Esquerda, direita e direita, esquerda?

“(...) Críticos de arte
Arte pela arte
Pink Floyd sem Roger Waters
WELCOME TO THE MACHINE
Forma sem função
Fascistas de direita
Fascistas de esquerda
Empresas sem fins lucrativos
Empresas que lucram demais
Todo dia a gente inventa e fantasia
A gente tenta todo dia
Feito cegos
Egos em agonia (...)”


Tribos e Tribunais – Engenheiros do Hawaii (1988)

Nos últimos tempos ando escutando novamente aqueles chavões conhecidos como direita e esquerda. O que acho mais estranho disso tudo é que a negação da existência de uma direita e uma esquerda é a falta de visão de um mundo. Explicando melhor, a direita e a esquerda não deixaram de existir com o a queda do muro ou a dissolução da União Soviética. Ou melhor, aí que entra certo problema de ordem estritamente conceitual. O que é esquerda é muito óbvio, mas o que seria direita? Em suma, com o término de algumas ditaduras de esquerda, o pensamento de esquerda, que é um pensamento rígido igualitário, um sistema onde todos são iguais, porém uns mais iguais que os outros, onde existe a presença forte de um estado totalitário e um partido único, onde os opositores são exterminados, como se viu na URSS ou mesmo em Cuba, continua existindo. Também ditaduras de esquerda continuam a existir como Cuba e China.

O que seria a direita então? Todo o resto? É claro que quando entramos nesse tema político no Brasil o que se escutam são aberrações de todo tipo, tanto da esquerda como da direita. A falta de cultura para tal que é tão grande que as pessoas ao falar de uma outra coisa acabam sempre deixando o tema como se fosse capitalismo x socialismo, como se no mundo não existem outras formas de representação, ou mais ainda, tentando dar um dos dois lados para encaixar o resto. Centro então, é algo pintado como uma esquerda light ou uma direita envergonhada. Falar sobre liberalismo é como se insistisse em algo que esta num ou noutro lado, ou os que se acham entendidos tentam falar do neoliberalismo, como se tivesse alguma coisa a ver.

O pior que a falta de capacidade de debate e falta de visão da realidade em que se encontra o Brasil é tão grande que ao se perguntar qual o “lado” dos governos islâmicos a cara de ponto de interrogação chega a ser mais engraçada que a de Mr. Bean e logo depois começam criticas ao George Bush. Isso por que o homem ano que vem vai embora para seu rancho no Texas e a guerra de mais de sessenta anos continuará. Os que tentam debater este assunto têm que começar tão do zero, ser tão didáticos que até dá certo medo de pensar em que nível está a tal esquerda. Pois esta no Brasil é militante, ignorante, fascista. Aliás, fascista é uma expressão que nada tem a ver com direita e esquerda, por exemplo. E é exatamente por isso que começo esta postagem com uma letra de música dos Engenheiros do Hawaii, onde escreve claramente fascistas de direita, fascista de esquerda mostrando que para ser fascista não é necessário ter lado. Outro dia estava lendo uma notícia no site de um jornal, uma pessoa comentou que tudo era culpa do capitalismo. Como se um dia, usando palavras de Daniel Piza, o capitalismo tivesse sido projetado numa prancheta. Quais são os pensadores da direita? Quem desenhou o sistema capitalista? Quem é o Karl Marx da direta?

Lógico que para isso preciso dar uma pequena base de onde estou partindo. O legal de fazer uma postagem longa, é que poucos vão ler até o fim. E poucos dos poucos que lêem deve ser algo entre um e mais que um. Para introduzir um pouco as pessoas do ponto que comecei a falar nesta postagem vale a leitura destes dois textos de Daniel Piza, cujos links seguem abaixo e transcrevo um texto de hoje de madrugada do jornalista Reinaldo Azevedo. Reinaldo se coloca de um lado, da direita. Piza mostra a total facilidade de se cair num destes lados sem enxergar o todo, mas veja que se for pensar nos textos sobre uma óptica esquerdista, os dois dão nomes aos bois, coisa que a esquerda sempre se esquiva.

Por Daniel Piza:

Meu país à esquerda ou à direita e Diálogo de macacos

Por Reinaldo Azevedo, em seu blog, dia 7 de outubro de 2007, 6:21.

Esquerda, direita?

