outras três personagens reais que me balançaram – e ainda balançam - em momentos diferentes e que acabaram por bater a minha porta por várias e várias vezes.

Túmulo de Jim Morrison - Cemitério de Père-Lachaise, Paris.

A primeira personalidade que vou falar é do sempre jovem Jim Morrison – uma das duas coisas boas de se morrer jovem é que nunca envelhecem; a outra é a não revisão do legado deixado, deixando sempre uma lacuna aberta para um infinito de interpretações. Quando assisti pela primeira vez o filme Doors, de Oliver Stone, não entendi nem a metade daquilo que viria a ser uma das bandas mais comentadas entre meus colegas de colegial. Pouco tempo atrás assisti novamente ao filme e a cada vez observo novos detalhes que me haviam passado despercebido. Quanto mais tempo se passa mais identifico o poder artístico distante daquela busca das novas emoções da juventude. O mais impressionante é o poder das letras atrás das músicas que ainda hoje tem o poder de embalar momentos marcantes da minha vida. Quanto mais o tempo passa mais informações vamos acumulando.

O fator que me chama atenção na figura de Morrison está nas pequenas apresentações indiretas que me trouxe. Não poderia deixar de descrever a primeira apresentação indireta de uma música do Doors. Foi aos meus 10 anos de idade num disco, famoso à época, um LP da moda daqueles tempos, chamado Rádio Pirata ao Vivo, do RPM, onde Paulo Ricardo cantou incidentalmente Light my fire no meio de uma música. Isso data de 1986. Pouco tempo depois, em 1991, veio o filme de Stone. Mas Doors não parava ali a me apresentar novidades. Descobri o poeta William Blake através de Morrison. Depois, ao me interessar por ficção científica, acabo por descobrir Aldous Huxley, e o seu livro As Portas da Percepção – livro que dá nome à banda de Jim Morrison. De Huxley ainda acabei por ler Admirável Mundo Novo, e hoje é um dos autores que acabo por esbarrar na condução de uma busca intelectual e em muitos casos como simples citação – como a cerca de dois anos, citado explicitamente no texto de um arquiteto.

Mas, além de suas letras que ainda trazem algumas reflexões, a música do Doors acaba por embalar algumas “trilhas sonoras” das viagens de fim de semana ou de férias junto aos amigos e namorada. Não somente Doors, mas talvez seja a única banda que marcou a todos em momentos diferentes. Ontem mesmo, ao ouvir Riders on the storm, acabai por escutar várias vezes seguidas...

Túmulo de Randy Rhoads - Cemitério de San Bernardino, California.


Aos quinze anos fui apresentado ao Ozzy e ao Black Sabbath, como já contei por aqui, nas minhas recordações em forma de blog, cujo nome não poderia ser mais do que significativo. Falar de Randy Rhoads, morto em 1982, é para mim como falar de um dos guitarristas que mais curiosidade me desperta. Sua morte, prematura, decorrente de um acidente, tendo somente gravado dois álbuns ao lado de Ozzy (Blizzard of Ozz e Diary of a Madman), era como se algo muito maior não tivesse se concretizado. Ozzy estava numa péssima fase quando Rhoads chegou, e praticamente colocou o primeiro álbum de Ozzy entre um dos mais vendidos no mundo (num livro sobre os 100 álbuns mais vendidos no mundo ocupa a 100ª posição – se não me engano - e é o único disco de Ozzy nesta lista) tendo impulsionado sua carreira a parir de então.
Mas Randy Rhoads tem para mim algo de extrCor do textoaordinário que ainda não consigo explicar em palavras, principalmente ao ouvir Over the mountain ou mesmo a pequena peça Dee. Por trás das guitarras ainda aparece a figura de Aleister Crowley. Rhoads continua a ser para mim uma das maiores incógnitas entre os guitarristas que aprecio.


Túmulo de Elvis Presley - Graceland, Tenesse.
A terceira pessoa que vou comentar a respeito é a única que me deixa 100% confortável. Nestas poucas linhas a respeito de Elvis Aron Presley, gostaria de tentar explicar um dos maiores erros de interpretação que passam de geração a geração sobre sua morte: Dizer que Elvis era drogado. Naquele tempo, década de 1970, não se consideravam os efeitos dos comprimidos como um vício. Elvis tinha tido uma infância solitária e bastante pobre e em momento algum teve atos de revolução como outros astros que morreram naquela mesma década, como Jim Morrison, por exemplo. Elvis fazia pela música sua revolução. Não à toa, John Lennon, quando esteve pela primeira vez nos Estados Unidos, disse que conhecer Elvis foi o melhor de tudo desta viagem.

