Outubro 28, 2011

Por que a Europa continua sendo o centro do Mundo...

Colocar um continente em crise, com um modelo econômico que não me agrada, uma sociedade que está hoje à beira do colapso (só este item já era assunto para um livro inteiro, não só mais uma postagem), como centro do mundo pode parecer uma contradição, mas no fundo não é. Obviamente existem outros lugares onde se vive muito bem, como exemplo a Índia, onde a cultura permanece ainda mais preservada (os costumes, aqueles que na Europa e Estados Unidos andam em crise, e que no Brasil só existia no “antigamente”...), os Estados Unidos, onde se há ainda uma enorme qualidade de vida, assim como modelo econômico de Singapura, etc. Mas nada substitui a Europa em termos de produção cultural. Li esta coluna que reproduzo abaixo e fiquei a pensar em quanto eu não pertenço à “classe média alta paulistana” e consigo concordar em praticamente tudo no que escreve a jornalista.

Além de não pertencer a classe média alta, esta para qual o texto está escrito, consigo entender muitas coisas que diz, principalmente a cada tempo eu observo ao meu redor e vejo as pessoas se pautarem nesse modelo fútil – ou, como diriam os comunistas, pequeno-burguês. Eu ando de transporte público com a mesma simplicidade com a qual eu janto num restaurante mais caro, assim como ando de carro com a mesma tranquilidade e, com certeza, bem menos stress que o pessoal do referido texto. Eu sempre acho irônico quando vou a alguma obra naqueles edifícios de escritórios, onde “executivos e executivas” desfilam com todo seu stress os seus trajes mais finos e suas maquiagens mais delicadas... A única palavra que vem a cabeça é “wannabe”.

Mas deixando de lado os que não sabem viver, talvez porque nunca se questionaram, vale a pela a reportagem.

Porque a classe média alta brasileira é escrava do “alto padrão” dos supérfluos

Adriana Setti

No ano passado, meus pais (profissionais ultra-bem-sucedidos que decidiram reduzir o ritmo em tempo de aproveitar a vida com alegria e saúde) tomaram uma decisão surpreendente para um casal – muito enxuto, diga-se – de mais de 60 anos: alugaram o apartamento em um bairro nobre de São Paulo a um parente, enfiaram algumas peças de roupa na mala e embarcaram para Barcelona, onde meu irmão e eu moramos, para uma espécie de ano sabático.

Aqui na capital catalã, os dois alugaram um apartamento agradabilíssimo no bairro modernista do Eixample (mas com um terço do tamanho e um vigésimo do conforto do de São Paulo), com direito a limpeza de apenas algumas horas, uma vez por semana. Como nunca cozinharam para si mesmos, saíam todos os dias para almoçar e/ou jantar. Com tempo de sobra, devoraram o calendário cultural da cidade: shows, peças de teatro, cinema e ópera quase diariamente. Também viajaram um pouco pela Espanha e a Europa. E tudo isso, muitas vezes, na companhia de filhos, genro, nora e amigos, a quem proporcionaram incontáveis jantares regados a vinhos.

Com o passar de alguns meses, meus pais fizeram uma constatação que beirava o inacreditável: estavam gastando muito menos mensalmente para viver aqui do que gastavam no Brasil. Sendo que em São Paulo saíam para comer fora ou para algum programa cultural só de vez em quando (por causa do trânsito, dos problemas de segurança, etc), moravam em apartamento próprio e quase nunca viajavam.

Milagre? Não. O que acontece é que, ao contrário do que fazem a maioria dos pais, eles resolveram experimentar o modelo de vida dos filhos em benefício próprio. “Quero uma vida mais simples como a sua”, me disse um dia a minha mãe. Isso, nesse caso, significou deixar de lado o altíssimo padrão de vida de classe média alta paulistana para adotar, como “estagiários”, o padrão de vida – mais austero e justo – da classe média europeia, da qual eu e meu irmão fazemos parte hoje em dia (eu há dez anos e ele, quatro). O dinheiro que “sobrou” aplicaram em coisas prazerosas e gratificantes.

Do outro lado do Atlântico, a coisa é bem diferente. A classe média europeia não está acostumada com a moleza. Toda pessoa normal que se preze esfria a barriga no tanque e a esquenta no fogão, caminha até a padaria para comprar o seu próprio pão e enche o tanque de gasolina com as próprias mãos. É o preço que se paga por conviver com algo totalmente desconhecido no nosso país: a ausência do absurdo abismo social e, portanto, da mão de obra barata e disponível para qualquer necessidade do dia a dia.
Traduzindo essa teoria na experiência vivida por meus pais, eles reaprenderam (uma vez que nenhum deles vem de família rica, muito pelo contrário) a dar uma limpada na casa nos intervalos do dia da faxina, a usar o transporte público e as próprias pernas, a lavar a própria roupa, a não ter carro (e manobrista, e garagem, e seguro), enfim, a levar uma vida mais “sustentável”. Não doeu nada.

Uma vez de volta ao Brasil, eles simplificaram a estrutura que os cercava, cortaram uma lista enorme de itens supérfluos, reduziram assim os custos fixos e, mais leves,  tornaram-se mais portáteis (este ano, por exemplo, passaram mais três meses por aqui, num apê ainda mais simples).

Por que estou contando isso a vocês? Porque o resultado desse experimento quase científico feito pelos pais é a prova concreta de uma teoria que defendo em muitas conversas com amigos brasileiros: o nababesco padrão de vida almejado por parte da classe média alta brasileira (que um europeu relutaria em adotar até por uma questão de princípios) acaba gerando stress, amarras e muita complicação como efeitos colaterais. E isso sem falar na questão moral e social da coisa.

Babás, empregadas, carro extra em São Paulo para o dia do rodízio (essa é de lascar!), casa na praia, móveis caríssimos e roupas de marca podem ser o sonho de qualquer um, claro (não é o meu, mas quem sou eu para discutir?). Só que, mesmo em quem se delicia com essas coisas, a obrigação auto-imposta de manter tudo isso – e administrar essa estrutura que acaba se tornando cada vez maior e complexa – acaba fazendo com que o conforto se transforme em escravidão sem que a “vítima” se dê conta disso. E tem muita gente que aceita qualquer contingência num emprego malfadado, apenas para não perder as mordomias da vida.
Alguns amigos paulistanos não se conformam com a quantidade de viagens que faço por ano (no último ano foram quatro meses – graças também, é claro, à minha vida de freelancer). “Você está milionária?”, me perguntam eles, que têm sofás (em L, óbvio) comprados na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, TV LED último modelo e o carro do ano (enquanto mal têm tempo de usufruir tudo isso, de tanto que ralam para manter o padrão).

É muito mais simples do que parece. Limpo o meu próprio banheiro, não estou nem aí para roupas de marca e tenho algumas manchas no meu sofá baratex. Antes isso do que a escravidão de um padrão de vida que não traz felicidade. Ou, pelo menos, não a minha. Essa foi a maior lição que aprendi com os europeus — que viajam mais do que ninguém, são mestres na arte dosavoir vivre e sabem muito bem como pilotar um fogão e uma vassoura.

PS: Não estou pregando a morte das empregadas domésticas – que precisam do emprego no Brasil –, a queima dos sofás em L e nem achando que o “modelo frugal europeu” funciona para todo mundo como receita de felicidade. Antes que alguém me acuse de tomar o comportamento de uma parcela da classe média alta paulistana como uma generalização sobre a sociedade brasileira, digo logo que, sim, esse texto se aplica ao pé da letra para um público bem específico. Também entendo perfeitamente que a vida não é tão “boa” para todos no Brasil, e que o “problema” que levanto aqui pode até soar ridículo para alguns – por ser menor. Minha intenção, com esse texto, é apenas tentar mostrar que a vida sempre pode ser menos complicada e mais racional do que imaginam as elites mal-acostumadas no Brasil.

Outubro 07, 2011

Saxon - Unleash the Beast

Depois do show do Saxon, em 1998, um amigo – um dos mais próximos de todos os tempos -  me disse que parei de falar sobre Saxon. Faz sentido lembrando do show do Monsters of Rock...


Mas o álbum Unleash the Beast, ao lado de Innocence is no Excuse, é um dos meus álbuns prediletos desta banda que parece ser um pouco obscura para os padrões brasileiros. O Saxon não deve ter uma legião de fãs muito grandiosa, porém, estes álbuns caem tão bem aos ouvidos – ouvidos de ouvinte de Heavy Metal, diga-se; não tenho por objetivo ser “eclético” e nem mesmo “aberto à novos sons”. 

Faixa atrás de faixa, este álbum guarda muitas nuances que só o tempo vai mostrando. Claro, à primeira audição pareceu extremamente pesado, principalmente comparando ao que esperara encontrar. O ano era 1997 e o Saxon viria em turnê para o Brasil. Não vi outro show do Saxon, a não ser o já citado, em 1998. Mas todos me falaram que perdi um super show em 1997 (falam também do show do Scorpions em 1994 – pelo menos esta banda eu cheguei a ver em 1997). Nem sei sobre os lançamentos do Saxon no período posterior a este álbum, mas já é esperado um novo álbum este ano de 2011. Mas Unleash the Beast continua a ser um álbum que muito me agrada. Na época, a minha história com este álbum foi incrível. Nem lembro ao certo o que me motivou a comprá-lo, mas sem dúvida entrou para a minha lista dos álbuns mais interessantes.

Iron Maiden

Uma das bandas mais famosas do mundo e nunca havia escutado com mais calma em toda a minha vida... Pois é uma das daquelas idiossincrasias das quais somos cometidos de quando em quando...
Porém, acabei de comprar um cd – sim, um compact disc, como aqueles da década de 1990. Foi o Somewhere in Time, simplesmente a segunda melhor capa do Iron Maiden e um disco excelente do começo ao fim.  Eu sou um fã das capas de discos – aqueles em vinil – do Iron Maiden. Acho os desenhos incrivelmente fantásticos. Assim como a capa de Rest In Peace, do Megadeth, acho Killers algo inacreditável de tão bem desenhado! Essa é a minha capa número um. E, claro, o disco também é. Não sou um fã de Dianno, mas o disco tem faixas que em minha adolescência curti de forma alucinada! Iron era, ao lado de Metallica, uma das bandas ícones da minha adolescência. Incrível como eu sou um fã de Black Sabbath e Ozzy – este um fã até das besteiras – e não fui um fã alucinado de Iron... Nunca entendi o porquê disso, mas...

