O Fernando

Estava lendo a entrevista de Fernando Henrique Cardoso ao jornal “O Estado de São Paulo” (aqui). Em meio a algumas coisas que discordo dele, tenho que pontuar pelo menos dois trechos que são importantíssimos. Um primeiro é relacionado à postagem que fiz a pouco, falando de John McCain:

OESP: Qual é a sua opinião sobre Obama?

FHC: Só o vi falando uma vez. É um rapaz brilhante. Jovem, boa aparência, avançando nos Estados "brancos". Mas, se ele for candidato contra o (republicano John) McCain, não sei se leva. Porque poderá haver um refluxo no ímpeto de mudança da sociedade. E o McCain não é um reacionário, tem ficha limpa.

E o segundo trecho se refere ao entendimento sobre o conceito de democracia:

OESP: E essa voga de consultas populares e plebiscitos?

FHC: É uma confusão. Plebiscito é aplicável sob circunstâncias muito bem definidas. Fora disso, dá margem a manipulações. Que fique claro: democracia implica algum grau de deliberação consciente. Sempre. Hitler foi eleito, Mussolini fazia comício para milhões, ditadores, não só africanos, fazem eleições plebiscitárias e ganham por maioria. É democracia? Experimentem colocar a pena de morte em plebiscito no Brasil. Ganha fácil. É a melhor solução? Democracia direta num cantão suíço pode funcionar. Mas não funciona numa sociedade de massas porque o risco de manipulação é alto. Qualquer um com entrada nos meios de comunicação leva. Não se forma opinião. Forma-se torcida.


Voltando. Continuo achando que a melhor opção dentre os candidatos seria Rudy Giuliani. Certo que a idéia do super-prefeito não é lá a melhor das opções para um governante de nível global, como é o caso da presidência dos Estados Unidos. Mas eu tenho certa dúvida que ele como presidente seria o super-prefeito. Mas como ele não estará na disputa... O que vale é a opinião de FHC a respeito de McCain. E o engraçado que quando fala em “torcida” (notar que as citações estão em ordem inversa na entrevista, primeiro fala do Brasil, depois da parte mundial e por fim de sua vida) fiquei pensando em como os jornalistas brasileiros fazem torcida e não jornalismo. Primeiro torciam para Ségoléne Royal, agora por Obama. Nem sequer firmam uma opinião mais centrada aos fatos. Erraram com Kerry em 2004 e agora continuam em seus chutes errados na sua “torcida” por Obama. Temos que ser objetivos: ele perdeu a segunda prévia. E isso é que deve ser noticiado. A jornalista Patricia Campos Mello noticiou direitinho o que foi que aconteceu. Leia aqui.

FHC tem tido bastante feeling em suas ultimas analises e tem poupado muito Lula. O poupa, pois é deselegante bater de frente com algo que não mais lhe interessa. Pois se quisesse ser novamente presidente, tenho certeza que seria uma dor de cabeça para o PT. Em termos políticos é nítida sua superioridade em relação a Sarney e Lula (a Collor, nem se fala). E o recado é muito claro a Sarney, de que ele não mais vai ser candidato, mas que continuará a fazer política. Muito me arrependo de no ano passado não ter participado de um café da manhã com ele no Hotel Crowne Plaza, mas não consegui me organizar a tempo.
De outro lado, acredito que Fernando Henrique também esta sabendo valorizar seu patrimônio político. O desgaste eleitoral para quem já esteve no cargo político mais importante do país é bastante complico, vendo, por exemplo, o caso de Itamar Franco, que depois de ter sido presidente foi governador de Minas Gerais. Hoje não é tão aclamado como FHC, e, em parte, por ter tomado este caminho. Sua posição durante a ultima eleição, de ter apoiado Alckmin, foi de uma enorme delicadeza e de um político experiente. Coisa que nunca se esperará de Lula. Sarney já é outro caso. Aliás, uma incógnita. Ele ainda renderá muitas páginas de futuras biografias. É talvez hoje o político mais influente no Brasil. E influencia nada tem a ver com popularidade.

Bem, como é complicado falar somente de FHC. Ele parece estar preparando alguma nova publicação. Não sei não, mas li trechos somente daquele monstro que é seu livro – “A Arte da Política”. O engraçado que torcedores no jornalismo formam torcedores na comunidade. Certa vez, enquanto ainda navegava pelo Orkut, me deparei com uma comunidade sobre o livro de FHC. Eram pessoas se dizendo apaixonadas por ele. Mas algo patético. Não se discutia nada do livro. Era uma torcida mesmo. O que gosto em FHC é que ele tem autocrítica. E isso aparece em inúmeras oportunidades. Sem contar como aborta alguns conceitos, como esta parte da entrevista:

OESP: Há quem sustente que, com a unificação dos programas sociais no Bolsa-Família, os coronéis do Nordeste perderam terreno.Tanto que o PFL, tradicional partido desses senhores, teve que se refundar.

FHC: Lula pode ter desalojado o coronelismo no Nordeste, mas pode vir aí com o coronelismo dele. Se houver uma apropriação pelo governo de uma política que é do Estado, isso acontecerá. Não se esqueçam de que o cadastramento no programa Bolsa-Família é feito pelos prefeitos. Isso aumenta a influência dos políticos locais e pode criar uma linha direta com o presidente, esvaziando o papel dos Estados. Rejeitei a idéia de criar nas classes desfavorecidas essa dependência simbólica. Paguei um preço, mas, republicanamente, agi bem. Sempre tive horror à idéia de ser o pai dos pobres.

Comentários

João Batista disse…
Faz sentido, afinal, essa sofisticada gente brasileira já chegou ao nível do Nacional-Socialista Carl Schmitt. Juntar os amigos contra os inimigos. Como a verdade foi para o saco, resta aglomerar o maior número possível de aliados para esmagar o adversário, antes que ele faça o mesmo com você. Então tudo funciona na base da torcida organizada. E não é assim que se consagram Saramagos? Todo mundo gosta, todo mundo diz que é bom, todo mundo diz que leu ou tentou ler, então só pode ser bom mesmo.

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