Certa vez o jornalista Daniel Piza comentou sua inicial estranheza nos fãs de Elvis de sua fase final (gordo). Mas complementou que ao se descobrir o Elvis dos anos 50 dava para compreender a devoção. Elvis fez inúmeros filmes, mostrando até o Hawaii. Mas sua terra era mesmo Las Vegas. Até hoje, Las Vegas, com suas múltiplas transformações, ainda tem muito do espírito de Elvis. Era um super-astro e até hoje as peregrinações a sua casa e, conseqüentemente ao seu túmulo, atraem multidões. Um mito que se traduz numa música que marca gerações e que me foi apresentada ainda na infância. Se um dia alguém me perguntasse quais foram os primeiros discos que escutei, Elvis certamente estaria entre eles.

Nada mais impressionante do que falar dos mortos no dia de finados. Que estejam em paz e continuem a me guiar por estes caminhos que a vida me apresenta. Não estranho em falar de três personagens tão conhecidos e que influenciam até hoje inúmeras gerações. Eles com certeza ainda podem aparecer em mais outras tantas postagens.
* Da música Ideologia, de Cazuza.

novembro 01, 2009

A chuva

A chuva caia sem trégua ao pedestre. Caminhava ele sem muita pressa, já úmido, parecendo sem destino. Procurava no vasto aglomerado de edifícios algo que fizesse sentido. Transitava olhando para cima e para baixo, num movimento sem sincronia, como num ritual. Procurava no vazio uma explicação para o que lhe acontecia. Parecia perdido, mas os caminhos em que transitava lhe eram familiares. Os conheceu num tempo passado. Um tempo que o sol ali brilhava radiante, sem perceber os rumos que aqueles dias moldariam em sua vida. Pensava em quantas vezes já havia pisado naquela calçada; em quantas vezes havia desviado daqueles canteiros de flores e árvores; em quantas vezes esperara para atravessar aquelas mesmas ruas; e em quantos carros já havia passado, estacionado e visto naqueles anos todos. Quantas pessoas cruzaram por ele nesses caminhos, transformando-se em meros desconhecidos para todo o sempre. Quando se pondera a eternidade se descobre que mesmo que sua memória fosse a mais genial, ainda não poderia lembrar-se de todas as pessoas comuns que cruzou por aquelas ruas. Mas, havia uma pessoa em que a esperança de voltar a ver o fazia se movimentar daquela forma sob a chuva.

Havia a encontrado anteriormente numa rua, noutra ocasião bastante diferente. Era um local comum e não mais o bairro em que transitaram juntos por todos aqueles anos. Foram poucos anos em que estiveram lado a lado numa diferença de horários em que o espaço físico daquelas arquiteturas ecléticas era a única testemunha. Uma testemunha muda de acontecimentos dos mais marcantes de inúmeras vidas e de inúmeras épocas. Mas sua vida naquele momento estava marcada pela chuva, que continuava a não lhe dar trégua. Seu caminhar já se tornava cansado e logo deveria desistir de conseguir este encontro forçado. A esperança deste encontro era maior que a possibilidade real de acontecer. Era de uma melancolia sem limites, numa mistura de sentimentos em que se avaliavam aqueles rumos moldados por aqueles dias radiantes e um futuro que havia ou não se concretizado. A dúvida era o preço da pureza, pois lhe era inútil ter certeza. A certeza que lhe poria fim na sua busca romântica de um encontro sob a chuva. Não encontrava respostas para entender aquele mundo onde parecia ter sido arremessado. Um mundo que tudo parecia fora do lugar. Corria ele em busca daqueles dias radiantes, debaixo da chuva, cada vez mais volumosa.

Em sua mente a imagem da musa inspiradora de vários e variados assuntos lembrava a lenda das sereias em seu canto apaixonante. O canto que embalava os marinheiros nas profundas águas oceânicas. As imagens de seus passos lado a lado naquelas ruas eram um desejo de extrema magnitude. Mas então resolve passar a pensar em seu estado geral lamentável, de suas roupas encharcadas, de sua barba por fazer e seu cansaço, cada vez mais aparente aos olhos mais destreinados. Foi então que a magia tomou conta de seus olhos. Sim, ela estava lá. Alguns poucos passos, também debaixo da chuva. Estava de botas negras, as mesmas daqueles tempos radiantes e toda molhada, numa tentativa sem sucesso de abrir a porta de seu carro; o mesmo daqueles dias radiantes. Foi então que tentou se aproximar. Mas seu cansaço ganhou e a avistou partindo numa rápida arrancada. Era hora de desistir. Não aconteceria outra vez mais naquele dia. Ela nunca saberia o quão perto estivera; nunca saberia de seu esforço; nunca saberia de seu desejo de encontrá-la. Tomou então o rumo de volta ao seu “esconderijo”, apelido dado ao seu pequeno cômodo alugado ainda naqueles tempos radiantes. A decoração permanecera intocada por todo o tempo que longe estiveram. Era a memória viva de um ritual de devoção a musa inspiradora dos melhores dias de sol pelos quais já havia passado.

