Fico a pensar e não entendo...

Dentro do ambiente musical algo sempre chama muito a atenção: a veneração ao ídolo. Parece até comum falar nisso, mas me incomoda o fato de como são tratados os tais “fãs”. Em muitos casos como perfeitas aberrações da natureza. Como se fosse um escândalo fazer alguma loucura para ver o ídolo querido. Bem, até eu achei certo absurdo o que fizeram alguns para ver Madonna, no mês passado, tanto em São Paulo como Rio de Janeiro.

E é exatamente isso que fico a pensar e não entendo. Fazer uma loucura aos dezesseis anos, aos vinte, até mesmo aos trinta tem sempre aquele tom de recordações da juventude. Mas até agora não entendi a “filosofia” de Madonna, por exemplo, para empolgar tantas platéias ao redor do mundo. Já me falaram que é uma estratégia de marketing, que ela tem uma superprodução de show, que empolga com sua sensualidade no palco, entre outros mil atributos. Mas para mim não passa de uma cantora pop dos anos 1980. Não precisaria escrever mais para notar que não sou fã de sua música, mesmo gostando de um de seus discos, True Blue, de 1986. Eram naqueles anos que Madonna despontava e lembro de ouvir até que consideravelmente bem este LP... E gostar.

Não sei por que depois tive um completo desinteresse na sua arte. Após este LP seguiram-se vários, com vários momentos, inclusive com a vinda dela pela primeira vez ao Brasil em 1993. Nesta época se consolidava uma opinião a respeito de certos artistas pop, a que só vinham ao Brasil quando em completa decadência artística. Ainda em 1991, tentavam buscar uma substituta para Madonna, ou algo que se assemelhava tanto em sonoridade como também em beleza e sensualidade. Paula Abdul era uma das cotadas, assim como Janet Jackson e Cyndi Lauper. Como se vê nenhuma delas substituiu o mito Madonna. Um dia quem sabe vão parar de tentar achar “genérico” de artistas...

Mas saindo de Madonna para os fãs de Madonna, estes lotaram os estádios. Tudo bem que poderia haver uma quantidade de pessoas curiosas para assistir ao show, como um passa-tempo ou uma “baladinha”, mas o que lotou os estádios foram mesmo os fãs. Isso não se pode ter nenhuma dúvida. Como ela fez para ter fãs novos não faço idéia, pois não creio que o show foi de pessoas com quarenta anos, os que tinham vinte e poucos nos anos 1980, ou por adolescentes do início dos anos 1990, agora com trinta e poucos. Isso gera o mito. O que não entendo é fascínio que ela trás, com uma bagagem um tanto quanto vazia. Sensualidade e música pop (algumas de boa qualidade) não é nenhum mérito dela. Certas cantoras dos fins dos 1990 e início dos 2000, como Faith Hill e Shania Twain, tem muito mais a oferecer musicalmente do que Madonna. Claro, tirando o fato de que estas cantoras têm uma pitada muito mais country do que pop (meio eletrônico), mas que um show ao vivo delas é música verdadeira, de instrumentos e voz, não um espetáculo teatral. Talvez seja este espetáculo teatral o que esperam seus fãs.

Quanto à formação do mito, não vejo hoje novos ícones para empolgar a juventude. Por pior que possam ter sido aqueles anos 1990, ainda havia muito dos anos 1980 nacional, como Titãs, Paralamas, Engenheiros do Hawaii, Capital Inicial e Legião Urbana, e existia uma quantidade incontável de bandas de hard rock com seus discos ainda quentes e com grandes shows acontecendo. Num breve histórico sem muita profundidade colocaria a edição do Rock in Rio II, as edições do Hollywood Rock, os shows do Guns n`roses de 1992, o AC/DC de 1996 e as edições de Philips Monsters of Rock. Sem contar outros como Skol Rock, transmutado nos anos 2000 para Skol Beats.

As opções eram muito maiores de grandes eventos, com grandes nomes do momento, dando a impressão da opinião que emiti acima (...só vinham ao Brasil quando em completa decadência artística) para aqueles que não estavam em evidencia naquele momento. Hoje praticamente inexistem as grandes bandas novas. Logo show de bandas em atividade com grande histórico e fãs, claro, são os grandes eventos de show no Brasil. Nisso estão Ozzy Osbourne, Madonna, Elton John, Iron Madein e aqueles nacionais todos dos anos 1980, ainda em atividade, como Capital Inicial, Titãs e Paralamas.

E como a mídia não tem o dever da reflexão, resta a este blogueiro aqui tentar colocar no papel (num blog) alguma idéia a respeito disso. Onde estão os críticos culturais para explicar a inexistência de novas bandas e novos álbuns que mostrem a história da música pop dos anos 2000? É um sofrimento, já que vender discos não representa mais nada num mundo onde a mídia pode flutuar gratuitamente em milhares de iPods pelo mundo...

Ao final da biografia de Eric Clapton, ele toca neste assunto da indústria fonográfica. Ele afirma não fazer idéia de como serão as gravadoras que hoje atuam no mercado, mas tem certeza que tudo será completamente diferente do que é hoje. Suas palavras parecem proféticas... Uma coisa é indubitável: Clapton entende mais de música e de gravadoras do eu e muitos críticos juntos...

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