junho 18, 2009

Revisitando Seixas...

Como é do conhecimento de meus amigos próximos, nunca gostei da obra musical de Raul Seixas, mesmo citando a cada tempo o tema de Metamorfose Ambulante e tendo no meu iPod além desta outras como Maluco Beleza, Tente Outra Vez, Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás, Gita e Sociedade Alternativa. Mas havia um disco que estava sempre em casa. Sim, um disco de vinil. E tinha também, ainda na Brasília branca (meu pai teve duas Brasílias: uma branca modelo 1976 e outra amarela modelo 1978; entre 1977 e 1981, quando comprou um “possante” Passat... Hoje parecem carros de filmes “Sala Especial”) uma fita K7 do mesmo álbum. Os dois desapareceram. Diziam que a fita era de minha tia e o vinil emprestado... Lembro bem pouco desta época. Tinha também uma fita K7 da Maysa, entre outras. Bem, mas aquele disco de 1973, Krig-Ha Bandolo, havia canções como Ouro de Tolo, Al Capone, Dentadura Postiça, Mosca na Sopa e, claro, Metamorfose Ambulante. O disco, ainda hoje, é muito bom de forma geral. Criativo, mas nem se compara à criatividade dos discos, da mesma época, dos Mutantes.

O fato que me chama atenção é uma recente propaganda do jornal Folha de São Paulo usando a letra da música Mosca na Sopa. Nunca imaginei que Raul Seixas seria festejado tantos anos depois de sua morte (mais precisamente 20 anos), sendo que, já nos anos 1980, sua popularidade não andava em alta. Seu último sucesso foi a música Cowboy Fora da Lei, de 1987. Seixas é hoje um mito, onde muita gente fala muita coisa a respeito (e cada coisa). Mas o que realmente sobra são belas canções. O que há por “trás do mito” são especulações e questões de fã. Raul nunca escreveu um livro, nunca fez um filme (mesmo tendo um projeto), era ótimo leitor e foi um ótimo produtor musical, como conta a jornalista Ana Maria Bahiana, em entrevista ao programa Sempre um Papo, da TV Câmara (aqui). Ela ainda contou uma história sobre a música Ouro de Tolo, que ele conseguiu escrever uma letra, sem refrão, igual às de Bob Dylan.

Realmente Raul Seixas é hoje referencia daqueles tempos. Não consigo imaginar o que ele pensaria dos tempos atuais, o que acho muito mais importante do que hoje achamos dele. Este diálogo nunca acontece; sempre temos que ter a visão deturpada de algum autor que diz o que ele pensava como se hoje as situações fossem as mesmas. Meu total descrédito nesses interlocutores vem de leituras bem colocadas como a da escritora Catherine Millet, que trás reflexão a respeito da imagem da escritora Simone de Beauvoir, em entrevista para a Revista da Livraria Cultura (edição 23, junho de 2009). E assim acabo por sempre desconfiar de alguma leitura tão conclusiva, tão biográfica, tão ao contrário do diz a letra:

“(...) Eu prefiro ser
Essa metamorfose ambulante

Do que ter aquela velha opinião
Formada sobre tudo (...)”

Metamorfose Ambulante (1973)

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