Diary of a Madman III

Os anos dourados do ócio criativo
Outro dia li que aos vinte e poucos anos de idade os maiores ingredientes para a vida era tempo para sonhar, estudar e namorar. Como não concordar com esta afirmação? Queria eu ter escrito isso! Na verdade tive nesses dois anos de escrita nesse blog, além de marcar inúmeros tópicos, inúmeros assuntos, a possibilidade de um pouco de saudosismo. É estranho aos trinta e poucos pensar na adolescência, a autora da frase citada está com quase sessenta anos de idade.

Eu tinha a plena convicção que a intensidade de transformações e a velocidade das mudanças que vivi neste período eram únicas e tinham que estar registradas. Não que a velocidade não foi elevada, basta ver que às vezes certas mudanças não entram na cabeça das pessoas dos vinte e poucos de hoje.

Mas o que quero registrar aqui tem a ver com um outro texto que escrevi em 2008. É interessante escrever, registrar o que estou pensando. Ás vezes não consigo lembrar o que pensava a respeito de certos temas naquele tempo. Lembro de ter lido livros e não faço a menor idéia do que lá está escrito neles. Sei lá eu se por falta de treinar o assunto, ou se o assunto era chato, mas o fato é que simplesmente tirei da memória. O texto está separado na seção Diary of a Madman, chama-se Flying in a blue Dream.

O texto é um somatório de tantas situações e de tempos distintos, que fico aqui a pensar se alguém entendeu uma parte daquilo tudo ali escrito. Pois até os amigos de muito tempo não viveram todas aquelas situações ao meu lado. Tinha tanta gente naquele texto que só para falar delas daria para escrever mais umas quinze páginas.

Time Odyssey - Vinnie Moore (1988)
Quando estava fazendo a apresentação de Diary of a Madman, consegui me perder no texto, falando sobre Randy Rhoads. Depois dei uma pequena limpada e guardei o texto, por ter mais outras lembranças interessantes e muito provavelmente vou disponibilizar neste espaço. O fato que a apresentação ficou corrida e não coloquei de forma clara que o que nesta seção seria escrita, mais que tudo, opinião e lembranças. Era necessário ter mais material para fazer isso. E esta hora chegou. Sei lá de novo onde vai dar isso...

Numa aula da faculdade lembro de uma menina falando que não sabia desenhar. Ela perguntava por um curso de desenho que a ajudasse. O professor, no entanto, disse que aprender a desenhar só tinha um único caminho: desenhar. Desenhar para mim não é problema, mesmo que atualmente esteja muito menos treinado que nos anos de faculdade, porém escrever era algo que definitivamente não se faz muito numa faculdade de arquitetura. Este blog foi excelente na hora de soltar as palavras, assim como da mesma forma o programa “Expedições pelo Mundo da Cultura” a me fornecer material além dos escritos arquitetônicos. Nos anos de faculdade uns poucos professores sugeriram leitura de alguma outra coisa além da arquitetura, como O Mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, A Vida Digital, Nicholas Negroponte, e Carne e Pedra, de Richard Sennett.

O interessante é que nesses anos todos, do o curso técnico, do trabalho e da faculdade, existia tempo livre para escutar música, tocar e fazer mais um monte de outras coisas. Foi num desses momentos que descobri o livro de Domenico de Masi, O Ócio Criativo. Já escrevi sobre ele, não lembro em qual texto. Era interessante saber suas teorias para o tempo livre. Foi uma loucura de conceitos, mas a lição principal foi preencher os meus tempos livres com atividades interessantes.

Uma atitude foi além de escutar as músicas, prestar atenção às letras, desde a construção das rimas e os significados e contextos das frases (ou seriam versos?). No caso das músicas (finalmente falando do texto Flying... até agora era só introdução) elas estavam associadas a momentos. Imagine você na praia, dentro de casa, com uma chuva do lado de fora, comum no verão chuvoso e úmido brasileiro. O que fazer se não assistir TV ou escutar um música. Quando criança levava meus carrinhos. Depois a caixa de carrinhos deu lugar para uma de fitas K7. Mais tarde os cds começaram a me acompanhar, mas sempre com uma ressalva: tinha tanto cuidado que ficava furioso de ver um deles fora das devidas caixas. Estas situações acontecem ao se viver em sociedade...
High Tension Wires - Steve Morse (1989)
Até hoje fico com saudades de escutar as fitas K7 na praia. Hoje com DVD, MP3 e outras coisinhas, além da minha atual aversão ao sol, freqüento muito pouco este ambiente de praia. Isso é bom por um lado, porque tenho a sensação de eliminar a parte ruim. As chuvas parecem mais constantes nas minhas recordações; não lembro de ter um verão não chuvoso. Ler na praia era algo incompatível: areia e água não combinam com folhas de livros. Por fim, todas as aventuras “litorâneas” acabaram tendo uma trilha sonora. Lembro de um novo álbum, caso do guitarrista Vinnie Moore, Time Odyssey (1988) e outro do Steve Morse, High Tension Wires (1989). Dava para escutar a fita inteira repetidas vezes, captando vários detalhes das músicas. Mesmo sendo álbuns de música instrumental, perceber os detalhes das cadencias melódicas e os arranjos é algo emocionante. Diria que escutar estes discos complexos, repletos de informação, são elementos formadores para se entender música. E é impossível não fazer isso com tempo. Poderia estar assistindo a programas de televisão de domingo e lá estava eu escutando Morse. Era uma abstração, mas era muito mais legal que ver o Fausto Silva. O interessante era tocar depois. As melodias estavam na cabeça. De Masi conseguiu descobrir a diferença entre jogar o tempo fora e fazer dele algo impossível de ser “estudado”. Esta cultura não passa pelas academias. Mas essa característica é a mais gritante dentro delas. Como na abertura do livro, a frase de Arthur Rubistein: “Descansar? Descansar de quê? Eu, quando quero descansar, viajo e toco piano.”

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