abril 14, 2007

Coleções IV

Os cartões postais são talvez as coisas mais interessantes que ainda recebemos pelo correio atualmente. Aquele amigo andando pela Europa, nas férias, os colegas de trabalho em Maceió e a ex-namorada de Buenos Aires. Com o passar do tempo você chega a ter uma pequena coleção desses momentos. É uma coleção onde a quantidade nem importa muito, mas sim a lembrança das pessoas.

Por anos a fio recebia com certa freqüência os postais de um amigo onde a única mensagem era “Go Diamond”. Pouca gente entendia e eu vou continuar sem explicar. Eram de Florianópolis, Ilha de Comandatuba, Curitiba, Rio de Janeiro e até de Goiânia. Bons tempos!

Coleções III


Alguém ainda coleciona selos? Agora são auto-adesivos, como se faz para se colecionar algo assim? Realmente é uma coleção finada. Atualmente pouca coisa se manda pelo correio com selos. Diga-se de passagem que o carteiro se tornou o cara mais chato do mundo. Só trás contas a pagar, extrato do banco e propaganda. Depois do e-mail, as cartas se tornaram algo bastante raro. Quero só ver como será o futuro dos inúmeros consagrados compêndios de cartas, que durante os séculos XIX e XX marcaram muitos dos registros pensadores no mundo. Acho difícil um e-mail ser guardado por 50 anos. Acontece com certa freqüência atualmente é a publicação em livros dos conjuntos de artigos, publicados originalmente na internet. Quem sabe um dia se publicará um conjunto de trocas de e-mail.

Possuo um único selo e o guardo com carinho. Trata-se do selo comemorativo do centenário de nascimento do arquiteto Lúcio Costa (1902-2002). Espero que seja lançado também um selo de Oscar Niemeyer. Poderia se tornar uma tradição lançar selos comemorativos dos centenários dos arquitetos.

Coleções II

Uma das coleções mais comuns dos anos 90 era a de latinhas de cerveja. Dois motivos foram responsáveis por isso: a abertura da importação de inúmeras marcas, o que trazia latinhas de todos os continentes; e o fato das latinhas nos anos 90 serem produzidas em alumínio, em substituição do latão, aço, sei lá que material eram feitas. Só lembro que enferrujavam e eram duras de amassar.

Logo um dos primeiros ícones dessas coleções eram as latinhas de metal. Era o orgulho de se ter começado antes das latas de alumínio. Depois eram se conseguir as marcas regionais difíceis como um guaraná de sei lá onde, cuja lata era cor-de-rosa, ou as latinhas de coca-cola importadas, já que estas não eram vendidas em território nacional. Tiveram as especiais de natal, carnaval e até dos times de futebol. Certas coleções as latas permaneciam cheias. Algumas eram praticamente impossíveis de se esvaziar, como as de aguardente Pirassununga 51 e Pitu. Que idéia infeliz de se fazer cachaça em lata.
Houve casos de coleções enormes que depois de certo tempo, simplesmente entraram para a estatística do lixo reciclável de alumínio, depois de cheias de pó e sem local para acomodar. Atualmente não se fala sobre este que foi uma das coqueluches dos anos 90. Raro é encontrar ainda alguém que guarda a latinha depois de consumi-la, com as velhas técnicas de se deixar aquele guardanapo na boca. Sem contar a lenda urbana de se guardar os lacres das latinhas, onde com um número absurdo se ganharia uma cadeira de rodas ou algo assim. Existia a mesma lenda a respeito dos selinhos de cigarro. Como será que essas coisas esdrúxulas prosperam? Ainda hoje acho muito bonito ter-se um espaço decorado com latinhas, assim como da mesma forma gosto muito dos copos para se tomar as cervejas com as marcas, ou mesmo com os nomes dos bares. Muitos dos copos de bares de coleções são produtos de furto, afinal, não se vendiam e em muitas vezes o bar encerrava suas atividades, o que dava mais prestigio á coleção. Ou seja, nunca uma coleção se encerra nela mesma. As latinhas e os copos se complementavam, assim como canecas e as “bolachas” (porta-copo) com as marcas da cerveja ou nome do bar.

