Quase tudo quase sempre é quase nada...

De que adianta ser o primeiro se do primeiro ao septuagésimo quinto formarão a mesma turma? Claro que é bom, mas não serve efetivamente para muita coisa. O melhor mesmo é ser o setuagésimo sétimo. Com a desistência de duas pessoas a mesma oportunidade do primeiro também será sua. Não sei por que os limites sempre geram confusão. Imagine só estourar o cheque especial em quatro Reais. Como se fosse só os quatro que contaram... Parece como certa vez um professor reprovou uma aluna por 0,5 pontos. E ele falou que não era por 0,5 e sim por 5,5 ao termino da reclamação da aluna. Faz sentido. O que não faz sentido é que se existe um limite ele deve ser levado ao máximo. Uma outra vez um diretor financeiro falou que se a conta corrente da empresa esta negativa ou positiva, qualquer número diferente de zero, cabeças rolam. Imagine só então aqueles que me dizem que não conseguem ter cartão de crédito. Seriam cabeças roladas na certa se trabalhassem no setor financeiro. Uma simples continha de cartão, um limite, um prazo. Tudo na verdade é muito mais profundo que isso. Claro que falo de limites físicos, não emocionais. O pior é culpar uma sociedade por deixar as pessoas terem limites. Ela sempre é culpada: se não lhe dá o limite é reacionária, elitista, discriminadora. Se o limite é dado é para te fazer o mal, para te transformar num consumista, num comandado pelo sistema, num escravo do capitalismo.

Ao fazer um vestibular não se propõe a entrada dos melhores, mas aqueles que atingiram o limite mínimo dentro o máximo possível segundo uma faixa determinada. Traduzindo, dentro de um universo de 100% de acerto, os que acertaram um mínimo para não desclassificação, dentre estes os mais pontuados para completar a quantidade de vagas. Por isso o vestibular para medicina é muito mais difícil que o de publicidade, cujo número de candidatos por vaga é maior. Pois, sendo o estudante de medicina os que mais acertam, os limites de erro diminuem, tornando mais difícil a entrada.

Tudo parece tão fácil olhando assim, mas a única coisa que nunca muda está na lógica de que quem acerta mais sempre estará dentro do limite e quem erra estará fora. Logo quem erra ao gastar mal seu limite tende a ficar numa situação pior a aquele que não errou ao gastar, ou simplesmente não gastou. Por isso sempre existirá certo e errado. A idéia de quebrar certa lógica cria um mundo às avessas. Um mundo em que não se têm limites. Ao ler “Admirável Mundo Novo”, escrito por Aldous Huxley em 1931, podemos ver alguns desses exemplos de como seria um mundo sobre uma óptica em que os limites poderiam ser trocados e como a lógica deles também funcionam se observadas e seguidos os preceitos daquela nova era. O interessante é ler depois o restante da bibliografia de Huxley, como “A Ilha” ou “As Portas da Percepção”. È difícil dizer quem era Huxley, mas uma coisa fica parecendo: um filósofo que escrevia romance.

Nota de rodapé

“(...) Nas grandes cidades de um país tão violento
Os muros e as grades nos protegem de quase tudo
Mas o quase tudo quase sempre é quase nada
E nada nos protege de uma vida sem sentido (...)”

Muros e Grades – Engenheiros do Hawaii (1991)

Você achou que em algum lugar eu não citaria Engenheiros? Um dia explico o porquê das citações deles. No dia que tiver a certeza de outra questão. Mais um texto está a caminho... Amanhã talvez. E este vai tocar na questão desta minha dúvida.

Comentários

João Batista disse…
Cresce em mim diariamente a suspeita de que uma faculdade de administração é tão importante pelos contatos que oferece quanto pelo curso em si. Seria por isso que uma prima que fez administração na FMU e MBA sei lá onde pula de um empreguinho mixuruca a outro, e uma outra prima que fez no IBMEC já atingiu o nível de diretora de uma grande empresa? Quando digo que pretendo fazer administração todos me perguntam qual é o negocio da família, se não conheço alguém na família com um negocio, etc. O assunto morre no ato ao ouvirem um não. Mesmo que todas as minhas poucas ofertas de emprego até hoje tenham vindo de familiares empregados, mas não de um negocio familiar. Qual é? Seria tudo uma farsa então? Um jogo de cartas marcadas? Qual o motivo do silêncio? Ao menos tenham a gentileza de me avisar da minha desgraça iminente, ao invés de deixar a coisa suspensa no ar para que eu fique adivinhando. Nesse sentido, ser o primeiro poderia ter algum valor, atrair alguma atenção momentaneamente ao menos.

Conheço dois sujeitos que pularam de curso em curso, três vezes, até, tomara, terem se encontrado (ou, quem sabe, se cansado de tanto pular). Um amigo optou por outro curso por motivos estritamente financeiros, já que não é nem sério nem dedicado intelectualmente, é apenas mais um impostor dentre tantos. Aliás, quase todos os meus amigos se encaixam nesta segunda categoria: ou estão buscando apenas sustentar o padrão de vida já alcançado por seus pais, ou subir de padrão, a área específica importando apenas na medida em que seja tolerável o suficiente para prosseguir até a conclusão do curso. Há uma exceção, justamente na faculdade de filosofia, mas um diploma de filosofia não serve para nada que esteja além dos limites dos muros da própria faculdade, a não ser que você se filie ao PT, e lá vem a importância dos contatos novamente.

Contatos, que chatice! O melhor contato fora do meu leque de amizades que já mantive foi com um parceiro de negócios. Obviamente, nossos interesses convergiam fortemente. Já tentei expandir a rede dos interessados em filosofia, mas é inútil. Obtenho mais sucesso através da internet, e com pessoas de países distantes, do que com sujeitos de carne e osso aqui do meu lado. Estou a um passo de desistir de vocês, brasileiros (já me excluo, rsrs, só não rasgo meus documentos para não ir preso!), e de me contentar com um grupo virtual. Afinal, a internet não está aí por coincidência, certo? Num mundo burro demais para aproveitar as oportunidades que estão ao seu alcance, logo ao lado, resta unir os poucos interessados espalhados por grandes distancias.

Acho que me desviei do assunto levemente.

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