Machado de Assis

Por Daniel Piza, em “O Estado de São Paulo” (aqui):

“Pouco a pouco os novos livros sobre Machado de Assis, cujo centenário de morte em setembro está atraindo muito mais atenção do que previsto, vão saindo. Almanaque Machado de Assis, de Luiz Antonio Aguiar (Record), é bem-feito, principalmente porque não leva a sério as velhas biografias que tomavam especulações como fatos. (Machado foi coroinha? Quando teve a primeira crise epilética? Quem namorou antes de Carolina? Não sabemos.) Há alguns problemas de revisão, como o crédito da foto dos óculos (é Juan Esteves, não Acervo da ABL) e a atribuição a Millôr da tese de que Bentinho tem atração homoerótica por Escobar (Millôr mesmo reconheceu não ter sido o primeiro sujeito de relevo a dizê-la). Mas isso em nada atrapalha o livro.
Outros livros sobre ele são Machado de Assis – O Romance com Pessoas, de José Luiz Passos (Edusp/ Nankin), e O Ceticismo na Obra de Machado de Assis, de José Raimundo Maia Neto (Annablume). Passos analisa o diálogo de Machado com a obra de Shakespeare. Acho que faltou acentuar as diferenças entre Otelo e Dom Casmurro, pois Bento não é, ao contrário do que disse Helen Caldwell, o “Otelo brasileiro”; antes, inveja a “fúria do mouro” e lembra que “Desdêmona era inocente”. Maia Neto estuda as reflexões morais de Machado e diz que Dom Casmurro é um cético, ao passo que Bentinho é um ingênuo. Mas Dom Casmurro é mais um desiludido, saudoso dos tempos passionais, do que alguém que hoje duvida do que um dia acreditou. Machado é infinito...
Melhor é comemorar o lançamento de seus próprios livros. Por mais que tentem nos convencer de que foi bom poeta, basta folhear Toda Poesia de Machado de Assis (org. Cláudio Murilo Leal, editora Record) para rever mais uma vez que, afora meia dúzia de poemas bem-feitos, essa não era sua praia. De tal ressaca lhe veio a prosa, em que as ilusões de seu romantismo naufragam... Já a caixa com os três grandes romances de Machado – Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro –, lançada pela editora Globo, R$ 80 ao todo, com textos fixados por professores da USP, só merece elogios. Belas edições dos clássicos brasileiros, por incrível que pareça, ainda são raridades em nossas livrarias.”

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