novembro 01, 2009

A chuva

A chuva caia sem trégua ao pedestre. Caminhava ele sem muita pressa, já úmido, parecendo sem destino. Procurava no vasto aglomerado de edifícios algo que fizesse sentido. Transitava olhando para cima e para baixo, num movimento sem sincronia, como num ritual. Procurava no vazio uma explicação para o que lhe acontecia. Parecia perdido, mas os caminhos em que transitava lhe eram familiares. Os conheceu num tempo passado. Um tempo que o sol ali brilhava radiante, sem perceber os rumos que aqueles dias moldariam em sua vida. Pensava em quantas vezes já havia pisado naquela calçada; em quantas vezes havia desviado daqueles canteiros de flores e árvores; em quantas vezes esperara para atravessar aquelas mesmas ruas; e em quantos carros já havia passado, estacionado e visto naqueles anos todos. Quantas pessoas cruzaram por ele nesses caminhos, transformando-se em meros desconhecidos para todo o sempre. Quando se pondera a eternidade se descobre que mesmo que sua memória fosse a mais genial, ainda não poderia lembrar-se de todas as pessoas comuns que cruzou por aquelas ruas. Mas, havia uma pessoa em que a esperança de voltar a ver o fazia se movimentar daquela forma sob a chuva.

Havia a encontrado anteriormente numa rua, noutra ocasião bastante diferente. Era um local comum e não mais o bairro em que transitaram juntos por todos aqueles anos. Foram poucos anos em que estiveram lado a lado numa diferença de horários em que o espaço físico daquelas arquiteturas ecléticas era a única testemunha. Uma testemunha muda de acontecimentos dos mais marcantes de inúmeras vidas e de inúmeras épocas. Mas sua vida naquele momento estava marcada pela chuva, que continuava a não lhe dar trégua. Seu caminhar já se tornava cansado e logo deveria desistir de conseguir este encontro forçado. A esperança deste encontro era maior que a possibilidade real de acontecer. Era de uma melancolia sem limites, numa mistura de sentimentos em que se avaliavam aqueles rumos moldados por aqueles dias radiantes e um futuro que havia ou não se concretizado. A dúvida era o preço da pureza, pois lhe era inútil ter certeza. A certeza que lhe poria fim na sua busca romântica de um encontro sob a chuva. Não encontrava respostas para entender aquele mundo onde parecia ter sido arremessado. Um mundo que tudo parecia fora do lugar. Corria ele em busca daqueles dias radiantes, debaixo da chuva, cada vez mais volumosa.

Em sua mente a imagem da musa inspiradora de vários e variados assuntos lembrava a lenda das sereias em seu canto apaixonante. O canto que embalava os marinheiros nas profundas águas oceânicas. As imagens de seus passos lado a lado naquelas ruas eram um desejo de extrema magnitude. Mas então resolve passar a pensar em seu estado geral lamentável, de suas roupas encharcadas, de sua barba por fazer e seu cansaço, cada vez mais aparente aos olhos mais destreinados. Foi então que a magia tomou conta de seus olhos. Sim, ela estava lá. Alguns poucos passos, também debaixo da chuva. Estava de botas negras, as mesmas daqueles tempos radiantes e toda molhada, numa tentativa sem sucesso de abrir a porta de seu carro; o mesmo daqueles dias radiantes. Foi então que tentou se aproximar. Mas seu cansaço ganhou e a avistou partindo numa rápida arrancada. Era hora de desistir. Não aconteceria outra vez mais naquele dia. Ela nunca saberia o quão perto estivera; nunca saberia de seu esforço; nunca saberia de seu desejo de encontrá-la. Tomou então o rumo de volta ao seu “esconderijo”, apelido dado ao seu pequeno cômodo alugado ainda naqueles tempos radiantes. A decoração permanecera intocada por todo o tempo que longe estiveram. Era a memória viva de um ritual de devoção a musa inspiradora dos melhores dias de sol pelos quais já havia passado.

De volta ao pequeno cômodo, recolheu a correspondência, menos úmida que sua roupa. No meio de todas aquelas contas atrasadas estava um pequeno envelope verde, sem remetente. Em seu interior um cartão com as seguintes palavras: “Estive por aqui, no intuito de recordas nossos bons tempos.”

Aquelas palavras foram a pior coisa que se poderia ler naquela hora. Tanto esforço para aquele encontro forçado sem qualquer perspectiva de êxito, enquanto a peça chave estava justamente a caminho do único local inalterado e testemunha viva daqueles dias radiantes. Num mesmo dia era sorte demais jogada fora. Agora o cansaço dominava o corpo úmido. Era aquela noite de chuva a pior de todas. Uma verdadeira tempestade, mesmo sem os raios e trovões. Era a vitoria da ansiedade sobre a paciência. Agora nada restava a não ser tentar estar melhor para um novo dia. Nenhuma outra possibilidade estava em questão. Nada naquele momento seria possível. Não havia nenhum número de telefone e mesmo se houvesse não teria como chamar. Estava com as mãos e os pés amarrados, rendido ao cansaço e à desesperança. Mais uma noite, em que a insônia o acompanharia. E a chuva não parava de derramar suas lagrimas cada vez mais geladas e densas. Amanhã seria outro dia. Um dia a menos na vida que poderiam juntos ter. E como era longa aquela noite...

Pela manhã percebe a porta a bater. Estava mais lamentável ainda, com as roupas úmidas e dores por todo o corpo. Fora difícil seu levantar. A porta batia mais desesperada. Cambaleando consegue atender, e, para sua surpresa, ela estava ali. Radiante. Extraordinária. E com os olhos apreensivos. Olhos vermelhos, como os de quem também havia repousado menos que o necessário. Aquele encontro era o mais inexplicável de todos os tempos e o silencio tomava conta da cena. O convite para a entrada fora feito e aceito. A porta se fecha e o sol passou a penetrar novamente o “esconderijo”. A chuva passou e levou junto os piores sentimentos. Tudo então volta à normalidade. Os carros nas ruas, as pessoas a circular pelas calçadas, as plantas e as flores a se multiplicarem e despertarem de seu descolorido, assim como o sol a brilhar. Quando repentinamente a porta se abre. Por ela vai-se embora a musa de seus sonhos mais inspiradores. A chuva volta então a cair. Uma garoa fina, restabelecendo a normalidade das águas. Mas agora existe a promessa que ela vai voltar. A chuva então nutre agora as flores e as árvores nas calçadas, mantendo-as como vivas testemunhas desses novos tempos antigos, que não voltam mais, assim como uma onda no mar, nada do que foi será igual ao que foi um dia... E que a chuva traga alívio para todos...
"Riders on the storm,
Riders on the storm,

into this house we're born,
into this world we're thrown
like a dog without a bone,
an actor out alone,
riders on the storm

There's a killer on the Road
His brain is squirming like a toad
Take a long Holiday
Let your children play
If you give this man a ride
Sweet family will die
Killer on the Road

Girl you gotta love your man
Girl you gotta love your man
Take him by the hand
Make him understand
The world on you depends
Or life will never end
Gotta love your man"

The Doors - Riders on the Storm - L.A. Woman (1971)

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