Os cd’s ainda têm em mim um fascínio, um pouco diferente do vinil que lembra a infância – sim, eu curti o disco do Balão Mágico -, mas muito próximo. Acho que a ideia de álbum é ainda, para mim, uma ideia que poderia permanecer; a ideia de uma obra que tem em várias músicas, a continuidade. Hoje, ao passar na Livraria Cultura – dizem ser a maior da América Latina, na Avenida Paulista – vi o lançamento de uma caixa de cd’s do Pink Floyd, com aqueles álbuns que formaram o imaginário da minha adolescência – aquele disco com a vaca na capa; ia à Galeria do Rock e olhava os discos usados (vinil usado) e sempre aparecia este – todos remasterizados. Esta realmente é uma banda que continuo passando ao largo; do Pink Floyd continuo a curtir somente o The Wall.

Mas voltando ao Iron Maiden, o fator atividade conta muito. Em 1990, aos meus incríveis 14 anos, lembro do lançamento do disco No Player for the Dying, que meu tio comprou em K7 (será que alguém ainda lembra de K7?). Em 1992 fora lançado o Fear of the Dark, e a banda tocava constantemente na MTV, que era assíduo telespectador (nem sei se era tão assíduo, pois vários programas nem lembro e muitos amigos falam ter sido os melhores anos da MTV...). E a banda segue, com a variação da saída de Bruce Dickinson e sua volta triunfal ao final dos anos 1990, junto com Adrian Smith - cujo show, Bruce Dickinson e Adrian Smith, tive o enorme prazer de assistir na pista de atletismo do ginásio do Ibirapuera em 1997 – produzindo sons com qualidade equivalente, mesmo que os fanáticos digam nem ser a mesma banda... Para quem é fã realmente há diferenças marcantes... Não poderei nuca discutir sobre isso... Mas ouvir um disco de 1986 e continuar a achar ele especial é porque realmente a força desta banda ultrapassou a barreira que todas as bandas almejam: a imortalidade clássica!

Poderia fazer um apêndice sobre o Metallica, cujo show recente no Rock in Rio não deixou dúvidas que é uma banda que tem um passado de peso e qualidade inquestionável. Porém, desde 1991 não consegui curtir nenhum álbum da mesma forma – sendo o Black álbum já algo a se questionar, mesmo eu tendo uma grande estima por este álbum (um dia poderia até escrever sobre ele em Diary of a Madman).

Bem, se alguém ainda tem dúvidas sugiro a audição de Somewhere in Time. Como já falei por aqui, Alexander the Great é uma das faixas que admiro muito!

Setembro 25, 2011

Viena

Certa vez fui assistir á uma aula na FAAP, junto com minha namorada da época, e a aula tratava da arquitetura de “um tal” de Albert Speer. Estuda no Mackenzie e até então não tinha tido nenhuma aula a respeito da estética e das intenções por trás da estética deste arquiteto. Na aula havia um texto base, de Luis Fernando Veríssimo, que trato de reproduzir abaixo, que, de tão hilário, foi inesquecível!

Na aula foi passado um vídeo e, passados na época quase 50 anos da 2ª Guerra, a estética era mais do que factível de ser analisada com a devida isenção do tempo. Uma aula realmente daquelas que separam os cursos em superiores e outros...

Por Luís Fernando Veríssimo: Ach Viena!

- Ach, Viena. Não é maravilhosa?
- Você é maravilhosa.
- Não beije meu pescoço aqui. Coma a sua torta.
- Prefiro seu pescoço.
- Nein! Tome seu chocolate. Olhe, uma valsa! Vamos dançar? Traga a torta.
- Valsa, valsa, valsa! Não tocam outra coisa nesta maldita cidade?
- Mas esta é a terra de Strauss.
- Prefiro Wagner.
- E não é só Strauss. Esta é a terra de Mahler. E de Schönberg.
- Quem?
- Schönberg. Ele está fazendo experiências maravilhosas com a música.
- Pra você tudo é maravilhoso.
- Viena é maravilhosa!
- Seu pescoço é maravilhoso.
- Pare! Estão nos olhando.
- Também, não sei por que você insiste em vir para estes cafés de calçada. Estão sempre cheios.
- Toda Viena vem aqui. Olhe. Lá está Karl Kraus!
- Quem?
- Vai dizer que você não conhece Karl Kraus?
- Aposto que ele também é maravilhoso.
- Ele é mais do que maravilhoso... Ele é... Ele é... o espírito de Viena em pessoa!
- Sei.
- Coma a sua torta.
- Estou cheio de torta. Vamos para o meu quarto.
- Já disse que não. E largue o meu joelho.
- Eu sei. Você acha que ele é melhor do que eu. Você...
- Olhe quem está passando. É Loos! Loos, o arquiteto!
- Hruok.
- Que foi isso?
- Um arroto.
- Assim é demais! Aqui estamos nós, numa tarde de verão, sentindo o perfume das vinhas do Wienerwald, no centro da cidade mais maravilhosa do mundo, a cidade de Musil, de Hofmannsthal, de Schnitzler, de Wittgenstein, de Klimt... e você arrota!
- O cheiro que eu sinto é o da decomposição do império.
- Que bobagem. O que está acontecendo em Viena é uma revolução no espírito humano. Nós vamos mudar a Europa. Nós, em Viena! Estamos no limiar de uma era como nunca houve igual. De paz, de prosperidade, de criatividade, de alegria de viver. Uma era... maravilhosa! E você quer ir para o seu quarto imundo.
- Está bem. Esquece.
- É essa sua atitude. Você precisa mudar.
- Está bem, está bem.
- Você fez o que eu pedi? Fez?
- Não.
- Está vendo só? Você diz que faria qualquer coisa por mim. Mas eu pedi para você ir ver o doutor Freud, para o seu próprio bem, e você não foi.
- Cheguei a ir até a porta, mas não entrei. Sei lá.
- Ele está fazendo coisas milagrosas. Vem gente de toda a Europa consultá-lo. Foi uma dificuldade arranjar uma hora. Ele mudaria você. E você não foi. Depois ainda diz que me ama.
- Está bem. Se você marcar outra hora, eu vou. Juro. Eu...
- Ouça! É o Danúbio Azul! Não, esta nós temos que dançar. Se você não dançar comigo, eu danço com Kokoschka.
- Com quem?!
- O Kokoschka. Um estudante de arte que conheço. Está sentado ali.
- Então vá dançar com o Kokoschka.
- Você ficou magoado?
- Vá dançar com o Kokoschka, já disse! Ele deve ser maravilhoso. E eu sou um pintorzinho de nada.
- Adolf...
- Vai. Vai. Mas um dia você vai se arrepender. Você ainda vai ouvir falar de mim! Vocês todos ainda vão ouvir falar de mim!

Setembro 22, 2011

Coleção Grandes Arquitetos da Folha

A Folha lançou recentemente a coleção Grandes Arquitetos com títulos monográficos sobre a obra de 18 arquitetos. Estão à venda nas bancas e com ótima qualidade de impressão e capa dura. Os livros trazem além de fotos, croquis e desenhos, pequenos textos sobre os arquitetos, alguns escritos pelos próprios arquitetos.  

Os livros em sua maioria trazem arquitetos contemporâneos em atividade e, claro, arquitetos que mudaram o panorama da arquitetura moderna, tais como Le Corbusier, Mies van der Rohe, Alvar Aalto e Frank Lloyd Wright. Logicamente, Oscar Niemeyer não poderia faltar, já que além de sua importância mundial, uma coleção lançada no Brasil sem o arquiteto brasileiro mais conhecido no mundo seria bastante estranho, ainda mais que a coleção pretende ser para leigos. Além do mais, bastaria ver que a grande maioria dos arquitetos foram laureados com o maior prêmio da arquitetura mundial, o Pritzker, como o próprio Niemeyer em 1988, Álvaro Siza em 1992, Tadao Ando em 1995, Rafael Moneo em 1996, Renzo Piano em 1998 e Norman Foster em 1999.

Dentre todos os arquitetos, o único que não conheço é o do volume 18, Kengo Kuma. E ainda não tive tempo de procurar suas obras. Acredito que dentre estes volumes faltaria um a respeito de Rem Koolhas e, mesmo não sendo um apreciador da obra, um sobre Frank Gehry. Talvez também sobre os suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron, por conta de suas recentes obras para as olimpíadas na China e copa da Alemanha.

Os volumes são em ordem:

1 – Frank Lloyd Wright
2 – Renzo Piano
3 – Oscar Niemeyer
4 – Antoni Gaudi
5 – Le Corbusier
6 – Santiago Calatrava
7 – Norman Foster
8 – Jean Nouvel
9 – Tadao Ando
10 – Steven Holl
11 – Dominique Perrault
12 – Mies van der Rohe
13 – Zaha Hadid
14 – Rafael Moneo
15 – Álvaro Siza
16 – Alvar Aalto
17 – David Chipperfild
18 – Kengo Kuma

O São Paulo e o Corinthians

Começar a escrever novamente no blog falando de um jogo sem lá grandes emoções, um oxo, como escreveu Daniel Piza outro dia (aqui), nada tem a ver com o futebol propriamente dito. O Campeonato Brasileiro está bastante interessante, mesmo sem lá grandes jogos memoráveis. O Corinthians liderou por mais tempo até agora, mas o Flamengo, o Vasco, e hoje o São Paulo passou a liderança. No fundo no fundo, o oxo foi bom para ambos os times. Melhor para o São Paulo, mas o fato de ficar mais distante do Botafogo é sempre bom para o Corinthians. Mas é claro que eu estava ansioso por uma vitória do Corinthians... E sua retomada à liderança.

