setembro 12, 2010

Guterman genial!

Poucas foram as vezes que publiquei aqui no blog um artigo completo, mas Marcos Guterman conseguiu, com poucos parágrafos, expor o que talvez demorasse algumas páginas e não sei se conseguiria com tanta precisão. Se eu tenho uma opinião claramente contrária ao rumo que seguem estas eleições – e ainda não tive tempo de escrever por aqui – Guterman pegou um dos mais importantes aspectos e que considero de suma importância na transição democrática entre partidos democraticamente representados. Se há algo de positivo nesta eleição, já foi também demonstrada pelos números e por discursos como da candidata verde Marina Silva e de Plínio de Arruda Sampaio.

Explico: Maria Silva faz um discurso trazendo a continuidade dos avanços dos últimos 16 anos e a mudança do que não concorda, o que faz com que seja a “terceira opção” e pela primeira vez o PV (Partido Verde), único partido com características internacionais existente no Brasil – o que me faz pensar que ainda há algo de normal no Brasil – consegue ter um candidato representativo. Não, não vou votar na Marina, mas isso não impede de falar que sua candidatura é algo positivo ao processo democrático. Sobre Plínio de Arruda Sampaio, os números da pesquisa de intenções de voto mostram que sua participação nos debates se dá por puro respeito à sua pessoa – sua biografia e sua idade – e não às suas idéias políticas, que a população nem sequer quer saber. Isso é positivo do ponto de vista que seu discurso acabou e não há mais espaço para aventuras políticas radicais. Por mais que Dilma pareça uma radical, por sua falta de postura ao responder perguntas – parece sempre estar nervosa e que todas as perguntas estão sendo feitas para atacá-la – sempre há Plínio para nos lembrar que tudo pode ser pior...

Que coisa, não falei de Serra... Bem, o que falar sobre um dos maiores fenômenos incompreendidos da política brasileira que se tem idéia? Como pode estar em situação tão lamentável um candidato que tem a biografia que tem? Foi um bom governador do Estado de São Paulo, afinal, seu índice de aprovação passa dos 50% de bom e ótimo. Tem o que se precisa para ser um chefe de Estado: postura ética, experiência administrativa, um grupo de apoio com pessoas de bom senso e bom nível técnico administrativo e, o mais importante, não é uma unanimidade. Isso significa que sabe conviver com o espírito democrático. Só isso já valeria todos os seus defeitos. Se sua campanha de TV fosse boa – o que não é – estaria se evidenciando a falta de qualidade dos seus oponentes. A campanha de Dilma não consegue falar do impossível – suas qualidades e do governo Lula (a não ser que minta, distorcendo os números) – então sobra destacar os defeitos dos opositores. Índio da Costa, vice de José Serra, foi a melhor presença desta eleição. Espero que consiga em alguns anos formar um grupo político que represente alguma novidade no cenário nacional. Assim como Sarah Palin foi o que houve de melhor na eleição de Obama, Índio da Costa se torna um nome forte para representar uma novidade para a política brasileira, que já apresenta, como Guterman escreve abaixo, um esvaziamento do discurso político. Só lembrando o que li na The Economist meses atrás: José Serra seria o melhor presidente que o Brasil pode não ter...

Por Marcos Gurterman

Médici, Lula e a tiriricarização da política

Em seu twitter, Alncelmo Gois, colunista de O Globo, fez uma observação muito pertinente: “Lula é um democrata. Médici era ditador. Mas o clima de Brasil grande e de desinteresse pela política é o mesmo nos dois governos”.

A comparação é inevitável. O que aproxima Lula e Médici é um projeto de unanimidade, fundamentado na ideia de que é preciso união nacional para atingir o objetivo de transformar o Brasil numa grande potência. O resultado disso tudo, tanto nos anos 70 como agora, é o esvaziamento do discurso político, de que a candidatura de Tiririca é apenas seu mais símbolo mais grotesco.

Pior: a oposição é vista como algo danoso ao país. Médici dizia que era necessário “mobilizar a vontade coletiva para a obra do desenvolvimento nacional” e que, embora a unanimidade fosse algo “incompatível com o regime democrático”, o ideal era “compreender que a pátria é uma só” quando estivessem em jogo “os supremos valores da liberdade, do desenvolvimento e da segurança”. Já Lula é mais prático: chama os opositores simplesmente de “turma do contra, que torce o nariz contra tudo o que o povo conquistou nos últimos anos”, como se esses recalcitrantes não fizessem outra coisa a não ser atrapalhar a marcha brasileira rumo a seu destino manifesto.

