Sandy - Bourbon Street

Não vi e já gostei. Gostaria muito de ter visto a Sandy (agora parece ser ex- Sandy e Junior) se apresentar no Bourbon Street, em São Paulo, com seu repertório de Jazz, Bossa Nova e MPB. Diga-se de passagem MPB e não MPB do B (pequenas ironias). Segundo o folheto do Bourbon, “depois de duas apresentações ousadas e muito aplaudidas no projeto Credicard Vozes (...) chegou a vez de Sandy (...) voltar aos palcos com uma temporada de shows (...).”

Sandy sempre teve muita cobrança por parte dos “patrulheiros” da MPB do B, pelo fato de ser filha de um cantor popular, ser bonita e ser jovem (jovem demais para ter talento, sic). Além disso, ser um símbolo que representa família e costumes conservadores e, às vezes, politicamente corretos demais. O fato de não ter conteúdo ou este, digamos assim, ser incoerente com o patrulhamento, faz de Sandy um simples produto da mídia, na miopia da crítica de patrulheiros. Convenhamos que suas letras, as que ela mesma escreveu, não são lá nenhuma Brastemp. Sua voz é bonita, agradável. Talvez seja um pouco, como diz o jornalista Daniel Piza, uma das cantoras suaves que chama por descafeinadas. Lembrar que de Piza não falou em Sandy, eu falei, só utilizando o mesmo termo.

Vamos a um verso escrito por ela:

“(...) Passa o inverno, chega o verão
O calor aquece minha emoção
Não pelo clima da estação
Mas pelo fogo dessa paixão
Na primavera, calmaria
Tranqüilidade, uma quimera
Queria sempre essa alegria
Viver sonhando, quem me dera
No outono é sempre igual
As folhas caem no quintal
Só não cai o meu amor
Pois não tem jeito, é imortal (...)”

Realmente não é nada de mais. Mas soa bastante simpático, principalmente por sua música não ser dissociada da letra. Em suma, Sandy não é uma poetisa (só se for do verso torto, o que já a deixaria em situação muito melhor, mais competente ainda). Mas com sua música, nunca poderia ter trazido algo de mal, ou de ruim para alguém. Fala do Amor, de sentimentos. Tem até uma parte bastante interessante: “(...) Chega o verão / o calor aquece minha emoção / não pelo clima (...)/ mas pelo fogo da paixão (...)”. Onde a calor da paixão não se confunde com o calor do verão.
Se em sua música não agregou mais elementos, talvez seja essa a hora. Veja, aqui também cabe uma colocação: é a escola que deve ensinar e os pais educar, não a TV e nem muito menos as cantoras. Busca por ritmos de moda nem sempre é agradável. Interpretando jazz e mergulhando na MPB com certeza encontrará águas cristalinas para beber. Se ela não gostasse realmente de jazz e MPB, não estaria cantando, creio eu. Isso não me parece “golpe de marketing”, pois dinheiro e fama parecem não ser mais objetivos dela.Vamos ver o fruto desse processo, perceber os caminhos pelos quais irá optar. Já em 2002, durante o Rock in Rio III, ficou nítido que ela e Junior eram mais competentes a, por exemplo, Britney Spears. Talvez se Sandy cantasse em inglês pudesse bater de frente com essas “cantoras enlatadas”. Disso não tenho dúvidas, porém sou o último a incentivá-la a trocar o português.

O que me deixa inseguro são esses produtores. Deixar ela começar cantando, tranquilamente e aos poucos deixa-la encontrar seus próprios caminhos para mim é o ideal. Mas ao que parece não é assim. Tudo que ela faz é transmitido quase instantaneamente como processo concluído. Assim fica difícil de separar o joio do trigo.

A confusão e a esperança são dois aspectos que pesam sobre a carreira de Sandy. A confusão de saber se é um produto da mídia ou se realmente pode experimentar. Ser ela por ela mesma a exemplo de Ivete Sangalo, que sobe no trio elétrico e canta sem dar maiores satisfações a critica, somente pensando em seu público, em fazer a festa acontecer. É a satisfação por competência. Sandy não tem certeza de seu público. Não sabe se faz música para adolescente, infanto-juvenil ou se agrada aos adultos.Certa parte da crítica aposta nela como esperança da música brasileira se renovar. Ou simplesmente não aposta. Basta ela saber lidar com isso e buscar fazer aquilo com o melhor de si.
São nítidos em Sandy os muitos fragmentos dos quais somos formados, as nossas contradições, nossas dúvidas. Diferente de Roberto Carlos, Sandy pode fazer tudo errado e sempre começar de novo. A partir do momento em que não tem mais a carga de fãs esperando aquele trabalho marcado da dupla Sandy & Junior, que deveria ditar a moda e ser a vanguarda infanto-juvenil, Sandy se abre à diversidade e ao mesmo tempo a críticas por aqueles que esperavam continuísmo. Ao mesmo tempo corre o risco de ter seu público reduzido e específico, assim como a banda Los Hermanos, que após o sucesso de “Ana Júlia” mantém público fiel ao trabalho da banda e não mais aos hits e nem a blocos de “bandas de atitude”. Conforme um disco deles se intitula, são “o bloco do eu sozinho”.

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