Também perguntam alguns, afetando espanto: mas você ainda acredita na existência de direita e de esquerda? Claro que acredito. Ademais, não é matéria de crença, mas de fato. E passo longe daquela besteira, infelizmente endossada por Norberto Bobbio, de que esquerdistas se preocupam mais com a justiça social, e direitistas tendem a naturalizar as diferenças. Até porque, dada uma sociedade democrática, em que todos são iguais perante a lei, as diferenças podem não ser naturais, mas são fatais. Distribua a riqueza brasileira, em partes iguais, entre os pouco mais de 180 milhões... Quanto tempo demoraria para que, de novo, houvesse ricos e pobres — e é bem possível que os ricos de agora fossem os futuros ricos da pós-distribuição?
Então a gente acaba com o estado? Não! Ele tem de ser eficiente para garantir direitos que permitam às pessoas competir. E isso supõe, claro, intervir com políticas públicas em áreas como saúde, educação e segurança. Qual é o grau dessa intervenção? Uma que não o transforme numa máquina difícil de carregar, que passe a ser gerador de desigualdades, em vez de corrigi-las. É nisso que acredito. Isso é ser de direita?
Mas não é só. Dada (e isto é um pressuposto) uma sociedade democrática, a direita não solapa a legitimidade das leis para promover o que entende ser justiça social. Já a esquerda não vê mal nenhum nisso porque acredita que o legítimo se sobrepõe ao legal. E quem define o “legítimo”? Ora, ela própria. Sim, ainda existem direita e esquerda. E, nos termos dados neste texto, é óbvio que sou de direita.

Voltando

Após a leitura destes três textos podemos começar a entrar na questão real que quero discutir. Além de existir um pensamento de direita, existem questões universais que estão obviamente fora da esquerda. Em suma, existe um pensamento, e este é dirigido para um lado ou outro. O problema é que qual é o pensamento da direita? Uns mal intencionados acham que o pensamento conservador é um pensamento da direita. Erro fatal. O conservadorismo é autônomo. Em muitos momentos, o pensamento libertário, o liberalismo, anda ao lado do conservadorismo, principalmente no combate ao pensamento de esquerda.

O pior não está em ver que só não existe um pensamento de direita, organizado da forma como a esquerda se posiciona e o discrimina, onde torcem os fatos históricos para conseguir ter algum apelo estético, onde a realidade normalmente costuma ser bastante “malvada” com eles, como também poderia dizer que a própria esquerda é multifacetada. Chamam a parte da esquerda que tende a ser democrata de social democracia. A extrema esquerda normalmente é incomoda a própria esquerda por ter idéias tão atrasadas que simplesmente não fazem mais sentido numa nova sociedade, mais global e mais dinâmica. Esta extrema esquerda é aquela que acusa de direita tudo que estaria um pouco mais próxima de algum valor mais universal. São aqueles que dizem ser Fernando Henrique Cardoso um representante da direita, ou aqueles que tentam identificar no populismo a direita. Naquele populismo de Paulo Maluf, por exemplo. Basta saber que populismo é algo útil para esquerda, sempre o foi. Também é bom lembrar que nenhuma ditadura caiu por falta de apoio popular. Isso é truque esquerdista, clamar a voz do povo para justificar seu lado totalitarista. Paulo Maluf nada mais é do que o herdeiro direto de Jânio Quadros e de Adhemar de Barros, dois grandes populistas de outrora. Nota-se, também eram vistos como direita, erroneamente. E como em toda crise democrática, os populistas ganham enorme projeção, caso da eleição de 1960, onde Juscelino Kubitschek não conseguia controlar a inflação decorrente do crescimento econômico, base real do posterior milagre do crescimento durante o regime militar de exceção.

A falta de cultura geral é sempre o maior problema para entrar nesse caminho. Por exemplo, se não existir capitalismo, o sistema voltaria a ser feudal. Pois na verdade o socialismo sempre teve base na questão de que se o mundo inteiro fosse socialista seria o total suicídio. Prova disso é o quanto Cuba importa do resto do mundo (capitalista) e quanto a China exporta (para o mundo capitalista). Sem o mundo capitalista não haveria dinheiro. As culturas voltariam a ser regionais, não se poderia fazer o comercio das Índias, por exemplo. Se há outra questão que passa ao largo das idéias esquerdistas é a noção de turismo. Qual era o grande pensamento da esquerda relacionado à sociedade de consumo e da sociedade de entretenimento? Quando mais o tempo passa, mas vejo que eles são a “Vanguarda do Atraso”.
Bem, termino por aqui, só comentando que por um tempo o Fascismo, uma de suas versões, o Nazismo, o Comunismo e o resto do mundo aconteceram num mesmo período histórico. Isso já seria suficiente para provar, sem levar em conta o que acontecia na Índia ou no Oriente Médio, para dizer que não só há direita e esquerda, como pode haver muito mais que isso.

