Na minha infância...

A melhor coisa de se lembrar da infância é ver que até hoje a levamos conosco. Algumas questões parecem se repetir com as sobrinhas e primos, bem mais novos. O que acho mais interessante é a criatividade fora dos padrões. Se me lembro bem, em 1997, li “A Vida Digital”, de Nicholas Negroponte, onde em determinado momento, falava sobre a formação de paradigmas, com uma analogia muito interessante. Imagine vendo alguém flutuar na sua cozinha enquanto toma café, para você seria espantoso, chocante talvez, mas para uma criança aquilo faria até sentido, dentro de seu universo ainda não enriquecido de conceitos e verdades (ou quando este adulto empobrecido de imaginação).

Imagine eu comentando uma frase (que achei de uma imaginação fantástica) e uma amiga da minha sobrinha me perguntou se era verdadeira. A frase sem sentido era algo assim: Furou seu pescoço com uma furadeira e depois bebeu seu sangue com canudinho. Esse universo que as crianças criam é realmente fantástico. Mas o melhor é lembrar dele e não ficar nele eternamente ou como a moda atual onde se infantilizam vários temas.

Essa discussão nasceu tempo atrás no blog do Daniel Piza, quando ele comentou o filme “Muito Gelo e Dois Dedos d´Água”. Seu comentário era que o filme relembra a adolescência dos 80. Em suas palavras: “O filme "Muito Gelo e Dois Dedos d'Água", de Daniel Filho, com roteiro do casal Alexandre Machado e Fernanda Young, começa com um humor negro interessante, raro na comédia brasileira, e tem algumas cenas muito engraçadas, como a da maconha dentro do carro. Mas a partir daí tudo se dilui em piadas adolescentes - ou de quem o foi nos anos 80 - e se encaminha para o final edificante de telefilmes, em que a garota supostamente moderna e "descolada" se revela tão careta quanto moçoilas dos anos 40. É um fenômeno bem atual, esse: por baixo de piercings e tatuagens se encontra uma mente travada e preconceituosa.” Que, analisando bem, realmente faz sentido. O que não faz sentido é ficar nessa recordação de anos 80 eternamente.

Mas voltando a minha infância, do final dos 70 e inícios dos 80, onde nasceram certos gostos, e havia certo clima. Até já comentei em alguns textos (aqui e aqui). Mas ali também nascia outro hábito: a leitura. Lia um monte de coisas, menos o que era obrigado pela escola. Pode até parecer piada, mas era exatamente assim. Lia e dizia que queria ser escritor. Lembrei disso hoje, quando falei que em algum momento errei na escolha da carreira e deveria ser publicitário. Afinal publicitários não fazem projetos executivos. Não locam pilares e não se preocupam com os tubulões. Vivem de Estudos Preliminares.

Se eu fosse escritor, escreveria sobre qualquer coisa, menos bula de remédio (essa tem assinatura: Mário Prata) e manual de usuário. Esses eu já escrevi e são todos sempre iguais. Mudam uns botões e umas rotinas, mas de resto, tudo igual. Lembrei que já escrevi também manuais de identidade visual. Escrevi também trabalhos monográficos. Um deles esta até no meu certificado de conclusão: “A Arquitetura e o Espaço Coletivo”. E em breve estarei escrevendo uma Dissertação. De certa forma, algo da minha infância permanece em mim, além de detestar suco de maracujá. História essa que mereceria até um off topic.

Eu realmente não lembro dessa história, mas meu pai conta que uma vez, logo que entrei na Escola Luís de Camões, em 1981 (isso eu lembro), voltei um dia da escola e disse que não tinha nada para beber lá. Só um suco horrível de maracujá. Segundo meu pai, eu deveria achar que era suco de laranja e ao me decepcionar com o gosto horrível do maracujá, traumatizei. Ainda bem que meu pai é advogado e não psicólogo.

Comentários

João Batista disse…
Rsrs...É, publicitário é o funcionário público da empresa privada.

Todavia, não que eu mesmo tenha resolvido essa questão, mas não existe muito homenzarrão andando por aí que apesar da aparência externa ainda são (ou voltaram a ser?) crianças por dentro? Claro que tem corpo de adulto, ao menos. Mas são a gente infantil que implica com picuinhas pueris e não debate como adultos, mas exatamente como se crianças fossem.

Essa modernidade que se quer velha é imatura para lidar mesmo com sua própria infância, ainda mais com a infância de todos os tempos, mas que é justamente o que pretende, justamente por infantilidade.

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