A invenção de Dilma não é senão a melhor expressão dessa arrogância: afinal, no melhor estilo populista, Lula concluiu que o mundo político tradicional (aí incluído seu próprio partido) não poderia produzir um sucessor à altura de suas qualidades messiânicas, razão pela qual decidiu gerar sua própria candidata. A apatia alimentada por Lula transformou uma completa desconhecida numa pessoa de qualidades tão excepcionais que 50% dos eleitores já decidiram votar nela. Ao inventar Dilma, o presidente dispensou a mediação da política para impor sua vontade pessoal, a partir da percepção de que essa vontade se confunde com os desejos da maioria dos brasileiros.

Nisso, Lula e Médici são muito mais próximos do que a biografia de ambos faz supor. Embora ditador, Médici tinha verdadeira obsessão pela legitimação popular de seus atos. Logo ao tomar posse, o general discursou: “Espero que cada brasileiro faça justiça aos meus sinceros propósitos de servi-lo e confesso lealmente que gostaria que o meu governo viesse, afinal, a receber o prêmio de popularidade”.

O próprio Lula reconheceu, em entrevista a Ronaldo Costa Couto em 1989, que o general seria eleito se houvesse voto direto para presidente, porque “a popularidade do Médici no meio da classe trabalhadora era muito grande”. É fato: naquela época, exatamente como hoje, havia emprego e a sensação de que o Brasil alçava voo, o que era suficiente para justificar todo tipo de arbítrio.

Os paralelos, contudo, vão além. Naquela época, como hoje, havia delírios de grandeza em política externa. E, sobretudo, naquela época, como hoje, o presidente julgava que a popularidade era uma espécie de chancela automática para dizimar o contraditório e a própria essência da vida política, em nome do “interesse nacional”.

setembro 03, 2010

Esses meus projetos...

Faz já pouco mais de um mês que escrevi aqui pela última vez. Escrever pouco é muito ruim, pois parece que venho “desistindo” de escrever, o que não é nem de perto verdade. Venho escrevendo outras coisas, um pouco por trabalho e outro tanto por questões relacionadas a alguns projetos. Mas um dos projetos principais está parado. Outros dois estão engatinhando... E por fim, nem sobre os costumes gerais tenho tido tempo.

Gosto de falar de futebol, F1, filmes, músicas e até de arquitetura... Imagino que muita gente entra no blog a procura de questões relacionadas à arquitetura. Uma ânsia que eu mesmo já passei tempos atrás. Não era, à época, blog, mas sites sobre arquitetura. Além do Vitruvius, que teve recente remodelação – da qual eu detestei – e o Arcoweb, não há mais sites sobre arquitetura. O próprio site da Pini, que edita a revista AU, não é lá um site muito interessante. O site Casa.com.br, da revista Arquitetura & Construção, é outro difícil de encontrar as coisas. Acredito que falta ainda alguma coisa para os sites ficarem fáceis de encontrar as obras, os arquitetos, os fornecedores, os vídeos, as entrevistas e as crônicas. A coisa mais estranha é a parte sobre perguntas, recheada de questões feitas por estudantes. Na verdade, lembro que quando saí da faculdade fui um dos poucos que continuou assinando a AU. E também foi por pouco tempo. Tem horas que penso que estas revistas são feitas para breve informação e não com a idéia de ser um objeto de pesquisa, de “acervo científico” – como se trata na área médica as revistas especializadas.

Bem, não queria ficar discutindo o mercado editorial de arquitetura, mas uma coisa me parece óbvia: há uma carência de produtos editados para arquitetura. Muitos livros foram publicados nos últimos anos e há muito ainda por aparecer.