Escrever como torcedor é sempre bom. Escrever sempre é bom. Assim como a leitura, o ato de escrever exercita muitas outras formas de expressão e de desinibição, além de também ser uma boa fonte de distração. Ultimamente venho ficando tenso ao assistir os jogos, por serem cada vez menos interessantes e mais burocráticos. Mas este eu só vi uns trechos e o que vi não deu para sequer tirar meu sono. Esta realmente faltando jogar bola nesse campeonato.

Julho 18, 2011

O Efeito Orloff continua!

Há mais de três anos publiquei o texto da Newsletter do Instituto de Engenharia, de autoria do ex-presidente Edemar de Souza Amorim. Recebo de vez em quando algum comentário desrespeitoso e muitos comentários a respeito de determinada frase: “Para completar, o governo federal deve deixar a política eleitoreira fora dos corredores da Petrobrás e aumentar o preço da gasolina, pois o maior inibidor dos deslocamentos supérfluos é custo do quilômetro rodado.” (texto completo aqui).

Todo mundo escreve que o preço da gasolina já é um absurdo, etc, etc e etc. Mas vamos ser bastante claros em relação à tese defendida no texto. Mesmo com o valor absurdo existem cada vez mais carros na rua e menos gente reclamando por transporte público de qualidade. Teve, anos atrás, propaganda de uma fábrica de motos que falava sobre o valor da passagem do ônibus e da parcela da moto.

Eu não concordo com a idéia do aumento da gasolina, acho que não é uma solução consistente, e gostaria que o valor da gasolina fosse mais baixo. Mas em relação à tese defendida no texto, parece-me bastante evidente que uma coisa está ligada a outra. Eu andaria de ônibus e metrô, se este fosse realmente mais confortável e mais rápido, principalmente à noite. Como faço horários alternativos de trabalho, já fiquei por mais de uma hora para fazer o trajeto que de carro leva 10 minutos. E a pé é perigoso. As ciclovias seriam ótimas alternativas, se existissem chuveiros nos escritórios... Num país tropical, andar de bicicleta de calça, camisa... Nem preciso falar a respeito... As soluções estão dadas. Se a resposta é lenta, é outro problema. E quanto a estes outros problemas, principalmente a respeito dos governos que não fazem obras de infra-estrutura, eu digo que hoje se está bem melhor em termos de transporte público do que há 15 anos – por experiência própria. Agora, o valor das tarifas é compatível com os valores do resto, dos carros, da gasolina, dos pedágios, dos imóveis, dos aluguéis. Morar no Brasil é caro mesmo.

Sempre defendi menos governo e mais indivíduo e uma idéia de Estado Mínimo. Nesse caso, conformando a minha visão com a tese do texto de Edemar, a tese dele é até bem mais realista do que imagino e tenho como norte. Em muitos momentos sinto alguns de seus preceitos sendo aplicados gradativamente nas cidades. Fico feliz de um texto publicado num blog periférico como o meu ter causado algum momento de reflexão e por terem me escrito uma mensagem. Mas fico muito mais curioso ainda em saber como a pessoa achou esse texto e o meu blog. Quais foram os critérios de busca, quais foram as suas expectativas?

Entendo que é um assunto amplo e de muita reflexão. E realmente não há ainda soluções consolidadas. O mais interessante é, como arquiteto estudioso da história da arquitetura, sou conclamado a dar tais soluções. Como se o fato de ser arquiteto me desse o direito e o dever de ter soluções para tudo... e estas sempre definitivas...

Junho 02, 2011

Mudando um pouco... Mas não muito!

Bom fazer mudanças no layout do blog. Diga-se de passagem, parece que há muito mais recursos. Mas gosto deste ar meio conservador. No início tinha o fundo escuro. Muitas pessoas me disseram que fica ruim para ler. Mudei pra branco e nunca mais mexi. Na minha área – a arquitetura – o fundo escuro é comum graças ao AutoCAD. Mas acho que é só o CAD mesmo... Bem, este é o novo layout do blog. Apresentado!

Junho 01, 2011

Eu sou Ozzy...

Nada melhor do que voltar ao meu blog com uma postagem da, como poderia chamar, lenda da minha adolescência.

Dia destes, estava eu na livraria e olhei para o livro Eu Sou Ozzy e me alegrei de tal maneira a poder saber a vida desta lenda contada por ele mesmo. Ao menos o que ele lembra, segundo ele mesmo no prefácio do livro. A vida de Ozzy Osbourne é sem dúvida algo de muito interessante. Ainda não escutei seu último álbum – Scream -, mas se seguir a linha de Black Rain tenho a ligeira impressão que não me impressionarei... Tanto o novo álbum quanto a autobiografia são lançamentos de 2010. Porém, como nada havia pronunciado até então, para mim ainda é novidade.

Poderia divagar a respeito falando da grande quantidade de informação e tudo mais, mas não; o que ocorreu mesmo foi total falta de tempo. Estou só agora em 2011 retomando projetos que estavam simplesmente parados. Um dos projetos é arquitetar um caminho para o blog. Sinto de muitos leitores discretos que não tem nada sobre arquitetura neste blog. Pois bem, a ideia era mesmo ter de tudo e um dia encontrar um caminho. Comecei a escrever em 2007 e em quatro anos ainda não encontrei o eixo e acho que eu gosto de ter este espaço para escrever sobre tudo, sobre o que é o amor, sobre o que nem sei quem sou... (não, não, chega!!!).

Voltando ao Ozzy, quero lembrar aqui que ao me dedicar a escrever minhas lembranças (pseudoauto biografia) dei o nome de um álbum de Ozzy Osbourne (aqui). Naqueles anos, o que mais me chamava atenção – e até os dias atuais – é o guitarrista Randy Rhoads. No livro Ozzy dedica praticamente um capítulo a este episódio. Por sinal o único que li naquele dia na livraria. Passei por partes da infância de Ozzy e do reality show The Osbournes, o que eu acho – minha opinião – acabou com o mito Ozzy Osbourne e o deixou com uma popularidade um tanto quanto distante das letras que houvera escrito. Como falar de Ozzy do The Osbournes e pensar em um Ozzy que conhece Aleister Crowley (isso mesmo: da música Mr. Crowley)? Bem, agora me resta à dúvida se há citações a respeito das leituras que Ozzy teve. Quando li a autobiografia de Eric Clapton, ele citou escritores, como Kurt Vonnegut. Bem, logo que eu comprar e ler o livro voltarei a falar mais dele.