De volta ao pequeno cômodo, recolheu a correspondência, menos úmida que sua roupa. No meio de todas aquelas contas atrasadas estava um pequeno envelope verde, sem remetente. Em seu interior um cartão com as seguintes palavras: “Estive por aqui, no intuito de recordas nossos bons tempos.”

Aquelas palavras foram a pior coisa que se poderia ler naquela hora. Tanto esforço para aquele encontro forçado sem qualquer perspectiva de êxito, enquanto a peça chave estava justamente a caminho do único local inalterado e testemunha viva daqueles dias radiantes. Num mesmo dia era sorte demais jogada fora. Agora o cansaço dominava o corpo úmido. Era aquela noite de chuva a pior de todas. Uma verdadeira tempestade, mesmo sem os raios e trovões. Era a vitoria da ansiedade sobre a paciência. Agora nada restava a não ser tentar estar melhor para um novo dia. Nenhuma outra possibilidade estava em questão. Nada naquele momento seria possível. Não havia nenhum número de telefone e mesmo se houvesse não teria como chamar. Estava com as mãos e os pés amarrados, rendido ao cansaço e à desesperança. Mais uma noite, em que a insônia o acompanharia. E a chuva não parava de derramar suas lagrimas cada vez mais geladas e densas. Amanhã seria outro dia. Um dia a menos na vida que poderiam juntos ter. E como era longa aquela noite...

Pela manhã percebe a porta a bater. Estava mais lamentável ainda, com as roupas úmidas e dores por todo o corpo. Fora difícil seu levantar. A porta batia mais desesperada. Cambaleando consegue atender, e, para sua surpresa, ela estava ali. Radiante. Extraordinária. E com os olhos apreensivos. Olhos vermelhos, como os de quem também havia repousado menos que o necessário. Aquele encontro era o mais inexplicável de todos os tempos e o silencio tomava conta da cena. O convite para a entrada fora feito e aceito. A porta se fecha e o sol passou a penetrar novamente o “esconderijo”. A chuva passou e levou junto os piores sentimentos. Tudo então volta à normalidade. Os carros nas ruas, as pessoas a circular pelas calçadas, as plantas e as flores a se multiplicarem e despertarem de seu descolorido, assim como o sol a brilhar. Quando repentinamente a porta se abre. Por ela vai-se embora a musa de seus sonhos mais inspiradores. A chuva volta então a cair. Uma garoa fina, restabelecendo a normalidade das águas. Mas agora existe a promessa que ela vai voltar. A chuva então nutre agora as flores e as árvores nas calçadas, mantendo-as como vivas testemunhas desses novos tempos antigos, que não voltam mais, assim como uma onda no mar, nada do que foi será igual ao que foi um dia... E que a chuva traga alívio para todos...
"Riders on the storm,
Riders on the storm,

into this house we're born,
into this world we're thrown
like a dog without a bone,
an actor out alone,
riders on the storm

There's a killer on the Road
His brain is squirming like a toad
Take a long Holiday
Let your children play
If you give this man a ride
Sweet family will die
Killer on the Road

Girl you gotta love your man
Girl you gotta love your man
Take him by the hand
Make him understand
The world on you depends
Or life will never end
Gotta love your man"

The Doors - Riders on the Storm - L.A. Woman (1971)

outubro 25, 2009

A Cigana

Caminhava eu sozinho, olhando para o chão. Era uma noite nublada - certo que um dia pode ser nublado; não uma noite. Mas aquela noite era nublada – e o chão estava um pouco úmido. Os meus sapatos negros de couro pareciam já bem encharcados e havia muito ainda a caminhar. As pernas já davam sinais do esforço e os pés do desconforto daqueles belos sapatos negros. Pensava eu: se eu fosse mulher faria sentido usar um sapato desconfortável por seu aspecto estético – lembrando sempre de uma amiga que diz que sapato é como lingerie: se é bonita não é confortável; se é confortável não é nem bonita e nem muito menos sexy -, mas era quase o uniforme daquele trabalho péssimo que era obrigado a fazer. No começo tudo parecia tão bonito, aquele shopping, muitas garotas, lojas de muito bom gosto, produtos especiais e importados – e, claro, não era perto da época de natal. Mas o tempo passou e apareceram também as pessoas chatas e mal amadas. O inferno estava ali. Até os sapatos que não brilhavam era motivo para um olhar depreciativo. Minha vontade era usar camisetas do Ramones, All Star e jeans surrado. Mas não. Os sapatinhos de couro preto eram uma das minhas ferramentas de trabalho. As camisas e as calças não me incomodavam, mas aqueles sapatos...

