Especial Aprendiz 6

A próxima edição de O Aprendiz será composta de universitários. Pela edição especial que foi ao ar dia 1 de dezembro, o programa não será tão divertido. Lembrando que quem observa o programa como uma fonte de conhecimento, ou como uma das participantes descreveu certa vez, que participar do programa era como fazer um MBA, talvez seja de pouco interesse. Eu acho somente um entretenimento, de boa qualidade.

Não tenho como pensar no programa como uma extensão de conhecimento, como um aprendizado. Só, claro, não se pode negar que é para um público que tem interesse no universo executivo, quem têm outros interesses a aqueles expostos num Big Brother, por exemplo. Obviamente que os anunciantes são diferentes, com outro foco. Mas não ao compararmos com as fatias de mercado que o programa atinge, acho que têm melhores e mais caros patrocinadores.

Mas voltando a edição especial, esta era composta por 16 universitários, que passaram por testes de lógica na primeira etapa, onde foram divididos em dois grupos de 8 pessoas. Porém, a regra era excluir o grupo que fosse pior nas realizações. Ou seja, tirar 8 pessoas independente das características individuais. Bem, há de ter critério, e este era o critério. Depois foram para uma segunda etapa, onde dividiram em dois grupos de 4 pessoas para perguntas e respostas. Assim eliminando mais quatro candidatos. Os quatro últimos disputaram mais perguntas e respostas, onde uma das candidatas superou e muito as questões, indo para a fase final com o segundo colocado. A fase final foi baseada na letra do hino nacional e a disputa estava encerrada.

Duas coisas a respeito deste episódio: que a educação brasileira decaiu tanto, mas tanto, que nem o hino nacional esses meninos sabem mais. Era bastante chato ter que decorar a letra do hino para o sete de setembro, quando criança, mas até hoje sei grande parte da letra graças a isso. As datas, questões de “relativa importância”, foram piores que a encomenda: fora a ganhadora, praticamente ninguém sabia data alguma. Esta questão reflete uma tendência que escapa a articulação de idéias. Vamos a data em questão: Qual o ano da proclamação da República? Somente a vencedora acertou, dizendo 15 de novembro de 1889. Um colocou 1988. Esta foi a data da abolição da escravatura no Brasil, pela lei áurea. Menos mal, pois os fatos são interligados de certa forma. Mas há de convir que se fosse que os outros candidatos escrevem 1822, data da independência do Brasil, até seria aceitável. O que não é aceitável escrever 1840, que se não me engano, nada aconteceu. Poderia dar outro exemplo: Ao se perguntar qual foi o primeiro presidente eleito pelo voto direto, dois participantes escreveram Tancredo Neves. Não é uma questão fácil saber que foi Prudente de Morais, um presidente sem maior projeção; é complexo mesmo. Mas Tancredo Neves já é demais. Justamente porque sua eleição foi indireta, fruto de uma enorme articulação, da derrota do movimento “Diretas Já”, que também foi resposta de uma das questões. As datas não têm importância quando se sabe o contexto, a interligação. O que poderia chamar de história interpretativa. Mas não se pode ignorar as datas e as interligações. Isso é ignorância.

A ganhadora desta etapa especial se saiu muito melhor aos seus companheiros, que não conseguem ir muito além de uma cultura pop mitificada. Um deles, até ironizado por Roberto Justus, tinha Vinicius de Moraes como resposta a tudo. Entendo que quando se coloca Heitor Villa Lobos e Caetano Veloso no mesmo patamar de qualidade musical, não se poderia ter mais do isso. Durante a minha geração ainda pairou a MPB com os mesmos nomes de hoje e desde os anos 1970, com boas pitadas de bossa nova. Mas houve nos anos 1980 uma cultura pop que importou um jeito de fazer um “rockinho”, bem brasileiro. Mas a matriz era muito mais externa que interna, sabe-se muito bem. Nos anos 1960 e 1970, essa matriz era mais aberta e a qualidade nacional muito pior. Certo que é difícil comparar um Roberto Carlos nos anos 1970 com um RPM nos anos 1980. Roberto tinha uma banda que o acompanhava, com instrumentos de época, com gravações em estúdios com pouca tecnologia. Já o RPM conseguiu o que havia de melhor em termos de tecnologia, num nível semelhante ao internacional. O sucesso de um não pode se comparar ao do outro, pois Roberto se reciclou e sobrevive até hoje, claro, falando a outros públicos (muito outros, talvez em parte até àquele que era jovem em 1970) enquanto que o RPM foi um “vento”, assim como muitos nomes naqueles anos. Mas nos anos 1990 não havia mais algo que fosse “o ruim” dos anos 1990, sem dar mãos àqueles mesmos nomes conhecidos da MPB. Quando digo “o ruim” é porque sempre a geração anterior fala que a outra atual é muito pior. Uma coisa de falar que os anos 70 eram melhores que os 80 que eram melhores que os 90 etc. E que tem muito de verdade, mesmo. Mas não se pode fazer disso um mito. Que é nítido que o Brasil teve uma enorme queda na qualidade dos produtores de cultura (escritores, poetas, músicos) a partir dos anos 1950, chegando ao nível atual. Claro, no mundo inteiro isso aconteceu, mas o caso brasileiro é pior.

Além da decaída cultural, o que mais atrapalha o desenvolvimento e a questão de impossibilitar as escolhas. Com o atual pensamento “politicamente correto” certas questões de ordem de escolha ficam truncadas, ao ponto de se perder o senso da qualidade das coisas. Bem, isso já foge um pouco desde comentário televisivo, mas é interessante deixar claro que não é porque gosto de algo que este algo é bom. Nem porque algo é uma “unanimidade”, como Caetano Veloso, que faz dele um “gênio”. E isso serve para tudo.

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