Depoimento de uma geração

Dois livros importantes na bibliografia da teoria da arquitetura são “Morte e Vida de Grandes Cidades”, de Jane Jacobs e “Depoimento de uma geração” de Alberto Xavier. Um, aparentemente, nada tem a ver com o outro. Já que um trata de encontrar caminhos para o que aconteceu nas cidades, o outro é uma coletânea de textos de vários autores diferentes sobre um mesmo período da arquitetura moderna brasileira. Vamos deixar “Morte e Vida...” um instante de lado e tratar de falar um pouco sobre o livro de Alberto Xavier.

Lançado originalmente em 1987, a edição que tenho é a de 2002, ampliada. O livro trata desde os primeiros textos sobre o modernismo no Brasil, e a arquitetura moderna brasileira. É um compendio de textos de vários autores, desde o começo do século XX. Neles se encontram textos de Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Artigas, Rino Levi. São textos que seriam difíceis de se reunir, se não fosse o livro, pois, muitos deles, são de jornais e revistas que não mais existem. É realmente uma obra importantíssima para pesquisa e referencia como base teórica. Mas, como não podia deixar de ser eu a achar que ainda poderiam ter alguns textos a mais, como “A Cidade do Homem Nu” de Flávio de Carvalho. Se não me engano no livro há dois ensaios dele. Eu gosto bastante da obra de Flávio de Carvalho, então sempre vou achar que falta um pouco mais dele em tudo. Para ler mais sobre Flávio de Carvalho clique aqui.

Mas o importante não é exatamente o livro em si. Esse livro, digamos, faz um terço do trabalho. Trata de forma importante o modernismo e consegue fazer do modernismo a base teórica para se pensar na crítica do modernismo. Vamos tentar interpretar isso e voltar no tempo em 1987. Nos anos 1980 já se pensava na arquitetura depois do movimento moderno. Alguns livros monográficos já sinalizavam novos rumos na arquitetura. Mas a crítica estava um tanto quanto morna e a reflexão sobre isso ainda engatinhava. Vale lembrar que no exterior já a muito essa crítica existia. Só lembrando do Centro Georges Pompidou, já tinha mais de uma década em 1987. O Instituto do Mundo Árabe era uma obra recém inaugurada. Claro que isso é fácil de falar hoje, onde a informação é rápida e abundante (no ocidente, claro). Livros são publicados, a internet facilita muito o acesso a imagens, fotografia digital. Até me arrisco a dizer que visitar os locais se tornou um pouco mais acessível, ao que era na década de 1980.

Mas vamos ao por que o livro só faz um terço do trabalho. O que vinha antes dele, tudo aquilo que a arquitetura moderna contestava, os textos de Christiano Stockler das Neves, a obra de Ramos de Azevedo e a cidade construída, segundo Benedito Lima de Toledo, de tijolos. Certo que hoje já dispomos de material publicado desta época e de épocas anteriores, como o livro de Benedito Lima de Toledo, “São Paulo: Três Cidades em Um Século”, republicado recentemente. E alguns outros autores como Carlos Lemos, que escreveu um livro sobre Ramos de Azevedo. Mas não temos uma, digamos, enciclopédia, que seja fonte de consulta para esta arquitetura. Não temos digamos assim, o livro que seria a base para alguns argumentos defendidos em “Depoimento...”.

Um detalhe que sou obrigado a colocar é que o movimento moderno tentou mudar a face das cidades, tomando São Paulo como exemplo, mas não conseguiu apagar a cidade anterior construída. Não só o modernismo tentou isso, como também a cidade de tijolos, a cidade de 1890 a 1930, tratada também no livro “O Prelúdio da Metrópole”, de Hugo Segawa, tentou fazer isso com a cidade de taipa. Assim como existiram planos de se demolir três quartos de Paris, para a reconstrução da cidade.

Após este período da reconstrução, houve a reflexão se esta construção foi benéfica ou não, onde se perdeu as qualidades da cidade antiga, inclusive existe um texto, um pouco heterodoxo, de Christian de Portzamparc, chamado “A Terceira Era da Cidade”, ou algo parecido, publicado em número especial da revista Óculum. Dentro destes textos de reflexão sobre o modernismo, poderia incluir como um marco, o livro da jornalista Jane Jacobs, “Morte e Vida de Grandes Cidades”. No original é The Death and Life og Great American Cities. Na tradução para o português foi excluído o fato de ser uma crítica sobre as cidades americanas, pois, de certa forma são críticas universais. Lembrando que o livro foi escrito em 1961. Ou seja, a terceira parte desse trabalho trataria de mostrar as criticas ao modernismo e os novos rumos da arquitetura. Principalmente no Brasil. Qual o rumo da arquitetura brasileira nos últimos 20 anos? Se formos buscar no micro universo da cidade de São Paulo, temos dois momentos no passado de uma arquitetura reconhecidamente paulista. Foi a arquitetura bandeirista e o modernismo da chamada “Escola Paulista”.

Uma parte do trabalho esta disponível, outra em andamento e esta terceira? Nos livros que abordam esse tema, temos ainda a presença muito forte de arquitetos modernos, ou ligados a esse movimento, e um distanciamento da produção geral da arquitetura nas cidades. Bem, o que tenho a dizer que existe um longo trabalho pela frente. Mas, mais do que isso, o trabalho de se produzir arquitetura de fôlego, já que eu não sou simplesmente um crítico e faço parte dos entes realizadores (dos legalmente capacitados para tal obra).
Acho que este texto ainda pode ir mais longe...

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