A respeito dos livros de arquitetura, os escritórios mais consolidados dos chamados “comerciais” acabaram lançando compêndios sobre suas obras. Muitos deles são muito interessantes e há muitas coleções de livros baratos, alguns comentando somente uma obra específica. Olhando com as lentes do passado, parece que há um avanço neste sentido. Mas eu ainda sinto falta da continuidade da coleção de livros do Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, que se não me engano lançou quatro livros: Lina Bo Bardi, Vilanova Artigas, Reidy e, o mais popular, João Filgueiras Lima - Lelé. O quinto volume, sobre Oscar Niemeyer, não saiu ainda... E por muito tempo o da Lina esteve esgotado (sem contar o preço, que daria um tópico a mais...).

Se for falar a respeito dos ensaios, no Brasil parece que há uma lacuna maior. Muitas teses são publicadas, mas nada de inovador, nada de polêmico. Acho que o ultimo livro polêmico que tive oportunidade de ler foi o de Sérgio Teperman, que não passa de uma coletânea de seus inúmeros textos. Falta algum livro recente de ensaios arquitetônicos e urbanísticos. Algo que também saia um pouco do culto à arquitetura moderna brasileira. Será que não se produz nada além do que se passa nos meios acadêmicos? Será que não há mais o que se falar sobre assunto tão vago?

Poderia dizer que faço certa injustiça. Acabo de lembrar do livro – o pequeno e denso livro – do arquiteto Jaime Lerner, Acupunturas Urbanas. Nunca li críticas sobre o tal livrinho. Parece ter passado despercebido. Mas se lançassem muitos livrinhos assim, o debate ficaria bem mais interessante. Isso é uma das poucas certezas que tenho. O fato é que imagino a vontade dos arquitetos de sempre lançar os grandes livros, ilustrados, com projetos completos, textos analíticos, etc. e caros. Tem horas que se deve popularizar o debate. Achei incrível quando lançaram em português o livro Nova York Delirante, de Rem Koolhaas. Só acho que demorou muito... E assim ainda temos muitos livros que não nos chegam em português... E depois me perguntam por que eu estudo outras duas línguas...

agosto 01, 2010

Lançamento do mês passado...

Certo tempo que não escrevo, nem para este blog e nem outras coisas. Cheguei a separar alguns textos no intuito de completá-los e de formar um texto mais coeso, ou melhor, juntar partes desconexas entre vários textos aqui publicados, mas não tive este tempo. Também iniciei um projeto maior que segue em frente, mas que em junho e julho não caminhou. As leituras continuam também num ritmo muito menor. É questão de momento, mas tenho a dizer que um lançamento literário entre muitos ocorridos nos últimos meses chama muito a atenção e merece destaque: Como ler livros, de Mortimer Adler e Charles Van Doren. A importância do lançamento desta nova edição pela É Realizações, após algumas décadas, está na no debate de novos métodos de “ensino”, além por ser o segundo título com o selo Educação Clássica. Tive contato e estudei com o método de Adler e com certeza é um dos mais completos para quem iniciou ou pretende iniciar um processo de estudos. Descobri este título há pouco tempo, em 2006, logo que se iniciou, em Curitiba, o programa Expedições pelo Mundo da Cultura. Este foi um dos primeiros livros do programa. Em teoria, o programa é baseado neste método. Além deste título a coleção Educação Clássica já publicou o título Trivium, em 2008, da Irmã Miriam Joseph, que é uma coletânea de aulas de um curso estruturado pela Irmã e incentivado por Adler. Não pude participar da palestra de lançamento de Como Ler Livros que muito provavelmente explicaria muito melhor do que eu, que sou mero estudante.

abril 11, 2010

As linhas tênues do entre e o então...

Leio o blog da Norma Braga. Não a conheço, nem sei direito o que faz. Sei que é evangélica e que escreve um pouco sobre isso. Já li seus textos sobre Beatles, mais especificamente sobre Paul McCartney, e outro dia estava lendo um texto que foi publicado numa revista. Falava sobre porque ela não é de esquerda. Bem, me parece óbvio e até achei a leitura repetitiva. Mas pensei em quantas pessoas não fazem idéia do que ela esta falando. Falar sobre os reinos de Deus e de Cesar e falar a respeito de quanto a ideologia de esquerda esta impregnada nas formas de pensamento atuais é de fato algo que só é entendido quando nos damos ao trabalho de entender. Sim, requer esforço.

