Cenas do cotidiano II – Falta de tempo

O que mais escuto são as pessoas reclamarem da falta de tempo para fazer as coisas. Tento sempre controlar minha fúria a respeito dessa falta de tempo e tentar discorrer pelas causas da falta de tempo. Uma coisa é falar que o trabalho toma muito tempo. No meu trabalho, onde a criatividade é um dos maiores valores, o tempo é sempre uma questão relativa. Em algumas situações, algo genial se faz com rapidez e às vezes algo muito estúpido toma dias sem soluções agradáveis. Em muitos momentos vejo que as teorias do sociólogo italiano Domenico de Masi, contidas em seu livro “O Ócio Criativo” são de enorme valor para compreender esse fenômeno da criatividade.

Da mesma forma, quando não estou mais no escritório, o trabalho continua rondando a mente. O acúmulo de informação é base essencial para solucionar questões técnicas relativas ao trabalho e adequação dentro das estéticas utilizadas. Isso transmite uma sensação de prazer, que ultrapassa os limites do profissional e do pessoal. Essa sensação transpira para todas as situações do cotidiano. Os detalhes de como é decorado certo restaurante e quais acabamentos foram utilizados nos banheiros, assim como também aqueles detalhes da rampa da garagem do edifício, das aberturas do respiro das garagens e até mesmo do desenho das vagas são captados por causa da minha profissão diferentemente de um leigo.
Onde arrumo tempo para atualizar meus, vamos chamar assim, arquivos? Em todas as horas livres, oras. Até sou tolerante com as pessoas que justamente dizem não ter tempo pelo stress diário a que são submetidas, tendo que ler e responder mais de 100 e-mails por dia. Mas se suas jornadas de trabalhos não passam de 12 horas diárias (bom ver a reportagem de Veja São Paulo, de maio de 2007, sobre alguns arquitetos que estão a mudar as fachadas de São Paulo, onde a maioria diz trabalhar mais que 12 horas diárias, alguns até conectados 24 horas por seus telefones), sobra ai certo tempinho ocioso. Como diz de Masi, falta administração do tempo ocioso também. Uma coisa é certa: a pessoa que não usa seu tempo livre para ampliar seus horizontes, fecha os atuais. Não existe nada que não passe por ciclos e estes não são exatamente de fácil assimilação. Além de seu repertório não aumentar, os novos ciclos às vezes trazem inversão dos valores até então aprendidos. Em suma, a falta de tempo de hoje pode ser sua catástrofe anunciada num futuro próximo. Vale lembrar nesse final de texto, que a divisão feita por René Descartes entre corpo e mente, pode não ser a coisa mais perfeita. Vale talvez lembrar dos filósofos gregos, onde se dividia entre corpo, mente e alma, um pouco mais acertada. E nada de esotérico nisso. Nada de religioso. Basta entender a diferença de cultura e inteligência.

Comentários

Claudia disse…
Tombou Paris nesse texto, ludo.. vc escreve bem e sempre coloca idéias criativas no blog.

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