Manowar

Há coisas na vida que me deixam cada vez mais pensativo. O difícil é ver que aquilo que achava oportunidade não é nada mais que ilusão. Não digo uma ilusão daqueles que simplesmente forjam na cabeça, que não existem, não falo de miragem. Mas uma daquelas que para se implantar é necessária o “mau senso”. Aquelas horas que não que não me arrependa das escolhas, pois elas não são tão importantes (aqui vale um parênteses: são importantes sim, mas as que eu fiz não eram irreversíveis, e não eram exatamente por não acreditar em 100% nelas e sim curti-las... É muito complexo...), mas o que é a base vive sendo explodida por uma vocação para o “mundo do menos”. Não é que vejo cada vez mais a nossa “fina elite” se empanturrando de “biscoito fino”? E achando que realmente aquilo é verdade. Não, não sou pessimista. Poderia até dizer que o pessimista é o que conhece a realidade e o otimista é um “bobo da corte”. Mas não é uma questão de pessimismo, mas sim de que a base para as coisas acontecerem simplesmente vem sumindo. Desaparecem porque se multiplicam os Mersault´s. A alegria da minha vida sempre me foi muito feliz... Não sei por que, mas coisas sempre me aconteceram da melhor forma. Claro, a avaliação é de tal modo semelhante a uma Poliana... Mas eram as bases...

Dinheiro não é importante. Nunca tive. E ele me faz falta para conseguir fazer as coisas. Mas a base de uma sociedade que o gasta o que ganha com celulares que tem internet... Nem consigo terminar a frase de tanta graça que vejo disso... Quem usa tanto assim o celular, com internet, profissionalmente? Acredita mesmo que essa “tecnologia” mudou sua vida? Viver sem micro para mim é uma tristeza enorme. Mas não uma impossibilidade. Existem coisas que vieram para ficar, como a televisão, o micro, o celular (a parte útil dele, claro). Não digo que no futuro seja mais útil essa ligação com a internet. Mas não vejo isso como o máximo que o mundo pode ser conectado, até porque tem coisas dessa conexão que simplesmente não me interessam. Mas esta conexão deixa mesmo as pessoas mais conectadas? Bem, é mais interessante ter alguma notícia do que notícia alguma de alguém que um dia foi importante para sua vida do que nada. Em termos do nada é uma ótima solução. Mas quem dela faz ser a única solução...

O engraçado que escrevi há uns dias uma postagem sobre Jimi Hendrix. Nem gosto dele. Praticamente comecei a escutá-lo quando comecei a tocar guitarra. E ele é bom. Bom músico. Mas não preciso gostar dele por esse motivo. Clapton sempre me foi mais interessante. Mas no fundo eu diria que gosto mesmo de outras bandas, e diria que Clapton e outros são partes que me ligam à “civilização”, digamos. Por que existe essa forma de ver a civilização? No fundo depois que se tem contato com assuntos da alta cultura inicia-se um processo de compreensão, só alcançado se existir autocrítica. Assim como não se pode mensurar o prazer, não se consegue mensurar a cultura. Não são questões de quantidade...

Gosto muito do programa do Artur da Távola, pois ele só fala de música. É daqueles retrógrados programas que passam um concerto, aqueles que as televisões usavam para ficar no ar na madrugada. Sei lá por que eu gosto de música erudita. Sempre gostei, desde criança. Claro, escutava outras coisas também, mas muito do que tinha relação àquele universo. Não é a toa que a guitarra me foi apresentada por uma questão de J. S. Bach. Nem cabe ficar falando aqui, mas foi o Mr. Bach que me despertou para a música erudita. Outro dia lendo uma crônica de Távola, ele falou da amizade. De como se pode ser amigo de alguém que viveu muitos séculos antes de você. Assim ele interpreta as músicas e faz um programa muito pertinente. Com os recursos que tem para gastar naquele tipo de programa, ele faz até milagre, diria. Agora, quando fala de política é duro, viu. Discordo dele sempre. Não que ele seja radical, muito pelo contrário, ele é até inconformado. Meio pessimista. Mas é conhecedor da cultura como poucos neste país infestado de delinqüentes intelectuais e loiras de salão de beleza que nem sabem que Beethoven fez óperas. É um paisinho mesmo. Não consigo dizer que é um grande país, a não ser em extensão de terras. Não dá para ir à Sala São Paulo ver um concerto sem ter que trombar com o subdesenvolvimento. O metrô chega perto de lá, e aí tem que andar um “pedaço”. Como se não fosse sombrio esse pedaço. Queria ver a tal “periferia” da Regina Case no Arco do Triunfo... Não é problema encontrar pessoas estranhas no caminho, mas o problema é que essas pessoas mal intencionadas estão lá porque pessoas bem intencionadas vão lá. Isso sem contar que fora a parte restaurada, o resto está caindo aos pedaços. Se estas pessoas pararem de ir lá? Fecham lá... E tudo volta ao caos que “eles” tanto gostam.