Dezembro 13, 2010

Bêbados e loucos

Wittgenstein chama minha atenção a respeitos dos dois passageiros sentados nas longarinas do terminal de embarque do aeroporto. Um sujeito baixo, com uma protuberância abdominal avantajada, cabelos grisalhos e postura de um nouveau riche, e seu provável colega de trabalho, alto, magro com cabelo militar. Pegaríamos os quatro o mesmo avião, até aquele momento aparentemente vazio. O ar de Vitória estava bastante agradável para o inverno que tinha saído pela manhã, na São Paulo gelada. Tinha passado um ótimo dia naquela cidade e encontrar com o amigo Wttt, a forma carinhosa que chamava o professor Wittgenstein, no saguão do aeroporto enquanto esperava a aeronave que substituiria a considerada “insegura” – como se algum avião fosse seguro – para irmos a Belo Horizonte.
Witt falava da falta de segurança da pista do aeroporto de Vitória, quando algo naqueles dois homens o desviava do assunto. Tinha acabado de lhe falar da minha ligeira má impressão dos aeroportos Santos-Dumont e Congonhas, com suas pistas curtas e suas histórias de acidentes, quando também comecei a fitar aqueles dois homens.
Witt era um observador nato. Pelos sapatos conseguia dizer se o homem poderia ter ou não algum desvio de coluna. Se tivesse se dedicado a medicina com certeza teria sido um grande médico, mas acabou por preferir as letras e confeccionar seus poemas quase enigmáticos e dar as melhores aulas a respeito de William Shakespeare que alguém poderia assistir. Se não fosse por Witt muito provavelmente não estaria hoje participando destas visitas maravilhosas a novos escritores e entender como eles trabalham; suas manias, suas superstições. O trabalho de um jornalista é para alguns o divertimento, uma vida de badalações e ostentações, mas sempre esquecem que há muito trabalho para selecionar e compreender o que se pode e o que não se pode mostrar, o que faz a audiência subir e é supérfluo, e o que é essencial e ninguém se interessa. As entrelinhas são, em muitos casos, horas e mais horas de preparação, leituras, cursos e um sem fim de paciência, para às vezes meia hora de um papo fútil. Certa vez, um jornalista famoso disse que nossa profissão era separar o joio do trigo, mas ficar só com o joio... Mas Wiit não era jornalista. Era um dos que ninguém queria saber, e inúmeros poetas famosos o citavam como inspiração máxima. Era o Sergio Mendes no Brasil sem a carreira internacional. Mas um bom sujeito, de papo interessantíssimo, culto, refinado e mais que tudo: simples de coração.
Mas olhávamos aqueles dois sujeitos e praticamente não trocamos mais nenhuma palavra. Eu os observava na ânsia de entender o que se passava para chamar a atenção dessa forma de Witt. E ele os olhava, olhava e nada. Nenhuma palavra. Eu os via, olhava para a camisa listrada com a ostentação daquele crocodilo bordado que não deixava suspeita de se tratar de uma ostentação, podendo até mesmo ser uma falsificação, e nada via de interessante.
Reparo nesta hora a passagem de outro ilustre capixaba de nascimento, mas paulista de todo sempre, indo para o outro terminal com destino a cidade que moramos. O havia encontrado na rua outro dia. Cumprimentei-o naquele dia, mas parecia estar um tanto alterado pelo consumo de álcool. Agora estava mais sereno. Fitei-o sem a intenção de deixar de fazer a minha observação a aqueles dois homens para cumprimentá-lo. Certa feita, quando apertou minha mão pela primeira vez, achei que havia recebido fluxos mágicos de sua energia pulsante e que tudo, dali para frente, seria diferente. Nada... Tudo continuou igual, mas que sua imagem ainda permeia meus pensamentos permeia. Numa outra ocasião, este mesmo ilustre capixaba de nascimento, estava recebendo um dos maiores prêmios que um artista pode receber e estava feliz, falante, simpático, alegre. Foi muito bom vê-lo aquele dia. Noutra ocasião, que estava rodeado de “insufladores”, passei sem dar-lhe nem um aceno. Um livro sobre sua obra está entre os que mais tenho apreço, assim como também aprecio suas obras. Mas estava ele também naquele aeroporto, naquele mesmo dia.
Havia estado somente uma vez em Vitória, de passagem, para uma cidade muito conhecida por conta de seu filho mais ilustre. Mas Vitória está no meu coração. Assim como outros estados do Brasil, aquele foi um dos que sempre tive curiosidade.
Quando estudava na Europa, durante minha primeira pós-graduação, um rabino protestante budista me disse acham um absurdo um banco se chamar Espírito Santo. Mas, disse ele, que depois que descobriu que há um pueblo no Brasil com este nome, entendeu o nome do tal banco. Nem perdi meu tempo de explicar-lhe que era um estado e não um “povoado” e que o tal banco era europeu, português, e não brasileiro. Mas ficou na minha imaginação aquele estado da região sudeste que ainda não conhecia. Já havia ido uma porção de vezes para as Minas Gerais, e duas vezes para o Rio de Janeiro, mas não havia ido para o Espírito Santo, até surgir esta primeira oportunidade. Havia ido uma semana antes para o Rio de Janeiro, mais especificamente para Volta Redonda, e agora conseguia ir novamente para o Espírito Santo e mais que tudo, ficaria em Vitória mesmo. Certo que no mesmo dia, ao anoitecer, embarcaria para Belo Horizonte, mas só o fato de poder conhecer a capital do estado me deixou bastante contente. Como sempre, ao visitar uma capital, tento saber de seus museus e principalmente de suas bibliotecas. No Rio de Janeiro ainda não fui à Biblioteca Nacional, mas numa próxima oportunidade lá estarei, assim como numa certa livraria onde tudo acontece.
Mas os dois homens estavam eufóricos. Estavam conversando sobre o que serviriam no avião. Notei que a ansiedade dos dois estava na possibilidade deste vôo noturno oferecer bebidas alcoólicas. Notei então que Witt prestava atenção em como estavam em solo, para tentar entender ao máximo suas possíveis reações ao consumo de álcool durante o vôo. Notei então que o que interessava a Witt estava na possibilidade de perda do controle e a exaltação dos sentimentos, da selvageria talvez, que surgisse naqueles dois após o consumo de álcool nas alturas dos céus de Minas Gerais e do Espírito Santo. Pensei em como será ótimo estar longe de Witt dentro do avião. E mais que tudo, longe daqueles dois. Começava a me dar calafrios os três, os dois bêbados e o louco, fazendo uma arruaça no céu. Naquela altura, que tanto tenho receio. Fiquei feliz de poder sentar-me longe de Witt no vôo. Ele seria louco o suficiente de estimular aqueles dois a “realçar” suas sensações no céu. Witt era um louco, na verdade. Um inconseqüente. O que seria de mim e de outros passageiros, ou mesmo da tripulação, nessa quase macabra experiência sobre sensações? Achei melhor parar de pensar. Ainda passaria a noite toda em Belo Horizonte e muito provavelmente teria que estar bem para jantar com um editor local que me pegaria naquele aeroporto distante de tudo.
Enfim começaram a chamar os passageiros para o vôo. Os três comissários falavam intensamente entre si sobre a Copa do Mundo, sobre as seleções com maiores possibilidades de vencer. Nem sequer deram conta do lhe esperavam. Começaram a chegar passageiros sabe-se lá de onde e o avião começou a ficar lotado. Fui um dos primeiros a entrar e pedi aos pilotos se poderia entrar na cabine. Foi a primeira vez que me permitiram e explicaram todos os relógios e luzinhas para mim. Ao retornar ao assento o avião parecia bem lotado. Pensei em como seria agora ainda mais difícil para a tripulação controlar aqueles dois, depois do álcool. Quase falei aos pilotos o que estava por acontecer, mas não poderia precisar com total convicção que isso fosse algo realmente importante.
Já no meu assento, pensava agora na pista do aeroporto. Por que Wittgenstein me falou sobre a falta de espaço dessa pista? Estava agora praticamente agarrado ao banco, olhando pela pequena janelinha o avião taxiando. É chegada a hora e o avião sobe, sem nenhum problema, sem nenhuma trepidação. Pego o meu caríssimo Saramago que havia comprado na lojinha do aeroporto pouco antes de me encontrar com Wittgenstein e retomo o primeiro capítulo. Logo seria servido o serviço de bordo e então já imaginava que não teria condições de voltar a ler o Saramago neste vôo.
Bem, como nem tudo são flores, começo a ver a movimentação dos comissários. Para minha sorte, a única bebida mais “exótica” a ser servida era o novo guaraná com açaí... Nenhuma experiência nova ao professor Wittgenstein. Pude ler prazerosamente o Saramago até a descida em Confins.
Na sala de desembarque, enquanto tomava o rumo da saída, encontro com Wittgenstein novamente e ele pergunta com a cara espantada:
- Reparou naqueles dois?

Outubro 10, 2010

17 anos depois...

Em 1993 assisti pela primeira vez o Bon Jovi ao vivo. Em 2006, quando morava nos Estados Unidos, era para ter visto pela segunda vez. Na minha adolescência o Bon Jovi não era a minha banda predileta. Para ser mais exato, até hoje não é uma das bandas que mais gosto. Mas talvez seja uma das únicas daqueles anos que ainda está em atividade com a mesma formação. O show de 1993 foi um show bastante interessante à época, não tenho enormes lembranças, mas foi o show da turnê Keep the Faith. Lembro bem mais das músicas do álbum Slippery When Wet e New Jersey. Diria que gosto mesmo destes dois álbuns. Era o show de reunião da banda e Jon Bon Jovi cantou uma música de seu álbum solo: Blaze of Glory. Este álbum solo foi o único álbum que comprei até hoje do Bon Jovi. Era ainda em vinil, no longínquo ano de 1991. Ainda hoje gosto muito das faixas Miracle e Santa Fe. É um álbum bem divertido e gosto de escutá-lo de vez em quando até hoje.

Agora, 17 anos depois, nesta semana, tive o prazer de ver novamente a banda tocando. Agora o palco não era o estádio do Pacaembu, como em 1993, e sim o estádio do Morumbi. Não fiquei até o final do show, em virtude do horário avançado para uma quarta-feira e do meu cansaço pessoal, já que tinha chego de uma viagem de trabalho no dia do show. Soube depois que o show se estendeu por pelo menos uma hora depois da minha saída, com mais de três horas de duração. Mas tudo bem... Já haviam tocado as música que queria ouvir de novo... Para mim estava mais do satisfeito. Foi realmente um show que atendeu aos anseios de todos ali presentes. Um show que contemplou muito da carreira da banda, tocando os sucessos do passado e as músicas que fizeram sucesso já na década dos anos 2000. A produção do show estava sensacional, com imagens impressionantes nos telões, inclusive até com a imagem projetada de Pelé e outras personalidades, durante uma canção. Os cinco elementos ainda sabem fazer 65 mil pessoas pularem...

Agora, que saudades de ver um show nos Estados Unidos... O brasileiro precisa entender que conforto não é nada de mais, e que o preço do ingresso deveria atender a isso. Eu tive que ver um show da escada e ter que empurrar as pessoas – diga-se suadas, sabe-se eu lá de que substâncias, pois tava uma temperatura de menos de 20ºC – para conseguir sair. Ou o brasileiro é realmente muito mal educado, ou a organização é muito ruim, ou as duas coisas... Sem contar que essa mania de ficar 100% do tempo de pé, na arquibancada, é algo um tanto quanto idiota... Num jogo de futebol, que são 90 minutos mais 15 de intervalo, todo mundo fica sentado durante a maior parte do jogo...

Pra frente Brasil...

Dilma pode ser a primeira mulher a ser eleita presidente do Brasil. Ninguém sabe quem vai ganhar a eleição, nem mesmo os institutos de pesquisa afirmam seus números com convicção. A prudência parece ter aparecido depois dos resultados “estranhos” do primeiro turno, onde as urnas mostraram resultados bem diferentes dos dados das pesquisas – aparecendo hipóteses das mais diversas para explicar o inexplicável. Agora trabalham na hipótese da campanha de Dilma ter alguma fadiga e que Serra estaria fortalecido. Mas uma unanimidade é que Marina Silva foi o fator decisivo para se ter o segundo turno. Discordo em parte desse pensamento, mas com certeza sua terceira via foi importante para o debate democrático, aquele que Dilma e o PT não queriam – eles queriam é um debate entre Fernando Henrique Cardoso e Lula, que não concorrem nesta eleição e é um debate ainda por ser escrito e discutido, mas não é cacife eleitoral de nada e de nenhum dos dois candidatos, explico mais para frente este fato.