Coleções I

Já ouvi gente falando em coleção de cd´s. Uma coleção com sei lá, mil títulos. Talvez mil e quinhentos. Vamos pegar como exemplo uma coleção de mil títulos. A capacidade máxima de um cd é de 72 minutos. Vamos fazer uma média de 50 minutos por cd e teríamos a incrível quantidade de mais de oitocentas horas de música, sem parar e nem repetir. Isso daria mais de um mês ouvindo música 24 horas por dia. Seria possível humanamente ouvir tudo? Sim. Imagine-se comprando uma média de três cd´s ao mês. Em três anos já passaria da marca dos 100. Em trinta anos bateria os mil títulos. Com estes dados já podemos constatar um detalhe de um “colecionador” de cd´s: ele compra mais de 3 ao mês, pois a tecnologia de Compact Disc iniciou sua atividade a menos de 30 anos, em 1980.

No passado, antes da internet possibilitar o download de discografias completas em poucas horas (às vezes muitas horas), existia certo orgulho do “colecionador” declarar possuir todos os títulos de certo músico ou conjunto. Se ele já tinha escutado a todos os cd´s, pairava sempre a dúvida. Outra característica do “colecionador” era a financeira. Mesmo sem gastar até em comida para comprar cd´s, o “colecionador” empatava certo montante que seria difícil a uma pessoa normal. Aliás, qual seria a quantidade “normal” de uma coleção de cd´s? Primeiro, quero parar de chamar de coleção. Cd é uma das mídias pela qual podemos conhecer música. Não se pode chamar isso de coleção. Seria o mesmo de chamar uma biblioteca de coleção de livros. Segundo, será que existe alguém que não gosta de música no mundo? Mesmo se essa pessoa possa existir, existe aquele que nunca comprou um cd na vida. Logo o normal seria ter alguns títulos, comprados ao longo de um período. Talvez mais de cem em um intervalo de dez anos. Ou seja, seriam 10 por ano, menos de um por mês. Claro que o começo é sempre mais compulsivo. Acaba-se comprando tudo aquilo que sempre teve vontade. Aqueles que lhe marcaram a mídia anterior, o LP –Long Play.

A fúria em desvendar e conhecer toda a obra de um artista ou de um estilo é sempre uma motivação para iniciar o consumo descontrolado de cd´s. O mais interessante que se sabe que nunca poderemos ter todo o conhecimento do mundo. No máximo uma parcela restrita, ainda mais limitada por paradigmas de nosso tempo. Com a morte, o conhecimento do mundo continua a se ampliar, o que nos torna ainda perseguidores de uma missão impossível. Impossível porém extremamente prazerosa, o que faz perder a importância desse final sempre infeliz. Consumir música, de qualquer forma, nada tem a ver com colecionar cd´s ou arquivos mp3. É uma forma de prazer e entretenimento das mais interessantes e sempre haverá discórdia entre estilos e preferências pessoais.

abril 13, 2007

Jean Nouvel - Inédito

Muito bom sempre lembrar do passado. Tentar ver as boas coisas até no que nem era tão bom. Mas realmente interessante é ver um novo projeto de Jean Nouvel. Estava lendo agora mesmo e me deparei com a notícia: Jean Nouvel vai desenhar a nova sede da Filarmônica de Paris (La Philharmonie de Paris sera signée Jean Nouvel). Nouvel ganhou o concurso e afirma que seu edifício será uma colina de alumínio, recoberta por placas sobrepostas. O projeto será dentro do Parc de La Villette, em Paris, e terá capacidade para 2400 expectadores e o programa ainda terá uma área de estudos e de exposições.


abril 12, 2007

Tempo

"Quem fala “no meu tempo” o tempo todo já não tem muito tempo."

by Daniel Piza

Jean Nouvel em 1997

A exposição multimídia concebida por Jean Nouvel, ocorreu de 23 de setembro a 5 de outubro de 1997. Foi uma profusão de imagens em movimento, projetadas nas paredes, teto e chão na FAAP em São Paulo. Certamente melhor visualizada no período noturno, pois a luz solar atrapalhava a projeção dos slides. Estes também não foram bem visualizados no chão de madeira. A quantidade de informação era uma das maiores que havia visto até aquele momento. Eram mais de cinco mil slides com imagens de seus projetos, monitores de TV exibiram vídeos sobre suas obras nos últimos 25 anos, entre elas o Instituto do Mundo Árabe.