Mas aquela noite era diferente. Naquele horário o caminho de casa, em que ônibus e metrô já não mais estavam disponíveis, era uma longa caminhada. Não sei ainda como tinha sorrisos até pouco mais de vinte minutos antes, na hora do fechamento da loja. Se pensasse nessa caminhada acho que nem sairia da cama no dia seguinte. Mas aquela noite me sentia diferente. Não sabia definir aquele sentimento. Quando repentinamente me deparei com aquela mulher. Aquele vestido vermelho, de gala, parada de pé em meio à calçada. Era uma visão um pouco maluca para explicar para alguém. Era bela, mas ao mesmo tempo assustadora. E mais assustadora ao vê-la descalça com aquele belo vestido. A cada passo me aproximava mais dela. Seria ela uma miragem? Certo que miragens acontecem em desertos... Tinha uma pele bem branca, como uma criatura das noites, aquelas que habitaram a minha mente durante a infância. E das mesmas lembranças da infância surgiu uma da qual a minha atual psicanalista dizia ser uma representação de um desejo - e eu sempre senti que era a minha salvação. E logo parei. Ela então conversou comigo. Perguntou-me se eu era aquele garoto que sempre andava com um coelho azul pela mão – igual ao da querida Mônica. Perguntou depois do meu carrinho vermelho, que havia ganhado no aniversário de 8 anos de idade - e havia perdido numa viagem. Eu estava parado. Sem responder nada. Não sei dizer quanto tempo mais ela me questionou contando parte da minha vida. E ela parecia igual àquelas imagens da infância. Logo me tocou a mão. Senti uma segurança incrível naquele ato. Passaram-se alguns minutos, em silêncio, nós nos tocando. Se pudesse dizer uma única frase diria que ela é a paixão recolhida de toda minha vida. Os cabelos pareciam diferentes da época de infância. E logo me disse:

- Pronto. Vá para a casa de seu amigo Carlos.

Não entendi muito bem e logo ela dobrou a esquina, desaparecendo - em passos elegantes, como pequenos pulinhos de uma adolescente em chamas. Logo retomei minha caminhada rumo a minha casinha, quando avistei um tumulto enorme em frente ao meu prédio. Carros de polícia e um do corpo de bombeiros. Era um incêndio e meu apartamento fora uns dos queimados. Foi por conta de uma explosão, cerca de cinco minutos antes da minha chegada. Meu desespero era enorme. Principalmente lembrando que antes do incêndio da casa dos meus avôs tinha também encontrado aquela cigana, isso ainda na minha infância. Agora não tinha mais nada. Para onde iria? Foi quando percebi porque falou para ir para a casa do Carlos. Tomei então uma carona com a viatura de polícia rumando para o apartamento do Carlos, poucas quadras do meu. Bati em sua porta e lá estava ele com duas amigas – uma delas a cigana descalça. Ele então me falou para entrar que tínhamos muito a conversar. A cigana tinha trazido minhas roupas, fotos, cds e livros. Tudo estava na sala do Carlão. A vitrola então rolava uma música do Deep Purple, bastante significativa:

Tell me gypsy can you see me
In your crystal Ball
I'm asking you what can I do
My back's against the wall
And I can't hold on much longer
So I've come to you my friend
For now my life seems at an end
I came to see you once before
One hundred years ago
You took my hand and broke the spell
That should have let me go
But my years have gone so slowly
So I'm here again my friend
For now my life is at an end


The Gypsy – Deep Purple (1974)

agosto 25, 2009

Bons tempos...

Perdem-se por aí
A ingenuidade no tempo
Antes coisas pequenas
Faziam tanto bem


Onde andará
Aquela simplicidade
Hoje é tão difícil
Enxergar um pouco além


Bons tempos aqueles
Era muito mais fácil ser feliz
Ainda pode ser assim


Está dentro de mim
Escondido em algum canto
Aquele dom de criança
De lidar com o coração


Não sei o que acontece
Se cresce, se esquece
Que nem sempre dá
Pra se agir pela razão

Bons tempos aqueles
Era muito mais fácil ser feliz
Ainda pode ser assim.