Porém, como a eleição está indefinida, vale ressaltar que a campanha está ainda muito aquém de outras eleições passadas. Outro dia ao perguntar para um amigo sobre quais eram as reais propostas de Marina Silva houve aquele mesmo vazio de que quando se pergunta quais os pontos positivos do governo Lula: o total discurso cinzento, cheio de temas gerais e poucos números e poucas reais propostas concretas. Marina ainda consentia em fazer plebiscitos sobre vários temas, inclusive o tema da moda do início da campanha do segundo turno, a legalização do aborto. Não há muita discussão desse tema, primeiramente porque se hoje fosse feito o tal plebiscito muitas das máscaras cairiam por terra – e os petistas sabem do que eu estou a falar. E mais uma derrota para as esquerdas no geral não está na pauta. Sempre é bom lembrar: a legalização do aborto é uma temática de esquerda, da esquerda atual, que também defende o casamento homossexual, a liberação das drogas, a repressão religiosa (poderia usar outro termo, mas nada é mais preciso como “repressão”, que é o que a esquerda quer ao proibir o uso de símbolos religiosos, seja onde for) entre outras temáticas que são o completo oposto das “incríveis” idéias marxistas universalistas. Hoje a esquerda tem uma agenda bem pouco universalista e bastante contraditória. É, deve ser por conta da queda do muro de Berlim e da extinção da União Soviética que os planos universalistas, da sociedade perfeita, se transformaram em causas assim tão pequenas e numa agenda a ser seguida com viés antidemocrático e defendida quase na ilegalidade (na verdade, nenhum partido de esquerda no Brasil fala destas temáticas de forma clara, obviamente – se não iriam ter menos votos ainda... E político no Brasil pensa antes nos votos do que nos princípios).

Mas deixando de lado “a verdade sobre a esquerda”, que todo mundo sabe, vamos ao ponto que me chama a atenção: estão novamente tentando abrir o debate sobre as privatizações. Outro dia, no vôo de volta para São Paulo, um senhor me disse que o Serra é a favor da privatização da Petrobras. Não li isso em nenhum lugar e tenho a carta de intenções de Fernando Henrique Cardoso da eleição de 2006, onde falava claramente que as privatizações da Petrobras, da Caixa e do Banco do Brasil nunca estiveram nos planos de governo do PSDB. Haviam falado a mesma coisa sobre Geraldo Alckmin naquela ocasião. Serra já foi contundente ao dizer que se fosse ruim Lula teve oito anos para reverter. Se não o fez é porque deve ter tido algum detalhe que ele não quer contar para nós, talvez por ser extremamente positivo ao PSDB... Minha posição neste tema é bem diferente. Sim eu sou a favor da privatização e do Estado Mínimo. Mas o PSDB não é... Quase um problema votar no Serra por conta disso. Sem contar que a lei sobre o cigarro, que é também bem popular, nada mais é que uma arbitrariedade. Mas tirando estes detalhes que eu vejo como negativos e a grande maioria da sociedade brasileira vê com bons olhos, Serra vai indo muito bem em seus discursos para as pessoas civilizadas... Basta agora falar aos selvagens...

Em política, muitas vezes, o conceito maior, o que realmente conduz o debate político, tende a ser suprimido por uma avalanche de distorções, tanto de um lado como de outro. Enxergar estas qualidades intrínsecas leva além de muitos anos de democracia, muito mais discussão sobre a sociedade do que a campanha política é capaz de fazer. Hoje não se discute o que se quer para o Brasil. E não se discute isso desde o governo militar. O Plano Real, do governo Itamar Franco, idealizado e executado por Fernando Henrique Cardoso, levou o Brasil a um patamar mais avançado de discussões. O controle da inflação era situação primaria para que então se discutisse uma visão de Brasil. O Plano Real mostrou-se eficiente e conduziu a este debate, que além do PV – Partido Verde, não existe ainda sequer menção disso nos outros partidos. O DEM, antigo PFL, iniciou seu debate interno, mas ainda não tem sequer bandeiras assumidas e um plano de Brasil para defender. As universidades, os intelectuais e de forma geral o empresariado brasileiro, também não tem um plano, uma proposta. Parecem viver o dia-a-dia, na eminência de alguma luz. Uns fingem dizer que o Brasil se acertou no governo Lula, desprezando a etapa conseguida pelo Plano Real. E eis então que chego naquele momento de dizer o porquê nem Serra e nem Dilma são defensores de seus respectivos antecessores FHC e Lula: porque Lula é de certa forma o continuador da obra de FHC. Ou seja: desprezar que Lula é um governo de continuidade é o mesmo que dizer que tanto Dilma ou Serra farão mudanças estruturais... Não. Marina Silva estava correta: será a continuidade dos últimos dezesseis anos de governo - em todas as suas partes positivas e negativas. Não há planos, não há bandeiras, não há nada mais que melhorias e maquiagens, que politicagem e “gestão”, que negociações e tentativas de autoritarismos e a continuidade de um Brasil – país do futuro, que nunca chega...

Então qual seria a grande diferença entre Dilma e Serra? Como certa vez um professor nos alertou, fazendo uma alegoria musical, a diferença entre o PSDB e o PT não está partitura. A partitura é a mesma, mas o PSDB é um quarteto de cordas e o PT uma banda de pagode. São questões estéticas que os diferenciam, mas há duas macro-questões que me impedem de dizer que não haverá diferença na condução dos governantes.

A primeira diz respeito ao saber conviver com a democracia. Serra e o PSDB sabem receber críticas e nunca saíram pautando jornalistas ou desrespeitando a constituição em detrimento de suas vontades e nem estão ligados a movimentos internacionais e dirigentes de outros países que ferem direitos civis e humanos. Além disso, nos anos de FHC, as agências reguladoras, órgãos de defesa institucional, foram fortalecidas e de certa forma houve maior fortalecimento institucional geral, o que dá transparência ao governo e ordem com critérios técnicos. Já Dilma e o PT tem suas ligações com líderes da América Latina com enfoque um tanto quanto pitoresco. Ligações internacionais que custaram ao Brasil desgaste desnecessário ao andamento da política externa. Na política interna, desgaste nas mesmas agências reguladoras e nas questões institucionais, criando um novo movimento, o Lulismo. Hoje o Lulismo, que pauta jornalistas, que esmaga a oposição de forma antidemocrática, é muito maior do que o Petismo. O populismo do governo Lula escurece o debate de idéias e fomenta as decisões tomadas no pior tipo de politicagem possível, a dos interesses privados. Os discursos não são claros quanto às suas intenções e contraditórios, estruturados para cada público ouvinte. Lula já foi o rei do etanol, agora o príncipe do petróleo do pré-sal. Dilma não mostra quais são suas idéias, é mais em cima do muro do que os tucanos já foram um dia. Faz defesa do governo Lula sem sequer citar os inúmeros casos escandalosos que inundam o aparelhamento petista do Estado, como se isso não fosse de sua responsabilidade.

A segunda macro-questão se baseia na condução da política econômica e do aparelhamento estatal. Como já citei, no governo Lula, Estado e partido se confundem e há pouca transparência. Os gastos do governo aumentam de tal forma a preocupar os cientistas econômicos quanto ao controle da inflação. Uma crise eminente é alarmada por muitos economistas, mas, se a economia mundial permanecer como está, sem mais crises e sem maiores tropeços, o Brasil deve continuar a crescer pouco e se desenvolver conforme o ritmo atual, que não é lá grande coisa - principalmente se compararmos o crescimento de países como China e Índia. Não se pode dizer que com Serra na presidência as crises não virão. Aliás, muito pelo contrário, as crises não escolhem dirigentes. Mas o ajuste fiscal defendido pelo PSDB parece ser mais apropriado e cauteloso do que o aumento dos gastos público defendido por Dilma. Não se espera uma crise, mas se alguma atitude impopular não for tomada, tanto de Dilma como de Serra, tentando quebrar o tripé econômico hoje formado de altos juros, alta carga tributária e baixo investimento estatal, será o caos em alguns anos. Lula foi relapso a esta situação, herdada também de FHC. Nesse quesito Serra tem mais experiência administrativa e já era crítico destas medidas em 2002. Outra situação que para Dilma e o PT pode custar muito caro é o apoio do PMDB. Nas disputas de cargos e outras políticas, isso pode gerar dificuldades homéricas na realização de ajustes fiscais.

Em suma, para que arriscar a continuidade de governo com maiores riscos de descontrole a um novo que já demonstra saber onde há problemas e que pode ser mais eficiente? Sim, vamos com Serra, pra frente Brasil! Mesmo porque a oposição durante o governo FHC era muito mais aprimorada e as discussões muito mais interessantes... Não vejo a hora de começar a perturbar o governo Serra! O desastre que Dilma pode representar – que tem a mesma possibilidade de dar certo quanto se ganhar na loteria – é muito mais arriscado que apostar em um político que já era a mudança em 2002. Logicamente, a memória fraca do brasileiro não recorda que em 2002, se FHC fosse candidato, também teria ganhado a eleição... O terceiro mandato seria dado pelo povo brasileiro a FHC, que, como defensor da democracia, não avançou neste sentido – o qual Lula quis sim, só não foi à frente porque ainda há oposição. Serra já defendia muitas mudanças fiscais que faziam parte do programa de governo de Alckmin. Lembrem-se na hora de votar: em 2006 o PSDB não foi convincente em apresentar as deficiências de Lula e perdeu uma eleição com um escândalo muitas vezes maior que o que derrubou Collor. Agora, em 2010 há uma candidata que ninguém sabe ao certo quem é e o que pensa, nem muito menos o que vai fazer. Muito diferente de Lula que estava em sua quarta eleição, Dilma não representa nem sequer a maioria no PT, que agoniza sem nomes fortes para a sucessão nos estados e municípios - assim como praticamente todos os partidos no Brasil. Aliás, isso é uma constância no debate político atual.

Por fim, Dilma pode ser eleita a primeira mulher a ser presidente do Brasil. Isso não muda nada, não diz nada e nem sequer está na pauta além da campanha política que nada tem a dizer. A página em branco da capa de Veja na semana passada é realmente algo mais do importante para o Brasil; é o símbolo máximo dessa eleição, em que os candidatos nada dizem a não ser que vão continuar a fazer o que fazem ou faziam.... Nada novo, nada que faça realmente acender uma nova vela de esperança no debate político brasileiro. Cabe aos anos Lula a divisão do Brasil entre ricos e pobres, fomentando a divisão social que custa cada vez mais caro ao contribuinte brasileiro, fazendo com que o Brasil seja ainda um país em que o governo tenha que por a mão em tudo, fazer tudo, tirando do povo brasileiro sua capacidade de agir sozinho. Governos não geram riquezas. Governos não dão empregos. Quem faz isso é a iniciativa privada que é cada vez mais dificultada de se estabelecer por conta da ação da pesada carga tributária quanto da convulsão social desenfreada, como o aumento da violência. Tanto Dilma quanto Serra não vão mudar isso. Em suma, a partitura é sempre a mesma... Dá certa preguiça de publicar este tipo de texto... Defender a candidatura Serra é algo como fazer a barba e cortar o cabelo; a cabeça fica mais bonita, mas continua sendo a mesma...