Comentários

João Batista disse…
Socorro! Falar do Brasil é opressivo. Ser saudável e pensar no Brasil são incompatíveis. O Brasil agarra você, paralisa todos os seus membros e o puxa para dentro do pântano da morte sufocante, mistura de lodo e lixo. O Brasil e os brasileiros não têm direito a se considerar nada além de nada. Outro dia vi uma aula magna com um advogadozinho qualquer. Ele falava: Nós, ocidentais. Nós quem? O Brasil não é um país ocidental, ninguém aqui pode falar em nome do ocidente ou se considerar ocidental. O Brasil simplesmente não é, nem ocidental, nem nada. O Brasil é o país do vazio quântico, preenchido de lixo cósmico. Não, o Brasil não é nem socialista, nem capitalista, nem de direita, nem de esquerda, o Brasil é uma grande farsa, uma grande mentira, do qual nosso grande Líder está certíssimo em dizer que não se deve comparar o Brasil senão consigo mesmo. Qualquer comparação com qualquer outro país é falsa e inválida, e para o prejuízo do outro país.

Se é difícil falar da direita, da esquerda não se consegue nem um ponto fixo de comparação. A Esquerda:

La donna è mobile, qual piùma al vento,
muta d’accento, e di pensiero.
Sempre un amabile, leggiadro viso,
in pianto o in riso, è menzognero.
La donna è mobile, qual piùma al vento,
muta d’accento, e di pensier
e di pensier, e di pensier

È sempre misero, chi a lei s’affida,
chi le confida, mal cauto il core!
Pur mai non sentesi felice appieno
chi su quel seno non liba amore!
La donna è mobile, qual piùma al vento,
muta d’accento e di pensier,
e di pensier, e di pensier!

A mulher é volúvel, como uma pluma ao vento,
Muda de ênfase, e de pensamento.
Sempre um amável, bonito rosto,
Em lágrimas ou em riso, é mentiroso.
A mulher é volúvel, como uma pluma ao vento,
Muda de ênfase, e de pensamento,
E de pensamento, e de pensamento.

Sempre se dana, quem se entrega a ela,
Quem a confia, seu desavisado coração.
Porém ninguém se sente completamente feliz,
Que não beba amor de seu seio.
A mulher é volúvel, como uma pluma ao vento,
Muda de ênfase, e de pensamento,
E de pensamento, e de pensamento.

Claro que é tudo aparência. A mulher, na verdade, está fixa e totalmente convicta em sua mentalidade revolucionária, e não abre. Muda apenas naquilo que lhe convir, quando oportuno. Apesar de aparentar um belo sorriso, de chorar e sorrir bonito, é uma bruxa velha e feia, que mal consegue esconder seus chifrinhos por debaixo de seu cabelo sujo e encardido e seu rabinho de demônio dentro de suas vestes negras fedidas, apesar de a tantos persuadir, os iludindo de que devem beber de seu amor, tendo apenas ódio a oferecer. Suas lagrimas transformam homens em pedra, paralisando-os na burrice inerme e torpe, sua risada malévola e demoníaca de bruxa má só engana àqueles que, demasiados enfeitiçados, já não são capazes de perceber a diferença entre a monstruosidade que sai de sua boca e a verdadeira alegria humana.

Sim, meu caro Fernando, há mais coisas entre o céu e a terra do que pode supor nossa vã divisão entre direita e esquerda, mas também há todo um mundo para além do Brasil. Não consigo mais acompanhar todos os posts de Reinaldo Azevedo. Desinteresso-me do botequim que é a política brasileira. Acompanho superficialmente e resumidamente os acontecimentos, e leio os textos mais relevantes e que podem me ensinar a escrever e persuadir melhor, mas se antes dedicava mais tempo a destrinchar a política nacional, agora este tempo passa a ser dedicado a algo mais à altura da dignidade humana: o botequim político americano. Não porque lá não haja Paulo Betti o suficiente, pelo contrário, mas porque aí sim se trata de uma luta decisiva para o destino da humanidade.

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