"- É uma mostra bastante particular, baseada na projeção de imagens que iluminam umas às outras. Algumas são bem pequenas, medindo oito por cinco centímetros. Outras têm quatro por três metros”- explica Nouvel à época. E sobre a arquitetura brasileira, Nouvel diz conhecer pouca coisa como o trabalho de Oscar Niemeyer e Lina Bo Bardi.

Isso já passa de 10 anos, e ainda lembro muito bem do impacto de ter visto pela primeira vez suas obras. Havia um debate de compor o uso da propaganda junto à arquitetura, tirar partido disso e de outras questões abordados por Nouvel. Ele volta anos depois com a proposta do museu Guggenhein no Rio de Janeiro. Nesse meio tempo também conheci outros arquitetos franceses, como Christian de Portzamparc e Dominique Perrault.



Nouvel continua sendo muito criativo, mas suas últimas obras não me agradam muito, como a torre Agbar em Barcelona e o próprio projeto do museu para o Píer Mauá. Enquanto sua obra ganha depois de mais de 20 anos uma crítica mais severa. O Instituto do Mundo Árabe até hoje tem alguns problemas com os diafragmas da fachada. A idéia continua sendo maravilhosa, mas infelizmente a tecnologia não conseguiu ali dar a solução final. Semelhante às críticas feitas ao Centro Georges Pompidou, projeto de 1970 dos arquitetos Richard Rogers e Renzo Piano. Soube que em sua última visita ao Brasil, conversou com Niemeyer e visitou as obra do SESC Pompéia e MASP.



Para Nouvel, a arquitetura deve resolver problemas sociais. Acredita que se deva humanizar o espaço público. Realmente ao analisar sua obra, além do processo de desmaterialização, algo bastante complexo para expor em poucas palavras, suas obras não permite também a escala monumental à toa. Um ótimo exemplo é seu projeto para o Euralille, onde num plano piloto feito por OMA – Office for Metropolitan Architecture - e Rem Koolhaas para a cidade de Lille, França, projeta um importante complexo, formado de um centro comercial, um bloco de moradias e um hotel com a pontuação de cinco torres. Lille se encontra na confluência da linha Paris-Londres do trem de alta velocidade (T.G.V.), com as futuras linhas Paris-Bruxelas , Amsterdã e Colonia. Há também outros projetos nesse plano, de Portzamparc, Claude Vasconi e Koolhaas.



Uma vez Nouvel afirmou, se referindo à transparência de suas obras, que se menos é mais, sou quase nada. Em texto na revista AU, o arquiteto Mário Biselli se refere a esta busca de tentar diminuir a quantidade de matéria das edificações como uma tendência, um dos caminhos da arquitetura contemporânea. Nouvel continua, para mim, um dos maiores arquitetos contemporâneos, trabalhando sempre pela busca do inédito e inesperado. Que venham os próximos inéditos!

abril 11, 2007

Glenn Hughes

No final de 1973, David Coverdale e Glenn Hughes passam a integrar o Deep Purple. A banda já havia gravado álbuns clássicos como “Machine Head” (1972), “Fireball” (1971) e “In Rock” (1970). Em 1974 gravam “Burn” e “Stormbringer”. De 3 de agosto à 1º de setembro de 1975, gravam “Come Taste The Band”, último álbum de estúdio gravado pela dupla. Gravaram outros álbuns ao vivo nos intervalos como “Live In London” (1974), “Made in Europe” (1975), e The Last Concert in Japan (1976/77). Este último em homenagem ao guitarrista Tommy Bolin morto em 1977. Tommy havia substituído Ritchie Blackmore desde “Come Taste..”. O Deep Purple após sua morte encerra suas atividades, até a volta com a formação MK II, com Ian Gillan e Blackmore de volta e lançam “Perfect Strangers” (1984). Alguns fãs de David Coverdale, afirmam que o Whitesanke, sua atual banda, teve sua origem já no álbum “Come Taste...” por terem maior liberdade de composição com a saída de Ritchie Blackmore. Mas o que eu destacaria deste álbum é a faixa “This Time Arround”, cantada somente por Glenn Hughes.