Ainda Pode Ser – Cavalo Vapor - 1997

Era uma época em que tudo fazia sentido. Tudo era coerente. Os sonhos pareciam se tornar realidade a cada dia. Uma nova realidade dia a dia se transformava. A vida não era nada fácil, mas a alegria de viver e os encontros casuais ou mesmo marcados faziam cada vez mais sentido. A troca de informações, a curiosidade e a vontade de romper os limites levavam a todos nós para um lugar mágico. Não poderia ser só o lugar; era toda aquela agitação, aquele contato, aquela vontade crescente de viver todos aqueles momentos. Se era felicidade até hoje não se sabe. Seria a felicidade algo assim, tão inquieto e agitado? Não. Deveria ser mesmo um momento mágico. Uma magia que sempre há de se perseguir em vão.

Ele era inquieto. Ela era inquieta. Os dois se aquietavam na reflexão daqueles dias e daquelas noites. Sim, as noites. Tão importante quanto os dias, as noites tinham vida. A magia daqueles tempos estava em não distinguir a noite do dia. As atividades permeavam esta divisão que a noite faz. Uma noite era mais um momento mágico. Não havia mais a importância dos dias da semana. Eles agora não dialogavam mais com o filósofo Garfield das segundas-feiras. Não havia mais rotinas engessadas. A liberdade não era mais vermelha, azul ou branca. Os dias seguiam sempre com a ansiedade de um novo momento. Um novo dia, um novo sonho, uma nova emoção. Para eles dois tudo era novo. As revistas, as roupas, os discos, as danças; tudo era novidade. Tudo parecia ter sempre um “outro lado”. Tudo era mágico. Todo dia existia uma nova determinação.

Assim caminharam por aqueles bons tempos. Nada se construiu além de uma dimensão cultural de fontes distintas. Os dois liam, ouviam e discutiam. Nem sempre Friedrich lhes dava razão. Jean-Paul também não era unânime. Mas Albert sim; ele sempre teve razão. E assim o tempo passou. As coisas simples paravam de ter importância. A vida tomava o tempo. O tempo já não era igual para eles. Tudo parecia acabar lentamente. Assim eles seguiram; distantes. Caminhos diferentes, resultados iguais. No final tudo parece estar igual. E assim eles voltaram ao momento anterior, onde tudo parecia ter apenas duas cores. E mais tempo passou. Sempre na angustia da retomada daqueles dias.

Um dia se reencontraram. Eles continuavam a andar. Caminhavam nas conquistas daqueles velhos sonhos. Agora Viktor lhes emprestava teorias. Tudo parecia incerto. Mas os textos de René sempre alertavam para os tempos que viriam. Agora se sentiam sozinhos. Mais sozinhos ainda com a distância entre eles mesmos. Andavam só. Até que um dia ele passou a andar do “outro lado”. O lado de trás de uma rua sem saída. Ela passou a andar nos campos perdidos dos sentimentos mortos. Não havia mais harmonia. Agora disfarçavam as diferenças. Agora tinham objetivos. Agora os sonhos pareciam distantes; pareciam vazios; pareciam mortos. Nem mesmo Arthur, que nunca foi um grande motivador, conseguia levá-los de volta aos bons tempos. Era o final de tudo? Ou o recomeço de uma nova fase? Nunca se soube. Mas eles um dia se reencontraram. Foi na divisa entre o campo dos sentimentos mortos com a rua de trás. Um elo se refez. Um novo caminho se criou. E eles voltaram a andar na mesma estrada. Na estrada que leva ao campo das liberdades. E John então dava as cartas. As cartas que levariam de novo a todos os novos bons tempos. E assim seguiriam, nas ruas, nas estradas e nos campos...

“You know the day destroys the night
Night divides the day
Tried to run
Tried to hide
Break on through to the other side
Break on through to the other side
Break on through to the other side, yeah

We chased our pleasures here
Dug our treasures there
But can you still recall
The time we cried
Break on through to the other side
Break on through to the other side (…)”

Break on Through – The Doors - 1967

agosto 15, 2009

Diary of a Madman VI

Os shows

Toda vez que se fala em música sempre há a diferença de ter visto um show de determinada banda ou artista. A apresentação de um artista é sempre algo surpreendente. Há sempre aquela idade de empolgação de querer ver todos os shows e sempre ocorre um festival de música. Passei por essa idade e ainda hoje assisto a alguns shows, até mesmo em estádios ou experiências sinistras como o Autódromo de Interlagos. Este ano assisti ao Jeff Scott Sotto, John Lord e Iron Madein, este num show histórico.