Outubro 01, 2010

Lançamento e a minha curiosidade...

Há pouco tempo houve uma série de livros de inúmeros autores lançados durante a FLIP – Feira Literária Internacional de Paraty. Porém, um lançamento, que ainda não sei ao certo como foi, me chama muito a atenção por pura curiosidade. Este é o livro do padre Sertillanges, A Vida Intelectual.

Tenho curiosidade por este livro há um bom tempo, porém, não havia uma edição em português nova. E nem antiga, na verdade. Achei um pdf há um bom tempo. Mas, como lia na coluna de Lya Luft, ainda não temos um modo de ler na tela da mesma forma como lemos nossos livros.

Esta edição já está na minha lista de compras. Não consigo falar mais sem ter lido o livro, mas a indicação foi tal que não me contenho em iniciar o mês de outubro falando sobre mais um livro. E, claro, falando mais de mim.

Tenho pensando em “o que falariam de mim” ao falar de mais um livro que deverá ser daqueles que só eu conheço ou quem mais conhece já leu e nada mais eu posso acrescentar. Na verdade isso não me importa, pois quem já leu este livro – e alguns outros que tratei aqui – me dá um apoio que me é mais do importante, principalmente pelo período em que passo atualmente, cheio de coisas e novidades, e nada consigo escrever aqui...

Este mês tenho a ambição de voltar a escrever – no blog - todos os dias. São mais de 700 postagens nestes mais de 3 anos de blog.

Setembro 12, 2010

Sobre as coleções de livros...

Poucos meses atrás a Abril lançou uma série de clássicos da literatura, com ótimo acabamento, conforme comentei aqui. É, basicamente minha segunda coleção de livros. A primeira foi uma que ganhei do jornal O Estado de São Paulo, contendo 20 volumes. Acabo de ver que a Folha lançará, no próximo domingo, dia 19, a coleção Livros que mudaram o Mundo. É uma coleção interessante se não fosse por alguns volumes que lá estão simplesmente para preencher espaço. Os títulos da colação da Abril tratavam da literatura mundial trazendo clássicos a um preço realmente satisfatório. Alguns até bastante difíceis, pois já em edições esgotadas. Já da Folha alguns dos volumes são realmente desnecessários, ou melhor, estão na minha listinha de que um dia, se tiver tempo, não tiver outros livros na fila, nem nada mais importante, os leria. Alguns são interessantes, mas mesmo assim não recomendo o investimento, principalmente por não saber a qualidade da publicação. Sem contar que há edições condensadas e parece ser uma coleção burocrática demais. Vejam os títulos selecionados:

A Origem das Espécies - Darwin

O Príncipe e Escritos Políticos - Maquiavel

A Interpretação dos Sonhos - Freud

Riqueza das Nações (ed. condensada) – Adam Smith

Apologia de Sócrates, O Banquete e Fedro - Platão

Discurso sobre o Método e Princípios de Filosofia - Descartes

A Utopia – Thomas More

A Metafísica dos Costumes - Kant

Principia - Princípios Matemáticos de Filosofia Natural (livro III) – Isaac Newton

O Livro Vermelho – Mao Tse-Tung

A Política - Aristóteles

Confissões – Santo Agostinho

O Capital (ed. condensada) – Karl Marx

Do Contrato Social - Rousseau

Pensamentos - Pascal

A Democracia na América – Alexis de Tocqueville

Cândido ou O Otimista - Voltaire

Bíblia Sagrada

Alcorão Sagrado

Discursos que mudaram o Mundo

Já os 35 volumes da Abril (já que são edições completas, muitos dos títulos tem dois volumes):

Crime e castigo, V.1 - Fiódor Dostoiévski

Crime e castigo, V.2 - Fiódor Dostoievski

Madame Bovary - Gustave Flaubert

O retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde

Memórias póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis

A divina comédia – Inferno - Dante Alighieri

Os sofrimentos do jovem Werther - J. W. Goethe

O engenhoso fidalgo D. Quixote da Mancha, V.1 - Miguel de Cervantes

O engenhoso fidalgo D. Quixote da Mancha, V.2 Miguel de Cervantes

Hamlet, Rei Lear e MacBeth - William Shakespeare

Ilusões perdidas, V.1 - Honoré de Balzac

Ilusões perdidas, V.2 - Honoré de Balzac

Orgulho e preconceito - Jane Austen

O primo Basílio - Eça de Queirós

Moby Dick, V.1 - Herman Melville

Moby Dick, V.2 - Herman Melville

O falecido Mattia Pascal - Luigi Pirandello

O homem que queria ser rei e outras histórias - Rudyard Kipling

Os lusíadas - Luís de Camões

A metamorfose - Franz Kafka

Outra volta do parafuso - Henry James

O assassinato e outras histórias - Antón Tchekhov

O morro dos ventos uivantes - Emily Brontë

Mensagem - Fernando Pessoa

Coração das trevas - Joseph Conrad

O vermelho e o negro - Stendhal

Cândido - Voltaire

Os Malavoglia - Giovanni Verga

Os sertões, V.1 - Euclides da Cunha

Os sertões, V.2 - Euclides da Cunha

Contos de amor, de loucura e de morte - Horacio Quiroga

Infância - Maksim Gorki

Grandes esperanças - Charles Dickens

No caminho de Swann - Marcel Proust

Odisséia – Homero

Toda coleção acaba por repetir alguns dos volumes, como se pode ver que Cândido, de Voltaire, aparece nas duas. Minha primeira coleção foi em 1997, como disse acima, presente do Estadão. Chamava Ler é Aprender e guardo esta coleção com muito carinho, mas tratava de clássicos da literatura brasileira e portuguesa. Seus títulos eram:

Espumas Flutuantes - Castro Alves

Dom Casmurro - Machado de Assis

O primo Basílio - Eça de Queirós

Contos novos - Mário de Andrade

Memórias póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis

O noviço - Martins Pena

A relíquia - Eça de Queirós

Auto da barca do inferno - Gil Vicente

Amor de perdição - Camilo Castelo Branco

Fogo morto - José Lins do Rego

Quincas Borba - Machado de Assis

Senhora - José de Alencar

Memórias de um sargento de milícias - Manuel A. de Almeida

Poemas escolhidos - Fernando Pessoa

O ateneu - Raul Pompéia

O cortiço - Aluísio Azevedo

A moreninha - Joaquim M. de Macedo

Policarpo Quaresma - Lima Barreto

Poesia brasileira – coletânea

Brás, Bexiga e Barra Funda - A. Alcântara

Como se pode ver, houve a repetição de dois títulos, O Primo Basílio e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Dois clássicos que acabam por permear as discussões literárias, que não poderiam mesmo estar fora das duas coleções. Ao se pensar nas coleções, sempre haveria mais algum título a complementar.

Eu realmente gosto de coleções. Já tive outras coleções, mais não fui em frente. Acho que estas, que faço uso por realmente ter um grande apreço pela literatura, faz muito mais sentido.

Lia esta semana um artigo de Lya Luft, na revista Veja, que falava sobre o livro eletrônico. Falava sobre a discussão sem fim, de que o livro, impresso, vai acabar. No fundo concluía que por enquanto não deve acabar... Cois amais do que óbvia, bastava ver o tamanho das livrarias existentes. Se alguém lembrar, basta ver que os espaços para CD´s e discos de vinil nas lojas é muito menor do que era a coisa de 5 a 10 anos atrás - no caso do vil, coisa de 20 anos. A diferença dos livros, é que CD´s, LP´s, DVD´s e outros necessitam de aparelhos para serem reproduzidos, enquanto que os livros há alguns séculos permanecem um tanto quanto semelhantes... são produtos prontos... Se tira da estante e lê.

Guterman genial!

Poucas foram as vezes que publiquei aqui no blog um artigo completo, mas Marcos Guterman conseguiu, com poucos parágrafos, expor o que talvez demorasse algumas páginas e não sei se conseguiria com tanta precisão. Se eu tenho uma opinião claramente contrária ao rumo que seguem estas eleições – e ainda não tive tempo de escrever por aqui – Guterman pegou um dos mais importantes aspectos e que considero de suma importância na transição democrática entre partidos democraticamente representados. Se há algo de positivo nesta eleição, já foi também demonstrada pelos números e por discursos como da candidata verde Marina Silva e de Plínio de Arruda Sampaio.

Explico: Maria Silva faz um discurso trazendo a continuidade dos avanços dos últimos 16 anos e a mudança do que não concorda, o que faz com que seja a “terceira opção” e pela primeira vez o PV (Partido Verde), único partido com características internacionais existente no Brasil – o que me faz pensar que ainda há algo de normal no Brasil – consegue ter um candidato representativo. Não, não vou votar na Marina, mas isso não impede de falar que sua candidatura é algo positivo ao processo democrático. Sobre Plínio de Arruda Sampaio, os números da pesquisa de intenções de voto mostram que sua participação nos debates se dá por puro respeito à sua pessoa – sua biografia e sua idade – e não às suas idéias políticas, que a população nem sequer quer saber. Isso é positivo do ponto de vista que seu discurso acabou e não há mais espaço para aventuras políticas radicais. Por mais que Dilma pareça uma radical, por sua falta de postura ao responder perguntas – parece sempre estar nervosa e que todas as perguntas estão sendo feitas para atacá-la – sempre há Plínio para nos lembrar que tudo pode ser pior...