Glenn Hughes desde então segue sua carreira solo, cantando e tocando baixo, tendo participado de inúmeros projetos e até mesmo tendo sido membro do Black Sabbath, onde grava “Seventh Star” (1986). Um dos últimos projetos do qual participou Glenn Hughes é o Voodoo Hill, projeto do guitarrista italiano Dario Mollo. Continua em plena atividade e sempre cantando muito bem.

O que acho bastante interessante dos anos de Deep Purple, é o fato de que em vários momentos ao vivo, Glenn Hughes aparece muito mais que Coverdale. Não acho isso nada ruim. Aliás, na minha modesta opinião, cantava até melhor que Coverdale ao vivo. Suas influencias do Gospel, seus agudos, sua potencia vocal. Mas, porém, até hoje Hughes é somente conhecido por ser ex-Deep Purple, nada mais. Nenhum disco solo seu, ou de seus projetos chegou a ter sucesso semelhante ao Deep Purple. Aliás, em seus shows chega a abrir com “Stormbringer” e fechar com “Burn”. Nada contra abrir e fechar shows com música de outra banda, ainda mais sendo ele co-autor. Mas este parece ser o triste fim de um enorme músico, talvez tão grande quando Coverdale, mas sem a mesma expressão, nem seus hits de sucesso e muito menos tendo em sua banda componentes de renome, como Steve Vai (gravou com o Whitesnake “Slip Of The Tongue”, 1990), Rudy Sarzo e Tommy Aldrige (ex Ozzy Osbourne).

Que continue ele gravando para seus fãs, assim como eu, e que um dia seja reconhecido todo seu talento.

Elevado Arthur da Costa e Silva

Se há uma homenagem bem feita a alguém é a da via elevada Arthur da Costa e Silva, o popular “Minhocão”. Uma porcaria de presidente para homenagear uma porcaria de elevado. Não tenho palavras para expor a minha indignação para a obra que simplesmente desvalorizou todo um bairro (alguns bairros, diria). Foi bem construída, infelizmente. Poderia ser mais mal construída e ter o mesmo destino que o elevado do Rio de Janeiro, que desabou. Seria muito melhor para a re-qualificação dos bairros pelos quais “azeda”. Não consigo conceber a existência dele como simples via de acesso rápido (nem tão rápido assim) e se sua retirada um “caos” no transito. Se fazendo um bom trabalho de gestão dos fluxos de veículos a sua não existência traria mais benefícios a longo prazo. Se fez boa gestão de fluxo quando da instalação do Shopping Pátio Higienópolis, não seria difícil regular o transito naquela região.

Passamos por Jânio, Erundina (Credo!), Maluf (que logicamente não iria nunca promover sua retirada), Pitta (quem?), Marta, Serra (que fez até um concurso sobre o tema) e Kassab e nada foi feito. Jânio virou a cidade do avesso, iniciando a idéia dos corredores de ônibus. Erundina estava mais preocupada com “o buraco é mais embaixo” que não teve tempo de realizar nada de realmente útil para a urbe Aqui vale dizer que o “Parque Anhangabaú” é, minha opinião, algo que deu errado e precisa de nova reflexão, assim como a “Operação Urbana Centro” inteira. Maluf, esse sim, o autor da porcaria. Num programa do “Casseta e Planeta” (ou era Pânico) foi perguntado qual era sua sensação ao ficar em cima do minhocão... Num programa “Roda Viva”, afirmou que o Minhocão era sua melhor obra. Celso Pitta fez um belíssimo programa, na região do Guarapiranga. Mas a respeito do Minhocão foi mais um Zero. A Marta fez uma limpeza no Minhocão, arrumando a iluminação e dando manutenção à “peça”. Colocou o corredor de ônibus na avenidas abaixo do elevado transformando a aberração numa coisa até viável do ponto de vista funcional. Serra iniciou o concurso para re-qualificação da área e do entorno do Minhocão, que, pra variar, não deu em nada. Kassab, está mais preocupado em retirar a poluição visual da cidade, projeto este iniciado na gestão de Marta Suplicy. Ao menos, a Rua Barão de Itapetininga teve uma reforma bastante significativa, durante sua gestão, onde as diretrizes atuais parecem terem sido testadas. Quem sabe um dia chegaremos á uma gestão parecida com a de Curitiba, afinal, projetos não faltam, como por exemplo o do Largo da Batata, em Pinheiros e do Bairro Novo, na Barra Funda.