Numa outra época assisti a uma boa quantidade de shows e uma enorme quantidade de festivais, entre eles Philips Monsters of Rock e Skoll Rock. O maior arrependimento até hoje foi não ter visto os festivais Hollywood Rock, do início dos anos 1990, principalmente o que teve num único dia, Dr. Sin, Engenheiros do Hawaii, L7 e Nirvana (descrito por Zeca Camargo como um dos mais incríveis que assistiu). Festivais são famosos justamente por apresentar bandas completamente diferentes num mesmo dia, e bem por isso cansativo demais. De shows e bandas que não tive o prazer de ver está o Mr. Big, daquele início dos anos 1990, e o Van Halen com Sammy Hagar. E, claro, o mais de todos, Aerosmith - este que por três vezes não consegui assistir. Poderia dizer que o Kiss estaria numa lista um pouco maior, mas eu era criança demais para ter visto o Kiss de Creatures of the Nigth.

Meu primeiro show, de uma banda grande, foi aos 15 anos de idade, em 1991. Mas hoje vou me deter em somente três shows históricos que tive o prazer de assistir. Incrivelmente não vou falar de Yngwie Malmsteen, talvez o artista internacional que mais assisti até hoje. Vou falar do Monsters of Rock de 1995, mais precisamente 2 de setembro de 1995, com a presença de Megadeth, Faith No More, Alice Cooper e Ozzy Osbourne. Mais precisamente do show do Ozzy, o primeiro em São Paulo. Já havia tocado no Rock in Rio, em 1985 e este show de 1995 era o retorno de Ozzy aos palcos depois da suspeita de que Ozzy estaria doente.

Para mim não importava que o guitarrista fosse um desconhecido, ex-aluno de Randy Rhoads, mas era Ozzy ali no palco. Cantou inúmeras músicas do Black Sabbath e foi pela primeira vez que fiquei em êxtase com uma banda. Já havia ficado emocionado no mesmo dia com a apresentação do Megadeth, que a partir dali se tornou uma das minhas bandas prediletas, assistido-os mais outras vezes e comprando praticamente todos os álbuns. Mas Ozzy ao vivo foi incrível. Estava como sempre, doido, andando de um lado para outro e tocando um clássico atrás do outro. O Pacaembu tremia. Estava ali, pela primeira vez, vendo um ícone do mundo do rock. Uma lenda viva. Aquele palco foi pequeno para o grande Ozzy.

Pouco menos de um ano depois estava de volta ao Pacaembu, em 1996, para assistir ao, até hoje, melhor show da minha vida: AC/DC! A temporada de shows era em função do lançamento do álbum Ballbreaker e também o AC/DC havia tocado anteriormente naquele Rock in Rio de 1985. Já gostava de AC/DC logo aos primeiros clipes que assisti na MTV, ainda da temporada de The Razor´s Edge. Até hoje não faço idéia de onde surgiu Angus Young depois da queda do muro com aquela bola gigante de ferro. Não tenho palavras para descrever os tiros de canhões durante a execução de For Those About Rock e do sino gigantesco durante Hell´s Bells. Sem dúvida um show histórico. Não tenho mais palavras para descrever este show que foi emoção atrás de emoção.

Naquele emocionante 1996 também assisti a outra lenda do rock: Ritchie Blackmore. Foi uma formação incrível do Rainbow e um dos shows mais incríveis que já assisti. Se tivesse que escolher um show para assistir novamente, se isso fosse possível, este seria com certeza o escolhido. Aquele show foi a somatória que qualquer fã de Blackmore se emocionaria. Foram tocadas músicas do Deep Purple, tanto de Daved Coverdale quanto de Ian Gilan, assim como as já clássicas melodias do Rainbow, da fase com Ronnie James Dio. Também histórica foi a participação de Candice Night em Ariel, além de ter tocado uma versão alucinada de Anya do álbum The Battle Rages On, de 1993, do Deep Purple. Sem contar que a quase totalidade do álbum Stranger In Us All, álbum que apresentava Doogie White, foi executada. Após este show consegui entender o que era ver ao vivo um verdadeiro mestre da guitarra. Agora sonho em assistir Blackmore´s Night ao vivo, de preferência no solo do Velho Mundo... A emoção ainda não acabou.

Numa outra oportunidade ainda volto a falar dos shows que assisti no Hard Rock Arena, na reserva dos Seminoles, na Florida. Entre eles, o que até hoje me balança e me emociona só de lembrar: as meninas do Heart!