Também não sou de esquerda. Sou um tipo meio conservador, meio liberal, mas que antes de tudo segue alguns princípios que são inegociáveis, tais como liberdade de expressão, liberdade de opinião, liberdade, antes de tudo. Quando morei nos Estados Unidos entendi que a liberdade tem regras. E até hoje vivo um misto entre as regras para a liberdade e a impostura que temos no Brasil. Desde os tempos de faculdade via como alguns colegas tinham dificuldade em seguir regras. O curso de arquitetura é bem livre e infestado de idealismos e cada um deles tem regras, por mais incrível que possa parecer. E o pior de tudo é a total cegueira para se entender conceitos, diretrizes, o que chega a ser algo muito aborrecido. Para ser mais exato, não tenho lá muita paciência. Fico feliz por pessoas como a Norma Braga se dedicarem a explicar certos conceitos. Não sei nem se eu teria capacidade comunicativa para explicar o que me parece óbvio. Certa feita lembro de um texto do Reinaldo Azevedo, que falava algo mais ou menos no sentido de que só usando da lógica dá para desconstruir algumas “verdades”. Em suma, se algo lhe parece estranho, basta que some as partes, analise os fatos e tire alguma conclusão. Esse pequeno esforço chega a desmistificar várias questões que parecem complexas e chatas. Aliás, por ser chato, muita gente não enfrenta esse tipo de pensamento; se incomodam, mas não enfrentam.

Eu sempre passo por um fã do Fernando Henrique Cardoso toda vez que analiso alguma “mística” do governo Lula. Não entendo muito bem o fato, pois normalmente o ex-presidente nada tem a ver com o assunto. E quando digo que a política não me interessa, mas sim as ações dos governantes e, claro, seus conceitos utilizados para a tomada dessas decisões, me falam que eu só falo sobre política. Eu, como praticamente todo arquiteto, quando começo a escrever viro um misto de sociólogo e inconformado. O problema é que nos anos da juventude sempre se quer “mudar o mundo”. Se passa um tempo e simplesmente paramos de nadar contra a maré e passamos a ”integrar o sistema”. As críticas continuam, mas descobrimos que não se muda o mundo, só no máximo conseguimos melhorá-lo. E para esta melhora, as pequenas ações são mais importantes que as grandes. Por exemplo, ao separar o lixo reciclável, uma atitude fácil de fazer e oferece, partindo da pequena escala do indivíduo, uma melhoria muito grande no mundo, apresenta no Brasil certa resistência que não consigo entender. A lógica é simples: com o lixo separado se pode fazer um processo de reutilização que por sua vez polui muito menos. Olhando com a lógica capitalista, isso gera uma nova forma de empreendedorismo, um novo mercado, uma nova oportunidade a ser explorada, a da transformação de lixo novamente em matéria prima. Nada mais racional, nada mais óbvio. E porque há tanta resistência e tanta propaganda? E aí começam as pessoas de fé duvidosa a falar sobre “novos conceitos”, sobre “como fazer um novo mundo” e por aí vai. Mas no fundo há um aspecto econômico que faz desta pequena atitude politicamente correta um instrumento de engenharia social. Assim acaba por acontecer com um monte de outras coisas, criando novos mitos, novas místicas, que também não durariam a uma boa análise lógica.

Mas eu não vou falar aqui das atitudes politicamente corretas, mas do que faz as pessoas se entreterem muito mais com abstrações do que com ações reais. Ás vezes penso em como a realidade está à nossa frente e me falam algo que não faz sentido, baseado numa abstração qualquer.

Ando escrevendo um pouco de ficção. Gosto de escrever ficção. É um gosto que esteve adormecido por anos, que nem sabia que era capaz (não sei se sou bom, isso também não vem ao caso), mas que venho me dedicando, escrevendo, anotando e lendo. Lendo muito. Descobri que um escritor não pode não ter lido os clássicos. Dedico um tempo para esta minha “abstração”. Mas o conceito é justamente o mesmo que norteia a minha profissão: conhecer o que já se fez para poder trabalhar novos conceitos, superar novas exigências, sempre com muita criatividade. Nunca recebi um comentário negativo para os pequenos textos aqui postados. Mas ao falar da arquitetura já recebi de tudo. Descobri que escrever sobre Oscar Niemeyer dá ibope ao meu blog...