Que coisa, não falei de Serra... Bem, o que falar sobre um dos maiores fenômenos incompreendidos da política brasileira que se tem idéia? Como pode estar em situação tão lamentável um candidato que tem a biografia que tem? Foi um bom governador do Estado de São Paulo, afinal, seu índice de aprovação passa dos 50% de bom e ótimo. Tem o que se precisa para ser um chefe de Estado: postura ética, experiência administrativa, um grupo de apoio com pessoas de bom senso e bom nível técnico administrativo e, o mais importante, não é uma unanimidade. Isso significa que sabe conviver com o espírito democrático. Só isso já valeria todos os seus defeitos. Se sua campanha de TV fosse boa – o que não é – estaria se evidenciando a falta de qualidade dos seus oponentes. A campanha de Dilma não consegue falar do impossível – suas qualidades e do governo Lula (a não ser que minta, distorcendo os números) – então sobra destacar os defeitos dos opositores. Índio da Costa, vice de José Serra, foi a melhor presença desta eleição. Espero que consiga em alguns anos formar um grupo político que represente alguma novidade no cenário nacional. Assim como Sarah Palin foi o que houve de melhor na eleição de Obama, Índio da Costa se torna um nome forte para representar uma novidade para a política brasileira, que já apresenta, como Guterman escreve abaixo, um esvaziamento do discurso político. Só lembrando o que li na The Economist meses atrás: José Serra seria o melhor presidente que o Brasil pode não ter...

Por Marcos Gurterman

Médici, Lula e a tiriricarização da política

Em seu twitter, Alncelmo Gois, colunista de O Globo, fez uma observação muito pertinente: “Lula é um democrata. Médici era ditador. Mas o clima de Brasil grande e de desinteresse pela política é o mesmo nos dois governos”.

A comparação é inevitável. O que aproxima Lula e Médici é um projeto de unanimidade, fundamentado na ideia de que é preciso união nacional para atingir o objetivo de transformar o Brasil numa grande potência. O resultado disso tudo, tanto nos anos 70 como agora, é o esvaziamento do discurso político, de que a candidatura de Tiririca é apenas seu mais símbolo mais grotesco.

Pior: a oposição é vista como algo danoso ao país. Médici dizia que era necessário “mobilizar a vontade coletiva para a obra do desenvolvimento nacional” e que, embora a unanimidade fosse algo “incompatível com o regime democrático”, o ideal era “compreender que a pátria é uma só” quando estivessem em jogo “os supremos valores da liberdade, do desenvolvimento e da segurança”. Já Lula é mais prático: chama os opositores simplesmente de “turma do contra, que torce o nariz contra tudo o que o povo conquistou nos últimos anos”, como se esses recalcitrantes não fizessem outra coisa a não ser atrapalhar a marcha brasileira rumo a seu destino manifesto.

A invenção de Dilma não é senão a melhor expressão dessa arrogância: afinal, no melhor estilo populista, Lula concluiu que o mundo político tradicional (aí incluído seu próprio partido) não poderia produzir um sucessor à altura de suas qualidades messiânicas, razão pela qual decidiu gerar sua própria candidata. A apatia alimentada por Lula transformou uma completa desconhecida numa pessoa de qualidades tão excepcionais que 50% dos eleitores já decidiram votar nela. Ao inventar Dilma, o presidente dispensou a mediação da política para impor sua vontade pessoal, a partir da percepção de que essa vontade se confunde com os desejos da maioria dos brasileiros.

Nisso, Lula e Médici são muito mais próximos do que a biografia de ambos faz supor. Embora ditador, Médici tinha verdadeira obsessão pela legitimação popular de seus atos. Logo ao tomar posse, o general discursou: “Espero que cada brasileiro faça justiça aos meus sinceros propósitos de servi-lo e confesso lealmente que gostaria que o meu governo viesse, afinal, a receber o prêmio de popularidade”.

O próprio Lula reconheceu, em entrevista a Ronaldo Costa Couto em 1989, que o general seria eleito se houvesse voto direto para presidente, porque “a popularidade do Médici no meio da classe trabalhadora era muito grande”. É fato: naquela época, exatamente como hoje, havia emprego e a sensação de que o Brasil alçava voo, o que era suficiente para justificar todo tipo de arbítrio.

Os paralelos, contudo, vão além. Naquela época, como hoje, havia delírios de grandeza em política externa. E, sobretudo, naquela época, como hoje, o presidente julgava que a popularidade era uma espécie de chancela automática para dizimar o contraditório e a própria essência da vida política, em nome do “interesse nacional”.

Setembro 03, 2010

Esses meus projetos...

Faz já pouco mais de um mês que escrevi aqui pela última vez. Escrever pouco é muito ruim, pois parece que venho “desistindo” de escrever, o que não é nem de perto verdade. Venho escrevendo outras coisas, um pouco por trabalho e outro tanto por questões relacionadas a alguns projetos. Mas um dos projetos principais está parado. Outros dois estão engatinhando... E por fim, nem sobre os costumes gerais tenho tido tempo.

Gosto de falar de futebol, F1, filmes, músicas e até de arquitetura... Imagino que muita gente entra no blog a procura de questões relacionadas à arquitetura. Uma ânsia que eu mesmo já passei tempos atrás. Não era, à época, blog, mas sites sobre arquitetura. Além do Vitruvius, que teve recente remodelação – da qual eu detestei – e o Arcoweb, não há mais sites sobre arquitetura. O próprio site da Pini, que edita a revista AU, não é lá um site muito interessante. O site Casa.com.br, da revista Arquitetura & Construção, é outro difícil de encontrar as coisas. Acredito que falta ainda alguma coisa para os sites ficarem fáceis de encontrar as obras, os arquitetos, os fornecedores, os vídeos, as entrevistas e as crônicas. A coisa mais estranha é a parte sobre perguntas, recheada de questões feitas por estudantes. Na verdade, lembro que quando saí da faculdade fui um dos poucos que continuou assinando a AU. E também foi por pouco tempo. Tem horas que penso que estas revistas são feitas para breve informação e não com a idéia de ser um objeto de pesquisa, de “acervo científico” – como se trata na área médica as revistas especializadas.

Bem, não queria ficar discutindo o mercado editorial de arquitetura, mas uma coisa me parece óbvia: há uma carência de produtos editados para arquitetura. Muitos livros foram publicados nos últimos anos e há muito ainda por aparecer.

A respeito dos livros de arquitetura, os escritórios mais consolidados dos chamados “comerciais” acabaram lançando compêndios sobre suas obras. Muitos deles são muito interessantes e há muitas coleções de livros baratos, alguns comentando somente uma obra específica. Olhando com as lentes do passado, parece que há um avanço neste sentido. Mas eu ainda sinto falta da continuidade da coleção de livros do Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, que se não me engano lançou quatro livros: Lina Bo Bardi, Vilanova Artigas, Reidy e, o mais popular, João Filgueiras Lima - Lelé. O quinto volume, sobre Oscar Niemeyer, não saiu ainda... E por muito tempo o da Lina esteve esgotado (sem contar o preço, que daria um tópico a mais...).

Se for falar a respeito dos ensaios, no Brasil parece que há uma lacuna maior. Muitas teses são publicadas, mas nada de inovador, nada de polêmico. Acho que o ultimo livro polêmico que tive oportunidade de ler foi o de Sérgio Teperman, que não passa de uma coletânea de seus inúmeros textos. Falta algum livro recente de ensaios arquitetônicos e urbanísticos. Algo que também saia um pouco do culto à arquitetura moderna brasileira. Será que não se produz nada além do que se passa nos meios acadêmicos? Será que não há mais o que se falar sobre assunto tão vago?

Poderia dizer que faço certa injustiça. Acabo de lembrar do livro – o pequeno e denso livro – do arquiteto Jaime Lerner, Acupunturas Urbanas. Nunca li críticas sobre o tal livrinho. Parece ter passado despercebido. Mas se lançassem muitos livrinhos assim, o debate ficaria bem mais interessante. Isso é uma das poucas certezas que tenho. O fato é que imagino a vontade dos arquitetos de sempre lançar os grandes livros, ilustrados, com projetos completos, textos analíticos, etc. e caros. Tem horas que se deve popularizar o debate. Achei incrível quando lançaram em português o livro Nova York Delirante, de Rem Koolhaas. Só acho que demorou muito... E assim ainda temos muitos livros que não nos chegam em português... E depois me perguntam por que eu estudo outras duas línguas...

Agosto 01, 2010

Lançamento do mês passado...

Certo tempo que não escrevo, nem para este blog e nem outras coisas. Cheguei a separar alguns textos no intuito de completá-los e de formar um texto mais coeso, ou melhor, juntar partes desconexas entre vários textos aqui publicados, mas não tive este tempo. Também iniciei um projeto maior que segue em frente, mas que em junho e julho não caminhou. As leituras continuam também num ritmo muito menor. É questão de momento, mas tenho a dizer que um lançamento literário entre muitos ocorridos nos últimos meses chama muito a atenção e merece destaque: Como ler livros, de Mortimer Adler e Charles Van Doren. A importância do lançamento desta nova edição pela É Realizações, após algumas décadas, está na no debate de novos métodos de “ensino”, além por ser o segundo título com o selo Educação Clássica. Tive contato e estudei com o método de Adler e com certeza é um dos mais completos para quem iniciou ou pretende iniciar um processo de estudos. Descobri este título há pouco tempo, em 2006, logo que se iniciou, em Curitiba, o programa Expedições pelo Mundo da Cultura. Este foi um dos primeiros livros do programa. Em teoria, o programa é baseado neste método. Além deste título a coleção Educação Clássica já publicou o título Trivium, em 2008, da Irmã Miriam Joseph, que é uma coletânea de aulas de um curso estruturado pela Irmã e incentivado por Adler. Não pude participar da palestra de lançamento de Como Ler Livros que muito provavelmente explicaria muito melhor do que eu, que sou mero estudante.

Abril 11, 2010

As linhas tênues do entre e o então...