1996

Esta semana senti-me numa máquina do tempo. Em vários momentos, em vários carros diferentes, com pessoas diferentes, tocou nos rádios dos carros a mesma música. Uma música de 1996. Ontem à noite pus o álbum para rodar; álbum que não escutava há muitos anos. Realmente as melodias soam perfeitas tais quais como em 1996. Ao terminar o álbum coloquei outro para rodar. Coincidência ou não, de uma formação de banda que assisti ao vivo em 1996. Diga-se de passagem, histórica. Até gostaria de falar mais destes dois álbuns, mas ficará para uma próxima vez. O engraçado que não é uma questão de nostalgia, pois a coincidência das músicas foi totalmente aleatória. Isto está parecendo a Veja da semana passada, ao falar dos “acasos”... Que aquela reportagem ativou minha curiosidade não há a menor dúvida...

julho 23, 2009

The Runaways

Hoje, numa breve passada em um jornal de alguns dias atrás vejo que em 2010 estreará um filme sobre a banda The Runaways. Não que Runaways tenha feito parte da minha infância ou adolescência, mas bandas inspiradas nela e ex-integrantes fizeram. Lita Ford, Joan Jett e L7. A primeira fez parte de vários momentos e talvez seja uma das Runaways que teve maior fama após o final da banda. Joan Jett tem em seu repertorio uma das músicas mais marcantes dos anos 1980: I Love Rock´n Roll. Um símbolo do rock. E L7, banda de enorme sucesso no início dos anos 1990, foi onde fiquei sabendo um dia que Runaways existiu. L7 merece mais palavras do que escrevo hoje. Tem um dos discos mais incríveis dos anos 1990: Bricks Are Heavy. Mas voltando às meninas do Runaways, talvez tenha sido uma das primeiras bandas de rock com mulheres. Mais que isso, tinha uma dupla influencia: heavy metal e punk rock. O que é bem nítido para alguém que já escutou o som. Além disso, Lita Ford é incrível!

Se tivesse que fazer uma postagem sobre as mulheres que tocam rock com certeza a minha banda número um seria The Runaways. No Brasil é uma banda praticamente desconhecida. Se quando comecei a escutar rock, na minha adolescência, L7, outra bandas também formada por mulheres, chamou a atenção do público por ser uma banda feminina, imagino como foi nos anos 1970 com The Runaways. Claro, como já escrevi por aqui, gosto, e muito, das irmãs Anne e Nancy Wilson do Heart, que também tocavam alto nos anos 1970. E foi uma honra vê-las tocar ao vivo em 2006! Não é nenhuma novidade. Mas o som das Runaways é cru e ao mesmo tempo coeso, que faz até hoje vibrar. Com certeza será um filme interessante, afinal, conhecer fatos inéditos sobre a banda e tal. Nunca soube nada além das músicas. Mas, claro, as chamadas dos jornais tratam de falar sobre um caso amoroso entre Cherie Currie e Joan Jett. Coisa que não faço a menor idéia. E a outra notícia é que Joan Jett será representada pela atriz de Crepúsculo e Lua Nova, Kristen Stewart. Bem, falar de uma banda que teve a importância de Runaways e que tem um som pulsante, não é notícia. Estou realmente curioso pelo filme.

Runaways também tem outro lado pessoal. Tenho um pouco de nostalgia, às vezes (muitas vezes) e esta banda veio num momento destes. Foi logo em 2002 que escutei pela primeira vez a banda. E até hoje fico ainda impressionado com os riffs, com o andamento das músicas, e a atitude das integrantes. As letras, realmente, refletem uma época e hoje tem um olhar um tanto quanto infantil, até. Infantil não, adolescente. Mas ainda assim bastante datadas. Mas o visual, a atitude, lembrou e muito da minha infância - época que não tinha a menor idéia do acontecia no mundo. Assim também foi com outros discos e até hoje fico a pensar em como foram aqueles anos. Tanto é assim, que em muitos momentos deixo isso aparecer. Outro dia ao falar de um episódio de Cold Case, isso foi nítido... Bem, se o filme sobre as Runaways existe, significa que talvez não esteja sozinho nessa nostalgia...

julho 14, 2009

Tutty Vasques é o mestre!

Estava lendo o blog do jornalista Tutty Vasques, que também já assinou belíssimo texto sobre a personagem de Camila Pitanga, Bebel, da novela Paraíso Tropical, em 2007, no livro do ano Barsa de 2008. Ele escreve com muito bom humor, ou como diz seu blog: má notícia é a maior diversão. Mas dessa vez ele conseguiu o feito: A indústria da pirataria lançou nas calçadas do Rio, além do esperado DVD gravado ao vivo, pequenos frascos com “água da chuva do show de Roberto Carlos no Maracanã”, anunciam os camelôs do centro da cidade.

julho 09, 2009

O uniforme

Andava pelo saguão do aeroporto puxando aquela pequena mala. Rabo de cavalo, uniforme vermelho e branco, lenço no pescoço. Sapatos pontudos e sombra sobre os olhos. Perfeita. Passa a passo vinha na minha direção. Ainda não havia me encontrado com seus belos olhos. Mas lá estava eu, observando. Tinha esperado semana a semana, dia a dia, hora a hora, por aquele momento. Vê-la era tudo que queria naquela semana. Não que tivesse sido uma semana ruim ou outra coisa qualquer, afinal aos 21 anos de idade nenhum trabalho e nenhuma faculdade poderiam ser tão estressantes assim. Tudo parecia muito mais fácil depois daquele dia. Aquele talvez fosse o momento em que esperei por toda a vida.