Tem gente que vive do caos. Não são os pessimistas estes. São aqueles palhaços que olham a falta de uma cultura a melhor hipótese de oportunidade. Ou seja, é muito diferente ser pessimista a ser o “oportunista do caos”. Tem gente que gosta. Acha bonito dizer que a miséria é culpa da “elite”... Como se não existisse elite seria melhor... Não faço parte de nenhum grupo, nenhuma ONG e nenhuma seja lá o que for que se possa chamar de elite. E nada disso me faz diferença. Simplesmente entender que as pessoas são diferentes é a primeira hipótese que uma pessoa precisa ter em mente. E a partir das diferenças que se fazem as opções. Assim as pessoas optam por um time de futebol (mesmo no fundo todos os times sendo meio iguais, fazendo uma troca constante de jogadores, que a cada tempo estão nos outros times...) e quem passa desse limite e não faz concessões tem problema psicológico. Por exemplo: se o Corinthians Futebol Clube for para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro, continuarei torcendo por ele para que volte à primeira. Assim como fico feliz com a hipótese de a Portuguesa de Desportos voltar à primeira divisão. É uma concessão minha a de simpatizar com este outro time. Mas não deixo nunca, de jeito nenhum, de ser o mesmo corinthiano de sempre! Talvez aí faça parte de um grupo... Mas não é elite.
A minha crítica está na total falta de discernimento da realidade em que se vive hoje no Brasil. É de ficar irritado. Seria como encontrar uma água-viva na praia no seu mergulho no mar. Como podem os carros custar tudo isso aqui? Como pode haver tanta diferença entre os juros e os preços? Eu acho mesmo que se não tivesse tanta gente se dando bem nesse caos, o caos já teria acabado. Faz sentido manter a porcaria para esses palhaços. Ou seja, quem não faz parte do “mau senso”, nem é Mersault, fica como eu, em dois mundos distintos. Aquele real, onde as bases que são importantes para o desenvolvimento são solapadas, e aquele artístico, onde tudo poderia acontecer, se as bases não fossem minadas.
Por que Manowar?

Bem, Manowar é uma banda fantástica para se ouvir quando se está com raiva. Não só. E, além disso, tem toda uma cultura, que está longe de ser comum e civilizada. É a hora que tenho vontade mandar “certos” para o inferno. Battle Hymns é o primeiro álbum deles, de 1982, cuja capa é a imagem que está nessa postagem. Manowar é umas daquelas bandas que nunca mudaram com o tempo e continua tão bom quanto era para minha adolescência. Faz tempo que não escuto nada novo deles.

Comentários

João Batista disse…
Eu não compro mais nada no Brasil. Nada. Sabe quanto custa uma barra grande de chocolate daqueles comuns mesmo? 3,40 e tanto. Sabe quanto custa uma da Hershey’s nos EUA? 1 dólar. Eu gostava muito do Laka, comi um número ilimitado desta barrinha. Um dia experimentei uns chocolates Lindt. Acabaram antes que pudesse saciar meu paladar. Mas havia uma barrinha de Laka no armário. Logo após comer o último pedaço de chocolate Lindt, abri o Laka e dei uma mordida. Não consegui nem mastigar, caro Ludo. Botei a barrinha de volta na mesa e fui cuspir. A diferença é absurda. De repente, meu amado Laka parecia uma barra de açúcar vagabundo. Mas o Hershey’s, incrível, está logo atrás do Lindt, é quase tão bom quanto.

Como é que pode um Brasileiro se contentar em pagar mais por um chocolate pior e achar que está tudo bem, que é assim mesmo que tem de ser, que é normal? Como é que pode o Brasileiro pensar que vive num país neoliberal, liberal, capitalista, etc. e tal? Capitalismo é chocolate bom e barato, não ruim e caro!

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