Fiz uma postagem em 2007 sobre uma profunda questão, que é o déficit habitacional brasileiro, onde criticava a saída de Niemeyer desta discussão (aqui), a partir dos anos 50 e 60, quando parou de projetar as mega-estruturas (não utilizo o conceito aqui, mas a idéia dos grandes complexos habitacionais, tais como o conjunto Pedregulho, de Reidy, e o Copan, alvo da tal postagem). Os comentários traziam questionamentos de outros conceitos, como sustentabilidade, críticas a pessoa do Niemeyer, críticas ao modernismo, porém, nenhuma questão focada no assunto que me preocupa: o déficit habitacional. Ok que o texto é prolixo. Eu sou meio prolixo, mas não há estudo nenhum a respeito desse desprendimento de Niemeyer sobre este tema. Em suma, fiz um questionamento inédito. E como é inédito, sempre tem alguém que pergunta de onde tirei isso. Oras, da minha cabeça. Se Artigas e Reidy trabalharam o tema, Paulo Mendes da Rocha e Lina Bo Bardi também, não consigo entender o porquê de Niemeyer não ser questionado. Me responderam que ele (Niemeyer) diz que pensar em conjunto habitacional é dividir as pessoas em classes sociais. Conforme escrevi acima, arquitetos quando escrevem viram sociólogos...

Mas, voltando às abstrações da realidade, o texto de Norma Braga, que abriu esta postagem, me alertou como temos que lutar o tempo todo para manter nossas liberdades. Até mesmo a liberdade de pensar em algo que até então ninguém pensou.

abril 02, 2010

Jovem demais para morrer...


Num dia nada especial, numa noite sombria, resolveu que não mais deveria pertencer a este mundo. Sua resolução era reflexiva; pensava nos amigos, na tia, cuja casa dividia, na ex-esposa e na musa inspiradora de suas plácidas obras de arte, que produzia de forma quase incessante. Os quadros revelavam a verdadeira veia do artista, principalmente ao trabalhar os tons de vermelho sob o fundo branco. Seus traços eram jovens; muito mais jovens que sua verdadeira idade. Assim como o senhor Gray, sua face parece não padecer das ações do tempo.

Havia escolhido a noite para realizar o feito; o mal feito. A noite para ele era um momento mágico e ao mesmo tempo algo terrível. Mágico, pois conseguia produzir sem parar, sem atender ao telefone, sem falar com as pessoas. E terrível justamente por não perguntar para as pessoas como está indo sua produção. Sua vontade em dividir o processo criativo o amargava demais durante a noite. Como não perguntar à tia e aos amigos se gostam das cores, dos traços e se estes estão próximos ao rosto e corpo da musa, cuja inspiração não parava. Mas já havia decidido: sua vida não fazia mais sentido. Pensou em tudo, atualizou sua agenda, resolveu pendências e deixou tudo em ordem para aqueles que herdariam seu patrimônio sem valor material. Tinha seu rico dinheiro, oriundo de um marchand amigo, que vendia seus quadros. Claro, somente os que não achava perfeitos. É talvez o único artista que só vendia o que não gostava em sua produção. Sua vida era uma propaganda enganosa ambulante.

Não achava que as artes plásticas eram importantes para além do próprio artista. Mas sua maior vontade era fazer com que seus desenhos vivessem para sempre. Sempre lembrava das memórias póstumas, escritos centenários de seu autor de cabeceira, principalmente de sua dedicatória primeira. Pensava em como a matéria é imperfeita e que a condição de não poder compartilhar do mesmo solo sagrado de outros tantos não o afligia. Pensava sempre em Nicolò, proibido pelo bispo de Nice de se deitar eternamente, por conta de sua exibição de virtuosismo, como se fosse possível virtuosismo sem sua exibição.

Uma luz se acendeu no terraço com piso de pedras recobertas de uma pequena camada de musgo. Pensava em que o escuro completo não iluminaria seu caminho por entre as barcas. O tempo foi passando e ele ali parado, roendo as unhas. Já ao final da noite, próximo ao nascer do sol, decidiu que deveria mudar tudo. Não poderia ir embora antes de sua musa. Virgilio talvez o acompanhasse nas primeiras barcas, mas a principal delas somente poderia ir com Beatriz. E, num discurso semelhante ao proferido por Scarlett O’Hara, manifestou seu desejo de se livrar de seus desenhos todos e buscar a felicidade numa nova fase. Uma fase em que se sentia novamente jovem, com seu fôlego igual ao de um atleta olímpico. E no pequeno rádio tocava uma velha música conhecida...