Não era uma vida muito longa até ali. Havíamos nos conhecido a cerca de algumas semanas e nos falado depois por telefone outras poucas vezes. Era nosso segundo encontro. Minhas noites que eram regadas a diversões múltiplas pareciam o preparo para aquele momento. Parecia o ritual de passagem para uma nova fase da minha vida; minha primeira paixão.

Não tinha feito outra coisa além de observá-la no dia em que a vi sentada. Cada movimento seu era notado por mim. Estava naquele dia de jeans e uma blusinha branca, com os cabelos soltos, sorriso no rosto. Eu estava mesas atrás, com o copo de coca-cola na mão, olhos nela e um silêncio ensurdecedor para meus caros companheiros de balada. Seria somente mais um dia de observador, numa vida, até então, de observador, num futuro de observação, se ela também não tivesse dado o primeiro passo, aquela noite.

No saguão finalmente me viu. Sorriso no rosto apressou o passo. Aquele som dos passinhos era impressionante. Enfim o beijo. Meu rosto ruborizou. O silêncio só era quebrado por sua voz a contar sobre as cidades que havia conhecido. Tudo nela era interessante. Mas como alguém poderia mudar tanto de um dia para outro? E meu silêncio era metade inquietante e metade deslumbrado, pois nunca imaginei aquele uniforme a me abraçar. E ela continua a contar as novidades, quase lhe faltava o ar de tantas palavras.

Naquele primeiro dia o que mais gostei de observar eram seus jogos de cabelos da esquerda para a direita, da direita para esquerda, atrás da orelha, para trás dos ombros, entre outros. No saguão ele mal se mexia. Tinha a curiosidade de tocá-los para saber se estavam duros por algum produto. Uma curiosidade quase tão inquietante a de entender por que aquele pequeno uniforme possuía o poder de transformar algo que era já maravilhoso em simplesmente divino. A minha sorte é que ela sairia para o jantar daquela forma e ainda havia se preocupado se eu me importaria. Se ela soubesse o que sei agora nunca mais vestiria um jeans na vida...

No restaurante a observava a falar. E como falava. Não se importava com meu silêncio observador. As pausas eram pequenas, entre uma garfada e outra daquele risoto. A cor da páprica destoava de seu uniforme. O uniforme. O uniforme que eu não parava de olhar. Olhava para seus movimentos, para suas pernas que trocavam de posição. Estava lado a lado, pois detesto ficar longe da então minha amada comissária e, mais que tudo, ali também podia observá-la por inteiro. Uma única frase no momento em que a deixei em casa:

- Adorei nossa noite. Você é um amor de pessoa e me escuta como ninguém neste mundo. Até semana que vem.

E no caminho de casa pensava nas minhas próximas noites, com o copo de coca-cola na mão a observar o mundo, sonhando com aquele uniforme. E dentro do carro rádio continuava a romper o silêncio:

“Every breath you take
Every move you make
Every bond you break
Every step you take
Ill be watching you

Every single Day
Every word you say
Every game you play
Every night you stay
Ill be watching you (...)”

Every breath you take – The Police - 1983

julho 05, 2009

French Kiss (1977)

Estava assistindo Cold Case (Arquivo Morto, série da Warner) num episódio em que se reabria um caso ocorrido nos anos 1970, de uma garota morta aos 15 anos de idade, depois de uma noite com uma amiga numa discoteca – meio pista de patinação – ao som incrível de The Locomotion. Inacreditável que algo que adoro neste seriado é justamente o final, onde sempre há uma música relacionando o tema do crime desvendado. Deste episódio foi Sentimental Lady, de Bob Welch. Logo que iniciou a música pulei de emoção. É a abertura de um disco que me marcou um momento até recente, entre 2001 e 2002, que até já cheguei a escrever por aqui sobre uma faixa específica deste CD – Fench Kiss – que é por inteiro algo que se deve conhecer! Não sei dizer o que me emociona tanto neste disco. São tantas sonoridades ao mesmo tempo. Sempre digo que certas horas a música não tem uma explicação lógica.

Os três textos

Já que continuo aguardando o Renzo Piano da postagem anterior – comprar a Black Friday é isso: o melhor preço, porém, não chega nunca – aca...