maio 09, 2009

Simone Carvalho

Falei a pouco sobre o filme O Gosto do Pecado. Num breve resumo, é um filme de Cláudio Cunha, onde conta a história de um advogado que acaba de se divorciar, não compreendendo muito bem este momento, se envolve em inúmeras tramas amorosas, num exagero de cenas, beirando a pornografia, ou (em linguagem de quem tenta salvar o filme) um gênero erótico. A secretária acaba por desenvolver uma paixão pelo advogado, assim criando um ciclo, onde de um lado havia a vida cotidiana, de uma jovem com seu noivo, ao gosto da mãe, que se envolve com um homem casado (divorciado), entrando num novo ambiente, ao qual não está acostumada. Mostra toda uma trama de eventos onde existe certo choque de classes sociais, choque de valores e muita hipocrisia, em função dos bons costumes tradicionais. Atentava a mostrar o final de um tempo e uma nova maneira da relação entre pais, filhos e ex-mulher, ex-marido.

E a secretária, interpretada pela atriz Simone Carvalho, desempenhava ali um novo começo, em que tudo era diferente, tudo parecia uma história de amor, para ela. Enquanto o advogado, interpretado pelo ator Jardel Mello, tinha maior interesse em retornar o casamento e mantinha, além da secretária, outras “emoções” eróticas.

Mas a beleza, um tanto sem aquele apelo hoje comum de mulher objeto, mas de uma simplicidade com certo acanhamento, e uma aparência meio menina meio moça, a personagem de Simone Carvalho, à época com vinte anos de idade, é uma contradição à tonalidade banal do filme. Era como uma princesa, um diamante a ser lapidado. Porém, o que ocorre na trama não são as flores que ela imaginava e nem a falta de coragem canalha do advogado. Um filme que peca pelo exagero de cenas eróticas desnecessárias, desenvolvendo pouco certas tramas e períodos, além de oscilar o foco entre o advogado e a secretária, não construindo nem para um e nem para outro uma atmosfera de angústia ou sonho. Isso fica meio implícito nos poucos detalhes em narrações esporádicas.

Um filme que poderia ir muito mais longe ficou pela metade. Certa vez, há muitos anos, assisti a um filme no Eurochannel que caminhava com narrativas semelhantes, onde havia sexo homossexual, drogas, assassinatos, e nada disso com a exposição desse filme de Cláudio Cunha. Incomoda esse exagero. Se fosse uma crônica dos apelos sexuais do advogado, o resultado deixou a desejar, e a bela Simone Carvalho roubou a cena.

Claudio Cunha, depois de breve pesquisa, soube ter sido marido de Simone Carvalho, e ela chegou a ser nos anos 1980 uma atriz de bastante projeção. Hoje ela faz um trabalho junto a uma igreja evangélica e esta longe dos holofotes da mídia. Não tenho lembranças de nenhum papel da televisão, mesmo sabendo que trabalhou na Rede Globo, na telenovela Tieta (1989), e depois na Rede Manchete, na telenovela Tocaia Grande (1995), e sua conversão evangélica foi em 1997.

Noutra breve pesquisa, descobri que Simone poderia ter sido vítima de preconceito por ter participado dos filmes cujo gênero ficou conhecido como “Boca do Lixo”- uma das derivações da chamada Pornochanchada, onde inclusive, Claudio Cunha era um dos diretores mais famosos desse período. Mas isso não me impede de achar que o filme poderia ser muito melhor e que Simone Carvalho é uma atriz incrível, que poderia ter ido mais longe.
Agora, por que fiquei tão impressionado com o filme, que me fez buscar sobre a atriz, a época e a produção cinematográfica do período? Não sei a resposta, mas estaria entre o que até hoje ainda causa desconforto mesmo passados quase trinta anos – as cenas exageradas de apelo sexual – e o bom roteiro que trazia uma história rica em termos sociológicos. É um marco histórico ali narrado: o início das famílias constituídas de pais separados e o recomeço da vida após o fim de um casamento desgastado. Um marco do que estava por trás. Algo que só pode ser analisado com o passar do tempo. Aquilo era muito novo para ser entendido e saber todos os desdobramentos daquela nova forma. Aí, acho eu, reside um pouco da minha resposta.

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