Variações sobre o mesmo tema

Bairro da Luz, em São Paulo. Três dos centros culturais mais importantes da cidade estão lá: a Pinacoteca do Estado, a Sala São Paulo e o Museu da língua Portuguesa. Chama-se Pólo Luz a alguns anos, logo que retiraram a rodoviária de lá, uma verdadeira aberração que era aquilo, e vem se fortalecendo a vocação cultural do bairro. Lembrando ainda que o antigo prédio do DOPS já foi restaurado, a FATEC esta ali ao lado, instalada antigo prédio que pertencia à Escola Politécnica, e do outro lado da Avenida Tiradentes existe o Museu de Arte Sacra, o quartel da ROTA e a escola do Liceu das Artes e Ofícios de São Paulo. Tudo isso e nada de reverter o processo de deterioração do bairro. Nem mesmo a reforma nos Jardins da Luz. Acredito que existem ainda ações a serem executadas, mas a principal seria o incentivo a habitação de qualidade no bairro, transformando num local cult para se viver.

Não creio que a habitação de interesse social transformaria o local, ao contrário, seria pior. A não conservação dos edifícios por simples falta de recursos não possibilitaria uma articulação com, por exemplo, o público da OSESP. Não é uma questão de elitismo, mas de lógica pontual. Acredito que o bairro da Barra Funda tem muito mais vocação para a habitação de interesse social que a Luz. Simplesmente não sei se a lógica da diversidade fomentando a habitação de interesse social se cumpriria num bairro como a Luz. Na Barra Funda os interesses do mercado imobiliário especulativo certamente traria a desejada diversidade, porém creio que o fomento de um outro bairro com características boêmias seria muitíssimo interessante. Algo parecido com a Vila Madalena. Inúmeros locais de shows, bares, restaurantes, até pequenos teatros ou cinemas de rua. Já existem localidades na centro onde se tem muito interesse pelo público, como a Praça da República e Edifício Copan. Seria somente fomentar novos investimentos e colocar na “rota dos barzinhos” o bairro da Luz.

O que eu definiria por “rota dos barzinhos”? Seria a rota, o estudo da implantação dos novos bares, restaurantes, “dance clubs”, nos bairros de São Paulo. Vamos começar com os Anos 90, onde o bairro da moda eram os Jardins, depois Pinheiros, Moema, Vila Madalena e Vila Olímpia. O transtorno para os moradores é enorme. Trânsito, ruído, bares montados em locais inapropriados e depois de passada a moda sobram uns poucos bares decadentes e uma quantidade de imóveis vagos, já que os antigos moradores já tinham ido embora. As três vantagens da Luz seriam já ter uma boa quantidade de imóveis propícios à instalação desses bares – lojas, térreos de prédios; ser próximo ao metrô, assim podendo se inverter uma lógica do deslocamento dos automóveis, substituindo por transporte coletivo, coisa que nenhum dos bairros anteriores tinha; e com o fomento de um público ligado ao meio cultural, não seria tão ruim ou mesmo acabariam com a amolação dos vizinhos por barulho produzido pela atividade boêmia. Aliando assim interesses conflitantes em ação efetiva e conseguindo reverter o processo de deterioração do bairro. Para isso precisaria ter também uma ação efetiva de combate à violência, talvez, algo nos moldes de Nova Iorque dos anos Rudy Giuliani.

abril 10, 2007

Centros de Cultura

Sempre é prudente refletir sobre o que é cultura. Cultura, segundo o dicionário pode ser: “1. Ato, efeito ou modo de cultivar. 2. O complexo dos padrões de comportamentos, das crenças, das instituições e doutros valores transmitidos coletivamente, e típicos de uma sociedade; civilização.” (Dicionário Aurélio, 1977.). Logo, um centro cultural pode ser de inúmeros aspectos diferentes, desde uma biblioteca à um museu, de uma pinacoteca à uma sala de espetáculos, de zoológico ao jardim botânico, passando até por sala de aula, escola, por que não? O que não passa é por cinema, circo, campo de futebol, autódromo, hipódromo, certos tipos de teatro, shows e parques.