Let's dance in style, let's dance for a while
Heaven can wait we're only watching the skies
Hoping for the best but expecting the worst
Are you going to drop the bomb or not?

Let us die young or let us live forever
We don't have the power but we never say never
Sitting in a sandpit, life is a short trip
The music's for the sad men

Can you imagine when this race is won
Turn our golden faces into the Sun
Praising our leaders we're getting in tune
The music's played by the mad men

Forever young, I want to be forever Young
Do you really want to live forever?
Forever, or never 

Forever young, I want to be forever Young
Do you really want to live forever?
Forever Young (...)


Forever Young - Alphaville (1984)

abril 01, 2010

Oh! Dúvida cruel...

Escrevi a pouco que a arquitetura dos japoneses do SANAA, ganhadores do prêmio Pritzker deste ano, parece ter uma influência de Mies van der Rohe. Mas acabo de pensar na obviedade de que Mies teve uma grande influencia da arquitetura tradicional japonesa. E agora? Oh! dúvida cruel! O óbvio é que tanto a tradição japonesa como sua leitura utilizada por Mies dão a resposta a esta produção. Isso parece óbvio demais... Acho que estou sem ritmo para escrever – e principalmente sobre a arquitetura.

Na verdade, eu não sou um profundo conhecedor da obra de Mies van der Rohe. Acho que passei tempo demais com Frank Lloyd Wright... ou Alvar Aalto. Na verdade esta arquitetura não me seduz tanto, mas, sou obrigado a dizer que a transparência e quase diluição do confinamento entre o interno e externo me faz ter várias idéias até hoje.

Tempos atrás soube que havia certa ligação entre a arquitetura de Fernando Távora e os escandinavos, tendo em Aalto uma das influências. Escrevi por aqui a respeito. Estas pequenas confluências arquitetônicas são mais do que normais e, acima de tudo, demonstram a liberdade expressiva da criatividade. Nestas horas não há dúvida alguma. A liberdade de se poder utilizar de conceitos para criar algo novo é simplesmente maravilhoso.

março 31, 2010

Pritzker Prize 2010

Acabo de saber dos ganhadores do prêmio Pritzker deste ano, os japoneses do SANAA, Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, dos quais não conheço nenhuma obra. Para ser mais exato, nos últimos tempos ando muito ocidental e, com a distância da faculdade, onde adorava folhar as revistas japonesas, fui ficando cada vez mais distante do que se faz do outro lado do mundo.

Mas, para serem ganhadores do Pritzker, sua obra ou é de uma forma bastante singular, como a de Zumthor, vencedor do prêmio ano passado, Paulo Mendes da Rocha, ganhador de 2006, ou Glenn Murcutt, ganhador de 2002, ou é de conhecimento mundial, como a de Renzo Piano, ganhador de 1998, ou Jean Nouvel, ganhador de 2008 (lista aqui).

Ao olhar as fotos no site oficial do Pritzker, notei que a produção do SANAA é bastante recente. Lembrou-me referências de Mies van der Rohe. Bem, Mies é uma grande referência para qualquer arquiteto que trabalhe com a transparência dos vidros, por sinal muito bem trabalhado pelos arquitetos. Como sempre o Pritzker apresenta uma produção arquitetônica de qualidade única.

março 24, 2010

Este ano tem Copa do Mundo...

Este ano teremos eleições e Copa do Mundo. Será que vou me encher dos dois? Muito provavelmente. Já ando meio entediado com a política e sem muitas emoções nos esportes. Se não fossem os livros e a música, mais perenes que qualquer outra atividade intelectual, estaria eu no cotidiano assunto de botequim: futebol, política e televisão. Cinema já algo elitizado demais...

Mas Copas são sempre Copas. Há emoção sempre em “ganhar”. Afinal o tal do “Hexa” é realmente importante para “a nação brasileira”... Curtir é uma coisa; usar de politicagem mixuruca para dizer que a próxima Copa será no governo do Serra é outra. Opa, falei do Serra? Pois é... Para o Lula, ganhar o Hexa é mais importante que ganhar a Copa no Brasil; ou melhor, fazer com que a Copa e a Olimpíada aconteçam no Brasil.

