Sobre cultura pop

Eu tive uma namorada que não conseguia entender direito esse negocio de cultura pop. Para ela, o que valia era algo entre o erudito e “papo cabeça”. Ela se impressionava com o universo pop que apresentei a ela, nos nossos incríveis seis meses de namoro. Seis meses praticamente sem ver os amigos. Mas para que amigos quando se estuda num local onde “o pecado mora ao lado”. Não daria para durar mais do que isso, mesmo. Principalmente naquele meu momento pessoal. Volto nisso logo mais.

Bem, mas o que mais intrigava ela e até então eu nunca tinha pensado a respeito, era a relação do consumo com a cultura. E uma cultura sub pop. Logicamente uma cultura do underground. Se é underground não pode ser pop, certo? Até existiu, (ou existe) uma gravadora que se chamava Sub Pop. Porém, o que existe era uma cultura onde iniciados acabam conhecendo bem algumas bandas, e, como estas acabam sendo as primeiras dos novos iniciados, se tem a impressão de que aquilo é pop. É estranha essa relação, ainda mais colocando a questão do consumo no meio disso. E mais estranha ainda que se exista realmente legiões de fãs para bandas que nunca tocaram nos rádios. Isso é um fenômeno, normalmente identificado por “tribo”. Os “rotuladores” normalmente esquecem que eles também fazem parte disso, mesmo que eles não saibam. Pois se existe algo pop, logicamente existe algo erudito e algo underground. Essa nova parcela é que é nova demais para os padrões pré-estabelecidos. Pois antes só existia o erudito e o popular. Então, logo se rotulou o underground de uma das frações do popular, não importando o que de cultural ali poderia estar sendo discutido e produzido. Logicamente que a grande maioria das bandas esta ligada a cultura popular, mas aquelas que buscam por um caminho dentro dos temas da alta cultura, não podem ser simplesmente colocadas como popular.

Um exemplo disso esta, de traço equivocado, é o Doors. Seu nome foi inspirado num dos livros de Aldous Huxley – “The Doors of Perception” – mas o enredo do livro foi equivocado. Era exatamente o contrário do que pregou a banda. Diga-se, Aldous Huxley sempre fez esse tipo de armadilha, vide seu livro “A Ilha”. Mas, em compensação, temos algumas músicas maravilhosas como “Alexander The Great” do Iron Maiden. Muitas bandas, além de tocar em temas ligados a mitologia grega, também já fizeram discos temáticos inteiros como o de Rick Wakeman, “Myths & Legends Of King Arthur & The Knights Of The Round Table”, ou mesmo bandas nórdicas que relembram a lenda de Valhalla. Se isso é cultura popular, é uma cultura popular que atravessa os séculos e que nada tem a ver com a cultura popular atual. Assim como, da mesma forma, músicas como “Olhos Negros” do folclore russo (não sei escrever nos caracteres russos, então vai traduzido) são hoje temas mais ligados aos descendentes desses imigrantes do que cultura popular, propriamente dita. Isso sim, poderia se chamar de fração da cultura popular.

Mas voltando ao meu momento pessoal, durante aquele namoro, passava por verdadeiros momentos mágicos em relação à música. Tinha descoberto novas bandas, do hoje rotulado “metal melódico”, e estava empolgado em descobri-las. A internet possibilitava isso a um custo próximo de zero. Foi nesse momento que conheci Nightwish e Lacuna Coil, por exemplo. Além de mostrar a ela o quanto eu gosto de Malmsteen. Onde ela identificou maior influência erudita. O fato que ela não conseguia distinguir a tal MPB, da Música Popular Brasileira. Onde esta a divisão entre Milton Nascimento e Ivete Sangalo. Ela entendia o meu lado de respeitar, e muito, todos aqueles medalhões da nossa MPB, mas, com suas palavras, não via meus olhos brilharem com aquilo. Mas nos seus momentos de fúria, dizia que aquilo é uma cultura comprada na Megastore.

O mesmo acontece com a televisão. Eu vejo gente falando cobras e lagartos da televisão aberta. Muito do que falam não faço a menor idéia do que se trata. Realmente não assisti. E isso porque me defino uma pessoa que gosta de televisão. Ou seja, voltando aos meus primeiros textos nesse blog, continuo não entendendo o que tem de tão errado na televisão que não possa ser evitado, para tamanha importância dada por Arnaldo Antunes nesses anos todos. É tão simples: se não gosta de televisão não veja, mas não fale daquilo que não viu. Assim como nunca fiz uma postagem falando de Paulo Coelho, pois não posso falar daquilo que não li, não poderia falar da televisão se não soubesse o que passa nela, assistindo. Não é uma questão de não ter opinião sobre o assunto, mas simplesmente de não tratar de aspectos dos quais não se tenha observado. Por exemplo, por que nunca li Paulo Coelho? Alguns de seus livros já me chamaram a atenção, como “11 minutos”, mas não tive oportunidade e nem tanta vontade de ler, não passou de mera curiosidade. Mas poderia dizer que isso se deve ao fato de ser Paulo Coelho, ou seja, seu livro foi discutido e amplamente divulgado. Assim, da mesma forma, alguém pode ouvir uma banda muito inferior em qualidade musical simplesmente por não ter sequer ouvido falar nela.

Em dezembro, durante encontro com Arnaldo Jabor, pelo lançamento de sua caixa de DVD´s, se discutiu um pouco sobre esse aspecto da indústria cultural. Suas palavras foram mais ou menos estas: Nem tudo que esta na prateleira das lojas de livros tem igual valor. Minhas perguntas a ele ficaram restritas aos aspectos do cinema nacional e a Petrobrás: Se a Petrobrás for privatizada hoje, acaba o cinema nacional? Em sua resposta contou sobre Ipojuca Pontes e o fim da Embrafilmes, que hoje vê com certo aspecto positivo. Também tratamos de comentar sobre o livro de Ipojuca Pontes, aos quais fez elogios. Ou seja, não se pode falar de algo, mesmo que aquilo o tenha prejudicado, sem tomar corpo do contexto ao qual se esta inserido. É basicamente a questão dos iniciados e não iniciados. Isso parece não ter mais fim.

Comentários

Postagens mais visitadas