Pode-se dizer que certos filmes são verdadeiras obras culturais, pois refletem os aspectos de sociedades, porém o cinema não é só isso. Na maioria das vezes é uma diversão, entretenimento. Tanto o é que quase sempre os ardidos cinéfilos os dividem em filme de autor e produção comercial. A divisão é tão sutil e tão pessoal que tudo parece uma bagunça. Um exemplo é como categorizar o José Mojica Marins. Um autor de filmes trash, ou uma pérola do terror nacional mal compreendida e com pouco recurso? Sempre vejo os cinéfilos fugindo ao tema.

Circo? Tenho horror a circo. Da minha infância fui muito pouco e estes poucos que fui já não existem mais, como o Garcia. Já não achava nenhuma graça em ver uma menina sendo pendurada pelo cabelo, os tigres, os leões, “globo da morte”, e especialmente o pior de tudo de um circo: os palhaços. Se há alguma coisa que realmente detesto é palhaço. O palhaço, na sua origem de bobo da corte, era entreter os convidados da corte mostrando um caminho debochado para se fazer um retrato da sociedade. Mas não, eram sempre uns chatos que apareciam para incomodar ou assustar as criancinhas. Não à toa, no filme inspirado na obra de Stephen King – It – o palhaço aparece e começa o show de horror. Para dar impacto na sua obra, o autor utiliza algo possível na realidade, já que o palhaço chega mesmo a assustar as pessoas, não seria nada irreal um palhaço assassino. Na Bienal de Artes de São Paulo, de 1996, fora feita uma instalação onde quatro telões exibiam palhaços e ao fundo se ouvia uma gargalhada típica de filme de terror. Realmente era natural o impacto que gerou. O Bozo, palhaço mas chato do universo, era o mentor do Garoto Juca em seu desenho animado, onde sempre saia com muita inteligência das situações. Eu diria que era algo um tanto quanto “macunaímico”, o palhaço como anti-herói. O circo em sua maioria tenta mostrar o limite da capacidade humana. Nos trapézios o mínimo erro pode-se levar a morte, assim como os domadores de leões ou aqueles que brincam com os elefantes. Sempre tentando chocar o público com sua capacidade técnica de condicionamento das ações animais ou com as anomalias, vistas em filme antigos, como a mulher barbada, anões, contorcionistas e com técnicas de engolir espadas ou pirofagia.

O futebol como arte. Realmente essa é a mais difícil para mim, um fã do ludopédio, de conceituar como puro entretenimento. Para o Brasil genericamente se referem como país do futebol, do samba, do carnaval. Seria o futebol uma alma da cultura brasileira. Na década de 1950, o Brasil era praticamente irrelevante no mundo pelo seu futebol. Ganha o primeiro mundial em 1958, depois da derrota de virada para o Uruguai no Maracanã em 1950. Nada mais é do que um esporte coletivo, motivando as técnicas de estratégia e preparo físico. Não se pode falar de cultura do futebol. Livros de técnicos (não só de futebol) que transmitem ensinamentos de gerenciamento de equipes e outros fatores não é propriamente cultura. Oras, deve-se sempre lembrar que para que exista sua diversão, alguém precisa trabalhar, ou seja, o que para você é diversão pode ser trabalho para muita gente. Assim como as corridas de carro, de cavalos, de cachorros, briga de galo. È pura diversão, às vezes de extremo mau gosto, como a popular tourada espanhola. Que existe de culto em matar um touro após fazê-lo de bobo?

Quanto ao teatro, existe muita coisa interessantíssima, lógico, mas existem as peças de puro entretenimento, como por exemplo “Monólogos da Vagina”, escrita por Miguel Falabella, ou “Analista de Bagé”.

Os shows são muitíssimo interessantes. Nada contra a eles, mas neles vamos para nos emocionar. Vamos ver aquele artista que nos emociona com sua música. Vamos para rir, como num show de Jô Soares ou Tom Cavalcante. É uma tênue linha separa entretenimento e cultura. Uma analogia possível seria ir a uma livraria e lá imaginar que todos os livros têm o mesmo valor. Como se o cuidar das plantas tivesse o mesmo valor que a obra de Dostoievski. São coisas diferentes para diferentes fins.