Lendo outro dia uma coluna do Sergio Teperman na AU, ele comentava sobre a impossibilidade de se fazer uma Olimpíada no Brasil. Mas exatamente, ele falava da força que terá que arrumar a cidade do Rio de Janeiro. Pois, Olimpíada não é bem no Brasil, mas no Rio de Janeiro. A Copa não; serão construídos elefantes brancos em vários estados brasileiros... Bem, que venha a Copa. Os problemas também virão. E as vantagens? Sim, as vantagens de sediar um evento dessa magnitude! São tantas que até hoje o Rio de Janeiro não fez o balanço do Pan-americano de 2007...

março 23, 2010

Ainda me acostumando...

Não ando tendo tempo para apreciar as novas mudanças do site e do jornal impresso do Estadão. Ainda estou me acostumando. Acho que não gostei muito do novo desenho, mas com o tempo nós nos acostumamos, não é? Acho que as coisas duram muito pouco tempo hoje. Não faz tanto tempo que o mesmo site fora remodelado. Não entendo isso. Muda, muda e sempre tem gente insatisfeita... Quem me dera ser somente um insatisfeito... Mas pelo menos os links não mudaram. Detesto quando tenho que atualizar os meus favoritos... E os meus links dentro dos textos do blog. Bem, atualmente eu já me perdi todo por aqui. Nem sei o que está ou não atualizado. Só sei que sites que lia muito antes, depois das reformulações, simplesmente deixei de ler. Com o Estadão será difícil. Tenho o jornal como referência desde há muito tempo. Bem, que o Estadão continue trazendo boa informação cultural. É, tem que se levar em conta que somente leio o Caderno 2 e o caderno de Esportes... Se o jornal fosse vendido aos pedaços eu só compraria estes dois. (Mas tem a página 2 do Primeiro Caderno! Aquela que a cada duas semanas tem um artigo do Fernando Henrique Cardoso, aos domingos... é, pelo visto o jornal é como um garimpo: você vai descobrindo uma pepita aqui, outra ali; mas no geral é muita terra e areia...).

Expedições pelo Mundo da Cultura 2010

Estava escrevendo na outra postagem falando sobre a ansiedade de ler Moby Dick, justamente por ter sido o primeiro livro do curso Expedições pelo Mundo da Cultura deste ano. O primeiro encontro foi dia 13 de março, e por um monte de motivos não pude comparecer. Bem, estarei lá para o próximo encontro. Os outros nove encontros serão:

Prometeu Acorrentado, de Ésquilo;
Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister, de Goethe;
Ilusões Perdidas, de Balzac;
O Mercador de Veneza, de Shakespeare;
Terra Desolada, de T. S. Elliot;
Eumênides, de Ésquilo;
Um inimigo do Povo, de Henrik Ibsen;
O Rinoceronte, de Ionesco; e
Tristão e Isolda, com inserção da ópera de Wagner.

Bons livros na banca...

A Editora Abril lançou uma série de livros contendo títulos clássicos de várias épocas, com uma capa luxuosa e boa impressão, além de boas traduções. O primeiro da série são os dois volumes de Crime e Castigo, de Dostoievski. Ao todo são trinta livros, contendo as maiores obras da literatura mundial. Alguns títulos são repetições de outras coleções, como Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Já estão nas bancas até o quarto volume, o já citado Memórias... Estes vão me acompanhar nos próximos anos, já que é muito difícil ler em uma semana alguns dos títulos. Estou ansioso por começar, e ainda não sei por qual. Já dei uma boa lida em O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Mas estou mesmo esperando Mody Dick, de Herman Melville. Faltariam a esta coleção as outras duas partes da Divina Comédia, de Dante; Eça de Queiroz, com O Crime do Padre Amaro; Dom Casmurro, de Machado de Assis, e, claro, Ilíada, de Homero, pois está contemplada a Odisséia. Sempre faltará algum livro... Deve ser a maldição das listas, coleções, etc.

Os três textos

Já que continuo aguardando o Renzo Piano da postagem anterior – comprar a Black Friday é isso: o melhor preço, porém, não chega nunca – aca...