Leio o blog da Norma Braga. Não a conheço, nem sei direito o que faz. Sei que é evangélica e que escreve um pouco sobre isso. Já li seus textos sobre Beatles, mais especificamente sobre Paul McCartney, e outro dia estava lendo um texto que foi publicado numa revista. Falava sobre porque ela não é de esquerda. Bem, me parece óbvio e até achei a leitura repetitiva. Mas pensei em quantas pessoas não fazem idéia do que ela esta falando. Falar sobre os reinos de Deus e de Cesar e falar a respeito de quanto a ideologia de esquerda esta impregnada nas formas de pensamento atuais é de fato algo que só é entendido quando nos damos ao trabalho de entender. Sim, requer esforço.

Também não sou de esquerda. Sou um tipo meio conservador, meio liberal, mas que antes de tudo segue alguns princípios que são inegociáveis, tais como liberdade de expressão, liberdade de opinião, liberdade, antes de tudo. Quando morei nos Estados Unidos entendi que a liberdade tem regras. E até hoje vivo um misto entre as regras para a liberdade e a impostura que temos no Brasil. Desde os tempos de faculdade via como alguns colegas tinham dificuldade em seguir regras. O curso de arquitetura é bem livre e infestado de idealismos e cada um deles tem regras, por mais incrível que possa parecer. E o pior de tudo é a total cegueira para se entender conceitos, diretrizes, o que chega a ser algo muito aborrecido. Para ser mais exato, não tenho lá muita paciência. Fico feliz por pessoas como a Norma Braga se dedicarem a explicar certos conceitos. Não sei nem se eu teria capacidade comunicativa para explicar o que me parece óbvio. Certa feita lembro de um texto do Reinaldo Azevedo, que falava algo mais ou menos no sentido de que só usando da lógica dá para desconstruir algumas “verdades”. Em suma, se algo lhe parece estranho, basta que some as partes, analise os fatos e tire alguma conclusão. Esse pequeno esforço chega a desmistificar várias questões que parecem complexas e chatas. Aliás, por ser chato, muita gente não enfrenta esse tipo de pensamento; se incomodam, mas não enfrentam.

Eu sempre passo por um fã do Fernando Henrique Cardoso toda vez que analiso alguma “mística” do governo Lula. Não entendo muito bem o fato, pois normalmente o ex-presidente nada tem a ver com o assunto. E quando digo que a política não me interessa, mas sim as ações dos governantes e, claro, seus conceitos utilizados para a tomada dessas decisões, me falam que eu só falo sobre política. Eu, como praticamente todo arquiteto, quando começo a escrever viro um misto de sociólogo e inconformado. O problema é que nos anos da juventude sempre se quer “mudar o mundo”. Se passa um tempo e simplesmente paramos de nadar contra a maré e passamos a ”integrar o sistema”. As críticas continuam, mas descobrimos que não se muda o mundo, só no máximo conseguimos melhorá-lo. E para esta melhora, as pequenas ações são mais importantes que as grandes. Por exemplo, ao separar o lixo reciclável, uma atitude fácil de fazer e oferece, partindo da pequena escala do indivíduo, uma melhoria muito grande no mundo, apresenta no Brasil certa resistência que não consigo entender. A lógica é simples: com o lixo separado se pode fazer um processo de reutilização que por sua vez polui muito menos. Olhando com a lógica capitalista, isso gera uma nova forma de empreendedorismo, um novo mercado, uma nova oportunidade a ser explorada, a da transformação de lixo novamente em matéria prima. Nada mais racional, nada mais óbvio. E porque há tanta resistência e tanta propaganda? E aí começam as pessoas de fé duvidosa a falar sobre “novos conceitos”, sobre “como fazer um novo mundo” e por aí vai. Mas no fundo há um aspecto econômico que faz desta pequena atitude politicamente correta um instrumento de engenharia social. Assim acaba por acontecer com um monte de outras coisas, criando novos mitos, novas místicas, que também não durariam a uma boa análise lógica.

Mas eu não vou falar aqui das atitudes politicamente corretas, mas do que faz as pessoas se entreterem muito mais com abstrações do que com ações reais. Ás vezes penso em como a realidade está à nossa frente e me falam algo que não faz sentido, baseado numa abstração qualquer.

Ando escrevendo um pouco de ficção. Gosto de escrever ficção. É um gosto que esteve adormecido por anos, que nem sabia que era capaz (não sei se sou bom, isso também não vem ao caso), mas que venho me dedicando, escrevendo, anotando e lendo. Lendo muito. Descobri que um escritor não pode não ter lido os clássicos. Dedico um tempo para esta minha “abstração”. Mas o conceito é justamente o mesmo que norteia a minha profissão: conhecer o que já se fez para poder trabalhar novos conceitos, superar novas exigências, sempre com muita criatividade. Nunca recebi um comentário negativo para os pequenos textos aqui postados. Mas ao falar da arquitetura já recebi de tudo. Descobri que escrever sobre Oscar Niemeyer dá ibope ao meu blog...

Fiz uma postagem em 2007 sobre uma profunda questão, que é o déficit habitacional brasileiro, onde criticava a saída de Niemeyer desta discussão (aqui), a partir dos anos 50 e 60, quando parou de projetar as mega-estruturas (não utilizo o conceito aqui, mas a idéia dos grandes complexos habitacionais, tais como o conjunto Pedregulho, de Reidy, e o Copan, alvo da tal postagem). Os comentários traziam questionamentos de outros conceitos, como sustentabilidade, críticas a pessoa do Niemeyer, críticas ao modernismo, porém, nenhuma questão focada no assunto que me preocupa: o déficit habitacional. Ok que o texto é prolixo. Eu sou meio prolixo, mas não há estudo nenhum a respeito desse desprendimento de Niemeyer sobre este tema. Em suma, fiz um questionamento inédito. E como é inédito, sempre tem alguém que pergunta de onde tirei isso. Oras, da minha cabeça. Se Artigas e Reidy trabalharam o tema, Paulo Mendes da Rocha e Lina Bo Bardi também, não consigo entender o porquê de Niemeyer não ser questionado. Me responderam que ele (Niemeyer) diz que pensar em conjunto habitacional é dividir as pessoas em classes sociais. Conforme escrevi acima, arquitetos quando escrevem viram sociólogos...

Mas, voltando às abstrações da realidade, o texto de Norma Braga, que abriu esta postagem, me alertou como temos que lutar o tempo todo para manter nossas liberdades. Até mesmo a liberdade de pensar em algo que até então ninguém pensou.

Abril 02, 2010

Jovem demais para morrer...

Num dia nada especial, numa noite sombria, resolveu que não mais deveria pertencer a este mundo. Sua resolução era reflexiva; pensava nos amigos, na tia, cuja casa dividia, na ex-esposa e na musa inspiradora de suas plácidas obras de arte, que produzia de forma quase incessante. Os quadros revelavam a verdadeira veia do artista, principalmente ao trabalhar os tons de vermelho sob o fundo branco. Seus traços eram jovens; muito mais jovens que sua verdadeira idade. Assim como o senhor Gray, sua face parece não padecer das ações do tempo.

Havia escolhido a noite para realizar o feito; o mal feito. A noite para ele era um momento mágico e ao mesmo tempo algo terrível. Mágico, pois conseguia produzir sem parar, sem atender ao telefone, sem falar com as pessoas. E terrível justamente por não perguntar para as pessoas como está indo sua produção. Sua vontade em dividir o processo criativo o amargava demais durante a noite. Como não perguntar à tia e aos amigos se gostam das cores, dos traços e se estes estão próximos ao rosto e corpo da musa, cuja inspiração não parava. Mas já havia decidido: sua vida não fazia mais sentido. Pensou em tudo, atualizou sua agenda, resolveu pendências e deixou tudo em ordem para aqueles que herdariam seu patrimônio sem valor material. Tinha seu rico dinheiro, oriundo de um marchand amigo, que vendia seus quadros. Claro, somente os que não achava perfeitos. É talvez o único artista que só vendia o que não gostava em sua produção. Sua vida era uma propaganda enganosa ambulante.

Não achava que as artes plásticas eram importantes para além do próprio artista. Mas sua maior vontade era fazer com que seus desenhos vivessem para sempre. Sempre lembrava das memórias póstumas, escritos centenários de seu autor de cabeceira, principalmente de sua dedicatória primeira. Pensava em como a matéria é imperfeita e que a condição de não poder compartilhar do mesmo solo sagrado de outros tantos não o afligia. Pensava sempre em Nicolò, proibido pelo bispo de Nice de se deitar eternamente, por conta de sua exibição de virtuosismo, como se fosse possível virtuosismo sem sua exibição.

Uma luz se acendeu no terraço com piso de pedras recobertas de uma pequena camada de musgo. Pensava em que o escuro completo não iluminaria seu caminho por entre as barcas. O tempo foi passando e ele ali parado, roendo as unhas. Já ao final da noite, próximo ao nascer do sol, decidiu que deveria mudar tudo. Não poderia ir embora antes de sua musa. Virgilio talvez o acompanhasse nas primeiras barcas, mas a principal delas somente poderia ir com Beatriz. E, num discurso semelhante ao proferido por Scarlett O’Hara, manifestou seu desejo de se livrar de seus desenhos todos e buscar a felicidade numa nova fase. Uma fase em que se sentia novamente jovem, com seu fôlego igual ao de um atleta olímpico. E no pequeno rádio tocava uma velha música conhecida...


Let's dance in style, let's dance for a while
Heaven can wait we're only watching the skies
Hoping for the best but expecting the worst
Are you going to drop the bomb or not?

Let us die young or let us live forever
We don't have the power but we never say never
Sitting in a sandpit, life is a short trip
The music's for the sad men

Can you imagine when this race is won
Turn our golden faces into the Sun
Praising our leaders we're getting in tune
The music's played by the mad men

Forever young, I want to be forever Young
Do you really want to live forever?
Forever, or never
Forever young, I want to be forever Young
Do you really want to live forever?
Forever Young (...)

Forever Young - Alphaville (1984)