Num centro cultural, idéia esta iniciada com o Centro Georges Pompidou em Paris, no início da década de 1970, juntou-se inúmeras formas de cultura num mesmo lugar. Uma biblioteca junto ao teatro, junto a um museu. No Parc de La Villette, juntou a cité de la music – a cidade da música – e mais um monte de outros centros de cultura num mesmo parque. Um verdadeiro complexo cultural. Antes eram somente projetados edifícios específicos como biblioteca, teatro, arena. Essa união dos vários programas num mesmo lugar gera uma nova arquitetura. Estão presentes salas de aula, atelier, restaurante e lojas, pois muitos museus sempre dispuseram de cursos e palestras.

No Brasil surge uma união inédita: esporte e cultura. Além das bibliotecas, teatros, salas de aula, os SESC´s possuem piscinas, quadras e aulas de dança, ballet, artes marciais e ginástica. Uma belíssima união. A mesma união já estava presente em parques como o Ibirapuera, porém a diferença esta na assistência, com vestiários, orientadores físicos, etc.

Porém, no Brasil, existe certa tendência de achar que centro cultural deve ter exposições de arte, fotografias, vídeos, sobre as letras, de certa forma somente focada na área das ciências humanas, esquecendo as outras áreas. O Jardim Zoológico é algo colocado com um simples jardim, ou algo para se visitar com as crianças. Não se entende como promotor da cultura. Nota-se ao se chamar uma pessoa das ciências humanas se utiliza o termo intelectual, enquanto que para as áreas biológicas o máximo que se diz é especialista. Tenta-se forjar a idéia que somente um escritor, historiador, poeta ou filosofo é um agente cultural. Eis então a grande quantidade de centros culturais “espalhados” sempre nos mesmos locais, falarei em breve sobre isso, todos eles com suas áreas de exposição, midiateca, biblioteca e loja.

Não se tem notícia de nenhum novo centro que tenha uma mínima vocação ao local onde será proposto. Adoraria ver construídos a cidade da música do Rio de Janeiro e o Museu Guggenheim, no Píer Mauá, respectivamente projetos dos arquitetos Christian de Portizamparc e Jean Nouvel. É bom refletir, como cita o arquiteto Márcio Roberto em relação à construção do Museu Guggenhein: “(...) Há pelo menos uns 20 anos, representantes de diferentes grupos internacionais aparecem freqüentemente por aqui, buscando parcerias e formas de viabilizar a construção de um grande aquário ou um complexo deles, que poderiam ser anexados a uma universidade de estudos do mar, biologia marinha etc. Enfim, um produto que ainda não existe no país (...)”. Sua reflexão vem de encontro à questão proposta por este texto - falta de centros culturais nas outras áreas da cultura. Outra questão, especificamente na cidade de São Paulo, é a localização dos novos centros culturais. Praticamente estão ou na Avenida Paulista ou no centro da cidade. No caso do centro, dando nova função aos antigos edifícios, o que é um processo de enorme complexidade cultural e de difícil compreensão do público leigo no curto prazo.
Salvar o patrimônio da cidade vai muito além de uma simples preservação histórica. A arquitetura é uma das bases antropológicas do conhecimento de uma civilização. Assim como um monumento, a arquitetura da cidade só tem sentido se preservada além do edifício, em seu conjunto. Conforme comenta o arquiteto Miguel Forte: “Arquitetura: o grande reflexo de todas as épocas.” A partir do momento que se retira uma peça de arte, como por exemplo uma escultura de uma igreja, esta escultura sozinha não representa o contexto completo. Continua sendo obra de arte, mas perde seu sentido original e com ele aquilo que poderia ser a lógica de sua essência. Entender desde a indústria cultural ate o patrimônio histórico é conjunto muito amplo de conhecimento e atinge certamente muitas áreas.

Os três textos

Já que continuo aguardando o Renzo Piano da postagem anterior – comprar a Black Friday é isso: o melhor preço, porém, não chega nunca – aca...