janeiro 31, 2009

Do Teatro

O teatro é das artes cênicas a mais complexa e mais simples ao mesmo tempo. Mais simples, pois é onde se deve começar a arte dramática, a interpretação, o humor. A mais complexa porque o tempo de resposta de seu espectador é quase simultâneo. Não há muito tempo entre a atuação e a resposta. No cinema o ator faz algo sem saber se está caminhando no sentido que queria e posteriormente as interpretações são múltiplas. Já no teatro é o momento. Não há tempo para convencimento, a cena tem de ser perfeita.

Muitos atores tendem a enaltecer o teatro como a maior de todas as artes dramáticas, e deve ser mesmo, mas ao mesmo tempo diminuem o valor do cinema e da televisão. O cinema então seria mais importante, maior, que a atuação na televisão. Muito disso é verdade, mas não pelo glamour, pelo status. Mas porque a resposta do consumidor (o espectador) que é diferente. Um filme passa durante algum tempo em exibição nas salas de cinema. O ator tem que estar preparado para aquele papel na filmagem, naquelas poucas horas de aparição, de representação. E quase é eternizado por aquelas poucas horas. O erro tem de ser o menor possível, aquele é um momento único, difícil de ser reproduzido. O teatro segue a mesma lógica, porém com um público muito menor. E um dia horrível numa temporada pode acabar com uma carreira, mas é bem mais raro do que a má interpretação num filme, que pode deixar o ator sem trabalho anos.

Mas o teatro no Brasil é algo controverso. As pessoas que consomem teatro querem textos realmente consagrados. As escolas de teatro cobram caro para ter alunos realmente interessados. Não entendo muito bem isso, eu acho que deveriam ter muitas escolas de teatro, muitas mesmo. E ser uma coisa quase como tocar violão. Mas não é. O teatro é ao mesmo tempo um status, uma “divisão” entre as pessoas. As “pessoas do teatro” e as outras. Pode ver pelas pessoas do cinema. Aqueles garotos que acham que uma câmera nas mãos é o ato supremo da evolução do ser humano. Nem eles são tão afetados quando as “pessoas do teatro”.

Veja a quantidade de gente que vai ao cinema e aluga filmes e compra DVD´s sobre cinema comparado as pessoas que compram ingressos do teatro. Não à toa existem muito mais salas de cinema que teatros. Outra vez volto a falar da difusão do teatro como algo a ser consumido. Eu particularmente quero muito assistir a montagem de peças de teatro grego, como Sófocles. No entanto não vejo nem nas escolas de teatro montagens dessas peças. Seria algo como “o teatro não é popular e se depender de nós não será nunca”. Eu acho ótimo ter em New York (não vou escrever nunca Nova Iorque...) uma avenida com inúmeros teatros, mesmo que decadente. Nem se compara a Praça Roosevelt, com seus poucos e mal feitos teatros.

O teatro também é uma arte bastante cara. Seria difícil manter abertos tantos teatros com a concorrência dos cinemas, muito mais baratos. Seria também uma questão de escala, mas porque mesmo os poucos teatros ainda assim ficam vazios? Certo que minha experiência em 2007, a ultima vez que fui ao teatro, vi um teatro lotado. Bem, hoje este teatro, um dos mais importantes de São Paulo, está fechado devido a um incêndio. A peça que vi era com Paulo Autran e uma texto de Molière. Não posso tirar disso uma regra. Mas o que posso dizer é que foi caro.

Sempre quando reclamo dos valores dos ingressos, desde o cinema, o teatro e os shows, me falam que é um valor “similar” ao que se gasta numa balada. Como também não saio de casa não posso concordar em pagar R$13,00 por uma caneca de chopp, por mais alemão que este seja, mesmo se eu fosse um milionário. Acho que a balada só mudará de foco quando se puder ter um espetáculo ligado a ela. Digo isso porque nunca fui ao cinema e só ao cinema. Era uma avalanche de coisas junto, desde barzinho, pizza, entre outras.

Dizer que a concorrência com a balada é desleal é talvez não entender que o teatro precisa é se expandir e não ficar no meio das “pessoas do teatro”. Quando uma banda faz shows quer ter público que a acompanha. E esse público não pode ser formado só por músicos de outras bandas, ou seja, pelas “pessoas das bandas”. (Que analogia barata, mas tão real...) Essa expansão não creio que venha a acontecer. As pessoas que fazem teatro são muito “estrelas” para fazer esta arte entrar no “mercado”, o da “indústria cultural”.

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